Política

Quem é e o que pensa a primeira brasileira eleita para o Parlamento da Espanha

Militante dos direitos humanos, Maria Dantas é advogada e se define como "antirracista, antifascista e antimachista"

Brasil de Fato | Barcelona (Catalunha)

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Maria Dantas é sergipana e chegou à Europa há 25 anos / Reprodução/Twitter

Eleita no último domingo (28), Maria Dantas é a primeira brasileira a ocupar um cargo no Parlamento da Espanha. Representante da Esquerda Republicana da Catalunha, após mais de 20 anos de ativismo em movimentos populares, ela atua como defensora dos direitos humanos e tem como pauta prioritária o combate às ideias de extrema direita.

Durante a comemoração da vitória eleitoral, a parlamentar vestia uma blusa estampada com o rosto de Marielle Franco (PSOL), vereadora  assassinada em 2018 no Rio de Janeiro (RJ). “As pautas de Marielle são universais e estarão no Congresso da Espanha. Não só na Espanha, mas em toda a Europa”, declarou a deputada, que se diz contrária ao governo Jair Bolsonaro (PSL): “Eu, brasileira, antirracista, antifascista, antimachista, anti-islamofobia, anti-LGBTfobia, nordestina, cabra da peste, vou colocar minha peixeira no meio dos dentes e repercutir as atrocidades que esse governo neofascista está cometendo no Brasil, com o povo preto, pobre e subalternizado”.

Natural de Aracaju (SE), Dantas é advogada e chegou a Barcelona há 25 anos para realizar estudos em Direito Ambiental, Filosofia Jurídica, Moral e Política, além de Finanças, sua área de trabalho atual. Ela sentiu na pele as dificuldades da vida de imigrante na Europa, o que estimulou ainda mais sua militância política.

Integrante da Unidade Contra o Fascismo e o Racismo (UCFR), plataforma que congrega mais de 600 coletivos de incidência política, a deputada eleita participa de organizações como Stop Mare Mortum, Emergência Fronteira Sul, Coletivo Tras la Manta, Plataforma Brasileiras contra o Fascismo de Barcelona, Conselho de Cidadania do Brasil em Barcelona, entre outras.

“Nesses 20 anos, com todas as minhas companheiras e companheiros, o trabalho que fizemos foi o de 'empurrar' as instituições”, conta Dantas, que entra na política institucional após ter recusado cinco convites do partido. “Agora é o momento, principalmente porque a extrema direita está entrando no Congresso espanhol pela primeira vez desde a redemocratização, como aconteceu no Brasil”, explica.

Entre as propostas que pretende defender no Parlamento, estão o fim da Ley de Extranjería, que regula a entrada de estrangeiros em território espanhol, bem como o fechamento dos centros de internamento de imigrantes. “Estas pessoas nunca cometeram nenhum tipo de crime e são presas pela sua condição de imigrante”, relata. “Vamos lutar pela adoção de vias seguras para que as pessoas saiam dos seus países e possam legalmente entrar na Europa, que se diz pró-direitos humanos, mas deixa pessoas mortas no Mar Mediterrâneo. Migrar é um direito que tem que ser respeitado”, defende a deputada.

O atual presidente Pedro Sánchez (PSOE), foi considerado o maior vencedor das eleições legislativas na Espanha, embora ainda tenha desafios para formar o governo. Ele obteve mais que o dobro de cadeiras que o conservador Partido Popular, que sofreu uma derrota histórica. Na Catalunha, o partido mais votado foi a Esquerda Republicana, de Maria Dantas, fortalecendo o bloco pró-plebiscito pela independência da Catalunha no poder.

O embate, que deverá esquentar nos próximos meses, é apenas mais um na trajetória da deputada recém-eleita, que recorda as palavras de Marielle: “Nas instituições, nos parlamentos, tem que ter mulher, preto, pobre, indígena, sapatão, o diabo a quatro! Temos que tomar conta das instituições para ver se de uma vez por todas as políticas públicas sejam de caráter social”, finaliza.

Edição: Daniel Giovanaz