ARMAS

Artigo | Como funciona a maior feira de armas da América Latina?

A Latin America Aero and Defense (LAAD) Defense and Security Expo acontece desde 2003 com edições no Rio e São Paulo

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Estande das brasileiras Taurus e CBC indica o interesse do mercado na flexibilização da posse e do porte de arma / Divulgação

Duas explosões colocaram em risco a vida de vinte mil pessoas no centro de exposições Riocentro, na Zona Oeste do Rio de janeiro, durante as comemorações do Dia do Trabalhador, no 1 de maio de 1981. Tudo não passou de uma tentativa frustrada do governo militar de forjar uma ataque terrorista supostamente protagonizado por grupos esquerdistas, com a intenção de retardar a abertura política e prolongar a ditadura militar. Alguns anos depois, em 1987, o atual presidente da república Jair Bolsonaro, tornou-se pivô de uma conspiração similar, em que se pretendia explodir bombas-relógio em unidades militares do Rio de Janeiro como forma de reivindicar aumento salarial e melhores condições de trabalho. O desmantelamento da operação celebrizou Bolsonaro e inaugurou sua carreira como figura pública, mas os perigosos e subversivos são os esquerdistas.

Em 2019, entre os dias 2 e 5 de abril, o mesmo Riocentro recebeu a 12ª edição da Latin America Aero and Defense (LAAD) Defense and Security Expo, a mais importante feira internacional de defesa e segurança da América Latina. Esta feira acontece desde 2003, originalmente denominada Latin America Defentech (LAD), e alterna sua ocorrência entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Em virtude da viagem oficial de Bolsonaro à Israel, a abertura feira foi prestigiado pelo então presidente em exercício Hamilton Mourão, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella.

Em paralelo à feira, ocorreu o VIII Seminário de Segurança LAAD, que contou com a presença do Ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, que inaugurou o evento com a palestra magna intitulada “Qual a visão do novo governo para propostas como alteração da legislação penal, sufocamento financeiro do crime organizado, excludente de ilicitude, audiência de custódia e valorização das forças policiais?”. O seminário se propôs a realizar um amplo debate sobre segurança pública, contando com a presença de outros órgãos governamentais e membros das forças armadas, mas um debate entre iguais se parece muito mais como reunião de planejamento do que um espaço aberto ao diálogo e diferentes proposições.

No terceiro dia de realização da feira, popularmente chamada pelo movimento de favelas como “feira da morte”, foi realizado um pequeno protesto organizado por moradores de favelas e familiares de vítimas da violência do Estado. Eles estiveram ali com cartazes, gritos de ordem e faixas repudiando todas essa prática racista dos governantes e das empresas de armas. O protesto não durou muito tempo, pois logo chegou a cavalaria da polícia e os manifestantes foram expulsos do local.

As armas, os coletes, os drones, carros blindados e todas as técnicas ali mostradas na feira da morte, são testados nas favelas e em outros lugares do mundo. Sabe-se que isto é parte da internacionalização das técnicas de matar e de controlar. As armas mais vendidas, são aquelas já testadas no corpo humano. As que mais matam, são as mais vendidas, internacionalizadas. Selos que indicam testes em campo de batalha valorizam os produtos. Ou seja, nossos corpos são experimentos, nossos locais de moradia são laboratórios para as indústrias de armas, as indústrias da morte. É preciso dizer não à realização de um evento como este não só no Rio, mas em qualquer parte do mundo.

No protesto, foi colocado que nos últimos anos, as polícias do Rio e o Exército brasileiro tem aumentado o seu aparato militar nas operações que fazem nas favelas, o resultado disso é o aumento de casos de auto de resistência, chacinas, além de casas, carros e ruas perfuradas por tiros disparados dos caveirões aéreos, além do trauma psicológico que toda a população sofre diante de um cotidiano militarizado. Mas afinal, o que acontece dentro daqueles gigantescos pavilhões? Como é a maior e mais importante feira de armas da América Latina?

Por dentro da feira: o pavilhão dois e os expositores nacionais

Após credenciamento no pavilhão um do centro de convenções, ao me deparar com o primeiro detector de metais, fui recebido com uma continência militar.

— O senhor está armado? — perguntou-me o jovem recruta com imensa naturalidade.

Não consegui conter a risada, afinal, nunca havia pensado na possibilidade de andar por aí com uma arma na cintura. Ao meu redor, ninguém  achou graça, o lugar estava repleto de militares, policiais e outros profissionais de segurança, muitos deles, armados.

