EXÍLIO

Evangélica defensora da legalização do aborto deixa o Brasil após ameaças de morte

Perseguida pelo fundamentalismo religioso, a única opção de Camila Mantovani foi sair do país nesta segunda-feira (29)

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"Perdi o direito de viver minha vida como a vivo hoje", escreveu Camila, 24 anos / (Foto: Arquivo pessoal/Facebook)

“Lutei o quanto pude pra não ter que sair, mas me colocaram no limite. Estou indo porque quero viver e quero viver porque quero continuar a construção de um outro mundo”. Com essas palavras, Camila Mantovani, jovem evangélica e defensora da legalização do aborto, anunciou em sua rede social que seria obrigada a sair do Brasil após receber ameaças de morte constantemente. A ativista religiosa deixou o país nesta segunda-feira (29). 

Há cerca de dois anos, Mantovani fundou a Frente Evangélica pela Legalização do Aborto junto com outras ativistas religiosas que defendem os direitos das mulheres. Desde então, Camila recebe mensagens de ódio, mas, em setembro do ano passado, a perseguição se intensificou.

Após notar que pessoas armadas a seguiam, Camila saiu de casa e passou a não ter endereço fixo. Ainda assim, as ameaças não cessaram. Com o perigo iminente, uma rede de apoio foi formada com o objetivo de viabilizar a mudança de Camila do país para mantê-la em segurança. 

“Perdi o direito de viver minha vida como a vivo hoje. Perdi esse direito porque o fundamentalismo que governa o Brasil hoje assassina qualquer profeta que denuncie o pecado das grandes lideranças. Estou indo embora do país em exílio depois de esgotar todas as minhas possibilidades de ficar aqui e permanecer viva”, escreveu Mantovani, moradora do Rio de Janeiro.

Além de ser defensora da descriminalização do aborto, ela notabilizou-se por prestar solidariedade e apoio pastoral a mulheres evangélicas que sofrem violência doméstica.

A pastora Romi Márcia Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) – uma das entidades que está apoiando Camila – comenta as ameaças que a jovem vem sofrendo. 

“Primeiro as intimidações eram via rede social mas depois isso começou a se materializar. A casa dela começou a ser vigiada. O pai dela também recebeu um 'recado' do tipo: 'Se você não cuidar da sua filha, cuidamos nós'. A Camila começou a ser seguida. Uma série de coisas foram acontecendo e que indicavam que ela estaria em risco. Como isso tudo acontece na cidade do Rio de Janeiro, compreendemos que isso precisa ser levado muito a sério. Não poderíamos esperar pra ver o que iria acontecer”, conta Bencke.

A representante do Conic acrescenta que a insegurança vivida por Camila é comum a maioria de defensores dos direitos humanos que vivem no país. Os dados confirmam: O Brasil é o país que contabilizou o maior número de assassinatos de defensores de direitos humanos e socioambientais em 2017, com 57 assassinatos. As informações são do relatório anual da Global Witness, publicado ano passado. 

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Segundo Romi, “organizações que se dizem religiosas” são as responsáveis pela perseguição contra Mantovani.

“Porque digo que 'se dizem' religiosas? Tem muitas igrejas, principalmente no estado do Rio de Janeiro, que possuem vinculação com o crime organizado ou pelo menos acabam assumindo práticas que são do crime organizado. As ameaças e intimidações que ela [Camila] tem sofrido partem de pessoas vinculadas à igrejas. Principalmente essas igrejas inseridas dentro de favelas no Rio”, denuncia a pastora.

 A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) encaminhou o caso para investigação do Ministério Público e da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. A reportagem entrou em contato com o MP-RJ para pedir posicionamento sobre a investigação, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.

Camila deixou o país nesta segunda-feira (29) e tem recebido uma série de apoios. Talíria Petrone, deputada federal pelo PSOL, prestou solidariedade a jovem, que fazia parte da equipe de assessoria da parlamentar. 

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“Mais uma exilada política pelo autoritarismo e pelo fundamentalismo. Camila Mantovani da Silva, mulher, evangélica, militante pela legalização do aborto num contexto em que a ilegalidade mata tantas mulheres pobres”, escreveu Talíria em sua página oficial no Facebook.

“Seu exílio é uma derrota do Brasil, da democracia e da liberdade. Que rapidamente criemos as condições para que ela volte e possa seguir defendendo suas ideias ao nossa lado, por uma sociedade justa, solidária e democrática”, destacou a deputada.

Estado laico 

Impulsionado pela eleição de Jair Bolsonaro, o fundamentalismo religioso segue em crescimento no país e em todas as suas esferas políticas. Após o pleito eleitoral do ano passado, por exemplo, a bancada evangélica passou a ter 91 congressistas. 

Na opinião da pastora Romi Márcia Bencke, quando chegam ao poder, as forças conservadoras mudam os mecanismos do Estado e restringem os instrumentos de proteção dos indivíduos que se opõem à moral religiosa defendida. 

“A partir do momento em que se faz um discurso religioso fundamentalista orientado pela violência, dizendo que o mundo está dividido entre bons e maus, e que algumas pessoas merecem viver e outras não, se acirra uma série de mecanismos de ódio e as pessoas pensam que agora está legitimado, liberado. Isso afeta diretamente a laicidade do Estado”, critica Bencke. 

Ela ressalta que a religião e a política estão sendo instrumentalizadas para dar legitimidade a “ódios sociais.”  

“O fato desses grupos religiosos fundamentalistas terem esse discurso é ok, numa sociedade plural todos os discursos cabem. A questão é o Estado brasileiro se deixar pautar por esse tipo de articulação, por esse tipo de discurso. Esse é o grande problema que estamos enfrentando hoje. O Estado acaba ficando refém de uma certa concepção religiosa que não é a concepção que representa a maioria de brasileiros e brasileiras”. 

Leia a íntegra do texto de Camila Mantovani:

“Perdi o direito! Perdi o direito de viver no meu próprio país! Quem defende a laicidade do Estado, é massacrado por um Estado que não é laico. Perdi o direito de viver com minha família e meus amigos, de levar meu trabalho adiante. Perdi o direito de viver minha vida como a vivo hoje. Perdi esse direito porque o fundamentalismo que governa o Brasil hoje assassina qualquer profeta que denuncie o pecado das grandes lideranças. 

Perdi meus direitos porque um Brasil governado por evangélicos é um Brasil anti povo, anti direitos, anti pluralidade, tão importantes para assegurar a democracia! Estou indo embora do país em exílio depois de esgotar todas as minhas possibilidades de ficar aqui e permanecer viva. Lutei o quanto pude pra não ter que sair, mas me colocaram no limite. Estou indo porque quero viver e quero viver porque quero continuar a construção de um outro mundo. Estou indo porque quero deixar minha família e meus amigos seguros. 

Estou indo, mas continuo a denuncia da barbárie que esse país se tornou sendo um país tão evangélico! Sigo na luta, porque a despeito da Igreja hegemônica que persegue e mata quem ousa contrariá-la, eu tenho comigo a força do Nazareno, do Deus que encarnou preto e pobre, do Deus que valorizava as mulheres. Eu sigo com Jesus Cristo, apregoando o Reino de Deus, mesmo que isso me custe a Cruz! 

Me tiraram tudo, mas o sorriso de quem tem paz no coração fica! Aqui ou em qualquer lugar eu sigo pela vida das mulheres, pelo respeito a diversidade, pela garantia da democracia, contra o fundamentalismo religioso! Da luta, não me retiro.”

Edição: Aline Carrijo