AMBIENTE

Mineração: o Brasil na contramão do mundo

Alinhado a Trump, governo Bolsonaro promove guinada na posição ambientalista brasileira

Brasil de Fato | Porto Alegre

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O carvão é a mais poluente das fontes de eletricidade no planeta. / Foto: Maia Rubim/Sul21

Um grupo de países já anunciou que vai banir o carvão de seus fornos. Acontecerá até 2030. Inglaterra, França, Itália, Canadá e México são alguns deles. A decisão foi anunciada na COP23, a conferência do clima organizada pela ONU em 2017. Entre os combustíveis fósseis, o carvão ainda ocupa o primeiro lugar entre as fontes de eletricidade no planeta. Porém, é a mais poluente de todas. 

É uma atitude que bate de frente com as intenções de Donald Trump. Ele alega que a redução de gases que provocam o efeito estufa prejudica a indústria norte-americana. Baseado nisso, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. O Acordo – um pacto global contra as mudanças climáticas – estabelece regras que comprometem os países com a proteção ao ambiente natural. 

Na COP24, realizada em dezembro de 2018, na Polônia, o Brasil foi alvo de ataques.  Não pela poluição associada ao carvão – que representa apenas 3,7% de sua matriz energética – mas pelos recuos no setor. Alinhado a Trump, o governo Bolsonaro desistiu de sediar a COP25, que vai acontecer em novembro deste ano. O encontro, então, acontecerá no Chile.

A guinada na posição ambientalista brasileira, sustentada ao longo de décadas e muitos governos, recebeu uma saraivada de críticas da opinião pública internacional. Os ataques vão desde a perda do protagonismo do Brasil na questão do clima até sua aliança interna com os desmatadores.

Ataque à saúde e ao ambiente

O carvão carrega consigo “uma enciclopédia de poluentes” adverte Paulo Brack em entrevista à repórter Catiana de Medeiros. Mestre em Botânica pela UFRGS, doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar, de São Carlos/SP, Brack é também ligado ao InGá - Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais. Suas respostas estão sintetizadas nos tópicos seguintes.

O impacto: “Os impactos de uma mina de carvão são imensos à biodiversidade. Inicialmente, ocorre a necessidade de rebaixamento de lençol freático, desvio de cursos de água, intervenção em ecossistemas etc”.

A natureza: “Os ambientes aquáticos seriam os mais afetados, primeiro pelo rebaixamento do lençol freático, em segundo lugar, pela elevada acidificação das águas (por métodos quase sempre ineficientes ligados à drenagem ácida da mina) que elimina a possibilidade de vida de vertebrados, como peixes, anfíbios, répteis, mamíferos e aves.”

Os metais pesados: “Teríamos a contaminação química por metais pesados tóxicos (zinco, cobre, mercúrio, chumbo, cádmio, entre outros) além da turbidez maior dos cursos de água e particulados (poeira de minério de carvão) que afeta flora, fauna e saúde humana”. 

Os alimentos: “A agricultura, e em especial a agroecológica, que floresce em Eldorado do Sul e na região, seria profundamente afetada e ameaçada. Estamos lidando com impactos socioambiental multifacetados”.

A água e o ar: “As águas tornar-se-iam contaminadas, seja pela acidez acentuada e inevitável nos corpos hídricos, ou por metais pesados e sem chance de serem utilizadas à população, comprometendo também a qualidade do ar pela poeira decorrente dos rejeitos, das pilhas de carvão, dos gases tóxicos de enxofre, nitrogênio, monóxido de carbono, entre outros”.

A saúde: “Estamos lidando com altíssimos riscos à saúde humana, inclusive desde a possibilidade de incremento de morte prematura de fetos ou bebês pelos contaminantes (metais pesados ou substâncias tóxicas) até aumento de doenças crônicas e morte prematura de adultos”.

Quem ganha: “A sociedade deve ter em mente que, por trás da demanda de consumo energético sem limites, existe uma economia de mercado que não está preocupada com o uso racional de energia nem com limites aos negócios de sempre. Quanto mais mineração e energia utilizamos, mais as empresas lucram em cima disso”.

Quando a reação popular derrota a poluição

Borregaard” até hoje é sinônimo de mau cheiro em Porto Alegre e arredores. É o resultado das emissões fétidas da empresa de mesmo nome que, vinda da Noruega, instalou-se em Guaíba, defronte à capital gaúcha, em 1972. “Borregaard” é também exemplo de como uma comunidade unida pode enfrentar e vencer a contaminação ambiental. A reação popular forçou a interdição e a venda da indústria. E ainda alimentou o surgimento do movimento ambientalista gaúcho então o mais atuante do país. 

A Borregaard desembarcou no Brasil sob a fanfarra e o apoio oficial. Já em 1967, um decreto da ditadura, de número 60.803, considerava o projeto “de alto interesse nacional”. Tão alto que o Banco Regional de Desenvolvimento Econômico, o BRDE, entrou com 43% dos recursos do investimento de US$ 76 milhões. 

Começou a operar em 1972 liberando 3,5 toneladas/dia de componentes sulfurosos. Sob fogo cerrado da mídia – sobretudo do Correio do Povo, de Breno Caldas – dos ecologistas, de parte dos políticos e com péssima imagem junto à população, suspendeu as operações por 100 dias em 1974 para tentar atenuar o problema. Voltou a operar sem uma solução e, em 1975, teve o controle acionário repassado ao consórcio Sulbrasileiro/Montepio da Família Militar. Com o tempo, os principais problemas foram solucionados. Trocou de mãos várias vezes e hoje é controlada por um grupo chileno sob o nome CMPC Celulose Riograndense Ltda. 

Campeã do carvão, China agora quer ser “economia verde”

Mais de 1,1 milhão de chineses morrem anualmente devido a doenças associadas à poluição. E o principal agente da contaminação atmosférica é o carvão, base da indústria nacional. A China contribui com uma quarta parte das emissões globais de gases, sendo 85% gás carbônico. Usinas e indústrias consomem metade do carvão mineral do mundo. Mas isto está, lentamente, mudando. 

Após triplicar no começo do século, o consumo de carvão está em queda na China. As emissões de dióxido de enxofre e de óxido de nitrogênio devem cair 3% em 2019. O mesmo vale para a concentração de material particulado fino (PM 2.5) que continua a diminuir. A mudança tem origem na decisão do estado chinês, em 2014, de combater a poluição e caminhar rumo a uma “economia verde”. 

Investiu em energia alternativa – o país é o maior fabricante mundial de painéis solares – e tornou-se grande mercado de carros elétricos. Fechou minas e fábricas, puniu gestores e empresários – inclusive com prisão – que não cumpriram suas metas, retirou das ruas milhares de veículos poluentes, implantou filtros de ar nas escolas, ampliou o monitoramento de forma que cada chinês através de um aplicativo, em qualquer canto do país, pode monitorar no seu celular a qualidade do ar, minuto a minuto, na sua cidade.

Nos últimos anos, Pequim deixou de frequentar o ranking das cidades campeãs mundiais de poluição atmosférica. Não figura nem mesmo entre as 100 primeiras. Entre as 20 mais poluídas da avaliação de 2018 há somente duas chinesas. As restantes pertencem à Índia, Paquistão e Bangladesh. 

A capital fechou as minas de carvão nos seus seis distritos, baixou seu consumo para sete milhões de toneladas/ano – eram 22 milhões em 2013 – e planeja eliminar de vez o uso do combustível também como fonte de aquecimento doméstico.


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 13) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.  

Edição: Marcelo Ferreira