A caminho do segundo pavilhão, dedicado em sua maior parte às empresas nacionais, era possível ouvir uma grande variedade sotaques e línguas. Havia poucas mulheres e, entre engravatados e marinheiros engomados, misturavam-se homens em traje completo de combate e alguns sujeitos daqueles que só vemos em filme policial norte-americano. Bem diante da porta monumental, o primeiro estande que avistei estava ocupado pela Protecta, empresa nacional especializada em coletes balísticos. Seus produtos estavam expostos de maneira muito curiosa: os coletes à prova de balas foram pendurados em molduras douradas, à maneira das grandes  obras de arte.

Um pouco mais adiante estavam alocadas a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), empresa de economia mista especializada em munições, e a Taurus Armas, produtora de armas de fogo. Suas espingardas, fuzis, carabinas, pistolas e munições estavam expostos em nichos de vidro como se fossem bolsas ou sapatos de luxo. Em uma grande mesa, alguns destes equipamentos estavam presos por cabos de aço, de modo que pudessem ser manuseados livremente pelos visitantes, como se fossem aparelhos eletrônicos numa loja comum. Neste espaço, militares entusiasmados brincavam com armas que, até então, só haviam visto em jogos de videogame, uma cena recorrente em toda a feira.

Ainda no estande CBC/Taurus, uma grande vitrine expunha diferentes modelos de armas de pequeno porte, mais apropriadas ao uso pessoal. Bem atrás deste expositor, uma grande faixa em verde e amarelo afirmava em letras garrafais “LEGÍTIMA DEFESA É UM DIREITO SEU”. Entre as armas ali colocadas, destacava-se uma espingarda cor-de-rosa. Afinal de contas, no país da revolução do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, mulher também pode andar armada. Mas será que pode matar seu marido sob a justificativa de legítima defesa da honra? Acredito que não.

Apesar disso, é evidente que, se os professores e funcionários da escola em Suzano estivessem armados, o massacre teria sido impedido. Não que isso tenha acontecido em Columbine, nos Estados Unidos, país que abriga a população civil mais armada do mundo.

O pavilhão três: é possível blindar o coração do homem?

No pavilhão três, o destaque era uma exposição histórica sobre a vida e os inventos de um peculiar herói das forças armadas brasileiras. Dentre outras curiosidades, esta figura tinha sua sexualidade questionada constantemente porque usava cabelo repartido, muitos anéis e adorava bordar, numa época em que tudo isso ainda era atributo exclusivamente feminino. Tratava-se de Alberto Santos Dumont, patrono da aviação, homenageado na feira pelo Museu Aeroespacial (MUSAL), numa exposição em que figurava uma réplica em tamanho real do Demoiselle, avião que marcou o fim de sua carreira aeronáutica como piloto, após um acidente alarmante. Mas entre os textos dos painéis biográficos da exposição, não se contava que o patrono da aviação morreu vítima de um suicídio em 23 de julho de 1932, aos 59 anos, no Guarujá, SP. O aviador tirou sua própria vida após constatar que seus inventos estavam se tornando máquinas mortíferas. Haveria maior ironia?

Bem atrás do Demoiselle, estava exposta talvez a mais importante peça da LAAD, um exemplar do avião supersônico Saab Gripen E/F 4th-Generation, produzido pela Saab AB, empresa sueca criadora de sistemas de defesa e segurança aeroespacial, ativa no mercado desde 1937. A Força Aérea Brasileira (FAB), em 2013, ainda sob o governo Dilma, encomendou 36 destas aeronaves ao custo de cerca de R$20 bilhões de reais para os cofres públicos. O diferencial é que a montagem dos aviões será realizada no Brasil, em parceria com a Embraer (atualmente um conglomerado transnacional), no Aeródromo de Gavião Peixoto, SP, no que constitui o chamado Programa Gripen, ovacionado pelos especialistas em defesa.

Havia filas quilométricas de visitantes ansiosos para tirar selfies sentados na cabine do espantoso supersônico. Era como um brinquedo gigante. E quando deixou de ser? A verdade é que compramos 36 quebra-cabeças bilionários e vamos brincar de cientistas, fazendo de conta que estamos produzindo conhecimento. No fim das contas, quem se saiu ganhando mesmo foi algum magnata armamentista europeu. Lembrando que, o Gavião Peixoto abriga a pista de pouso e decolagem asfaltada mais longa das Américas, a quarta do mundo. Não sei se existe espaço suficiente para tanto na Suécia. De qualquer maneira, os trópicos estão logo ali, de portas abertas, cheios de espaço e dinheiro para financiar o desenvolvimento tecnológico do Velho Mundo.

