Legado

Há 10 anos, falecia Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido

Boal manteve relação próxima com o MST, tendo organizado mais de 40 grupos de teatro em assentamentos

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Um dos maiores dramaturgos brasileiros, Boal usava a arte como ferramenta para transformação social / Foto: Thehero/Wikicommons

Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas não tenham dúvidas: é um ensaio da revolução! (Augusto Boal)


Falecido aos 78 anos de idade, Augusto Boal foi e ainda é um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira, principalmente por conta de sua forma de trabalhar o teatro como ferramenta de luta política e social. Boal é criador do Teatro do Oprimido, técnica cênica que coloca os espectadores como protagonistas nas encenações, suprimindo a separação entre realidade e ficção.

O artista é autor de diversas obras literárias e vencedor de prêmios e honrarias no Brasil e no mundo, chegando a ser nomeado Embaixador Mundial do Teatro pela Unesco, em 2009, ano de sua morte. 

Boal foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira e teve de se exilar. De volta ao Brasil, estreitou seu envolvimento com movimentos populares, se tornou grande parceiro do MST e ajudou a organizar mais de 40 grupos de teatro em assentamentos e acampamentos de áreas do movimento. 

"Uma das experiências fundadoras no teatro dele foi o trabalho com as Ligas Camponesas, ainda nos anos 1960, antes do golpe de 1964. Assim, o trabalho com o MST, depois do fim da ditadura, representava uma forma de reatar os laços que havia iniciado nessas experiências pré-golpe. Além do fato de o MST se colocar como continuação da luta das ligas camponesas, o trabalho teatral com o movimento camponês também era uma continuidade daquilo que a ditadura tinha tentado eliminar”, relata Douglas Estevam, da coordenação da Brigada Nacional de Teatro do MST. 

"Todo mundo é teatro"

O Teatro do Oprimido é uma metodologia teatral que se baseia na ideia de que “todo mundo é teatro”. A ideia central é que, por meio de exercícios, técnicas e jogos, os participantes sejam estimulados a refletir sobre relações de poder, discutindo as questões do cotidiano ao encenarem as próprias histórias. 

“Ele não queria que os trabalhadores e trabalhadoras, camponeses e camponesas, fossem meros espectadores. Era parte da concepção dele com o Teatro do Oprimido romper essa barreira entre palco e plateia, romper esse lugar e um espectador consumidor, e tornar os espectadores em próprios agentes produtores do fazer teatral”, explica Estevam.

Em 1986, Augusto Boal cria o Centro de Teatro do Oprimido como forma de difundir a técnica do Teatro do Oprimido no Brasil. Atualmente, esta técnica é utilizada como ferramenta de transformação social, política e artística em mais de 70 países. 

No dia de seu falecimento, o MST fez um texto despedida em homenagem ao dramaturgo, ressaltando a importância de sua passagem pelo movimento. Para Estevam, a tradição de luta e tentativa de junção da arte com a política foi uma experiência que alterou os rumos da história do teatro. Ele também acredita que o legado de Augusto Boal ainda tem um potencial construtivo para todos os movimentos populares. 

Lançamento do livro “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas”

Na data em que se completam dez anos de morte de Augusto Boal, o Instituto Augusto Boal e a Editora 34 lançaram a nova edição do livro Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. O lançamento ocorreu na noite dessa quarta-feira (2), no Armazém do Campo, do MST, no Rio de Janeiro.

Edição: Rodrigo Chagas