O primeiro caça Gripen montado no Brasil será entregue em 2024. Em pouco tempo, estaremos mantendo uma grande frota de aviões prontinhos para uso de Donald Trump, sempre que precisar. Bobo foi Santos Dumont, que fez questão manter em domínio público a patente do Demoiselle e que, certa vez, encorajado a lucrar com seus inventos, retrucou: “Prefiro terminar num asilo de pobres a cobrar o privilégio de copiar meus experimentos aéreos.”

Para além dos militares curiosos, quem estava de olho na suntuosa aeronave era um singelo burro de carga cenográfico que carregava um antigo carro do corpo de bombeiros exposto pelo Museu Histórico do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (MCBMERJ). Ao lado dele estava exposto um avisador de incêndio, de 1879, da marca Siemens & Halske.

O assustador é que a centenária Siemens até hoje vende tecnologia ao Brasil e, como se não bastasse, a justiça alemã descobriu em 2005 que o então ilibado conglomerado industrial mantinha uma rede internacional de subornos, que integrava até mesmo o governo brasileiro num esquema de propinas em torno das obras do metrô de São Paulo entre 2001 e 2002. Quase uma década depois, escândalo similar envolveu a brasileira Odebrecht, empreiteira fundada em 1944, que carrega uma trajetória que remonta ao imigrante Emil Odebrecht, chegado ao Brasil em 1856, como engenheiro formado pela Universidade de Greifswald, na Prússia.

Estes são os nosso referenciais artísticos, científicos e culturais. É o tipo de gente que o Abaporu come, gente que valoriza e incentiva uma vida militarizada. É o que consumimos e compartilhamos, assim como se pôde constatar com a ajuda humanitária brasileira oferecida ao Haiti, após o terremoto de 2010. Como haveria de ser diferente? País desenvolvido é aquele que domina, aquele que amedronta e possui aeronaves que quebram a barreira do som. Então é simples, basta comer um caça sueco e expurgá-lo com um nome qualquer em tupi-guarani, não é mesmo?

A verdade dolorosa é que a França inventou o avião e não o Brasil. Foi Paris que providenciou educação científica ao brasileiro Santos Dumont, que foi à Europa porque é filho de uma elite agrária e escravocrata. Foi o café dos escravizados que garantiu ao aviador os meios materiais necessários para o luxo de se poder criar. Será que no final do século XIX, nenhum garoto do Morro da Providência olhou para sua pipa e imaginou uma máquina de fazer o homem voar? O jovem Marcos Vinicius, executado uniformizado, aos 14 anos, na Favela da Maré, poderia ser um Santos Dumont dos nossos tempos se tivesse nascido no Leblon? Entre 2014 e 2015, durante a intervenção militar motivada pela Copa do Mundo, o Estado manteve um soldado para cada 75 moradores da Maré, mas nunca houve proporção similar no que diz respeito a professores e médicos, o que indica um descaso alarmante e uma política de extermínio.

Ainda no pavilhão 3, no estande da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), os visitantes eram convidados a serem fotografados segurando fuzis diante de um grande banner com uma foto da favela do Vidigal, como se estivessem numa operação no morro. O Batalhão de Operações Especiais da PMERJ (BOPE), um pouco mais adiante, expôs em seu estande um exemplar do Blindado 01, popularmente conhecido como caveirão. Neste caso, tratava-se de um modelo adquirido pelo batalhão em 2003 e empregado em operações até 2006, nas regiões do 14º BPM (Bangu) e 16º BPM (Olaria), Complexo do Alemão, Rocinha, Vidigal e Complexo da Maré. Um dos vidros do veículo estava trincado por uma bala e uma placa afirmava que “os veículos blindados reduziram significativamente o número de mortes de policiais nas operações.”

E quanto ao crime crime organizado? Após a implementação caveirão diminui ou acabou? E o número de mortos entre a população civil inocente, foi reduzido? E a respeito coração? Algum pesquisador já descobriu maneira de blindar o coração de um policial? Essa deveria ser uma prioridade das pesquisas em defesa e segurança, afinal de contas, a edição especial número 21 da revista Tecnologia e Defesa, distribuída gratuitamente na LAAD, trouxe um dossiê alarmante intitulado “Suicídio por policiais, uma triste realidade”. A verdade é que nem mesmo uma armadura de ouro é capaz de blindar o coração do homem, pois é assim que guardam o coração morto de Santos Dumont, numa urna de ouro, no Campo dos Afonsos, bem perto da feira, um coração que até hoje não descansa as dores de sua morte.

O protesto ocorrido no terceiro dia da feira representou a retomada da campanha “Caveirão Não! Favelas Pela Vida e Contra as Operações”, lançada em 2017, inspirada pela Campanha Internacional contra o Caveirão, lançada em 2006 pela Anistia Internacional. Os caveirões, assim como as armas e as técnicas utilizadas pelas polícias, também são internacionalizadas. Os primeiros caveirões que chegaram no Brasil vieram da África do Sul, único país representante do continente africano na LAAD 2019. Esses carros foram utilizados na época do Apartheid, escandalizando o mundo com as imagens do Levante de Soweto em 1976. Os mais novos caveirões utilizados nas favelas do Rio, vieram de Israel, estes foram testados nas vidas palestinas. Estamos falando de uma feira que governantes e empresários de inúmeros países trocam experiências na sua forma de matar, controlar e militarizar, deixando danos nas vidas faveladas, negras e periféricas.

É preciso dizer não à feira da morte e aos caveirões, mas não é o que parece pensar o artista plástico Rodrigo Camacho, entusiasta da PMERJ, autor de obras que ornamentavam vários pavilhões da feira. Suas criações impressionam por utilizar cápsulas deflagradas descartadas pelos batalhões da polícia militar carioca. O artista se consagrou após produzir retratos de Jair Bolsonaro e Wilson Witzel, utilizando-se da técnica. Na feira em questão, suas obras mais importantes expostas eram o logotipo do BOPE, “faca na caveira”, e um grande trono de cápsulas de fuzil, em que os visitantes poderiam se sentar e fazer fotos, havia uma evidente inspiração na série televisiva norte-americana “Game of Thrones”.

O pavilhão quatro: EUA, Israel e as favelas do Rio de Janeiro

À primeira vista, o quarto e último pavilhão ocupado pela LAAD deixava o Brasil de lado: era destinado às grandes nações exportadoras de armas e suas empresas. Os maiores espaços de exposição no local eram destinados aos Estados Unidos e a Israel, ambos no ranking dos dez maiores exportadores mundiais de armas de guerra. A Rússia, que sempre figura entre os três maiores exportadores, teve representação diminuta na LAAD 2019, com apenas um pequeno estande da Rosoboronexport, uma estatal de capital aberto, herdeira da indústria armamentista da antiga União Soviética (URSS). Essa configuração da feira é sintomática da nova relação diplomática entre Brasil e EUA, simbolizada pela visita oficial de Bolsonaro ao presidente americano, há cerca de dois meses. O que se torna ainda mais evidente quando consideramos os estreitamentos comerciais buscados por Bolsonaro em Israel, seja por meio da visita oficial ao país no dia 31 de março ou no contexto da controversa ajuda humanitária israelense oferecida em meio a catástrofe de Brumadinho.

Sobre a visita ao Oriente Médio, dentre outras fotos, Bolsonaro publicou em seu perfil oficial do Instagram uma imagem em que empunha uma carabina, acompanhada da legenda “o que torna uma arma nociva depende 100% das intenções de quem a possui.”. Sendo assim, ficam os questionamentos: quais são as intenções do Estado brasileiro? Quem será prejudicado por elas e quem se beneficiará? Como se mede a nocividade de uma máquina criada exclusivamente para matar?

A resposta não estava muito distante, na verdade, estava ali mesmo, no pavilhão quatro. A empresa israelense Cyber Technologies, do grupo NSO, especializada em monitoramento e  vigilância, utilizou-se da foto de uma favela como estratégia de marketing. Na imagem, moradores, ambos homens e negros, estavam destacados nas cores roxo e verde, como se fossem possíveis alvos ou ameaças. Atrás do painel, um caveirão de papelão figurava diante de um casarão colonial, como aqueles de Salvador ou Recife, numa completa romantização da realidade de segurança das grandes cidades brasileiras.

Este cenário torna-e ainda mais assombroso considerado-se a visita oficial de Wilson Witzel a Isarel, em dezembro de 2018. O governador viajou em busca de alta tecnologia de segurança, com interesse especial em drones que podem realizar disparos de armas de fogo e câmeras capazes de reconhecer suspeitos de crimes. Tudo em nome proteger o Estado do Rio de Janeiro contra o crime organizado. Mas, no fim, uma ironia fundamental: ainda que a LAAD seja uma feira repleta de armamentos e tecnologia de ponta, nesta edição, o estande da italiana BDT teve uma arma furtada no dia 2 de abril, horas antes da abertura da maior e mais importante feira de defesa e segurança da América Latina.

*Breno é comunicador comunitário do MARÉ 0800.

**Gizele é moradora da Maré, jornalista (Puc-Rio), mestre em Comunicação, Educação e Cultura em Periferias Urbanas (Febf-UERJ) e integrante do Movimento de Favelas do Rio de Janeiro.

Edição: Mariana Pitasse