Entrevista

Para liderança Macuxi, saúde indígena e demarcação de terras são questões de vida

Iolana Pereira da Silva atua capacitando profissionais do SUS e fala dos desafios de seu povo frente ao atual governo

Saúde Popular | Boa Vista (Roraima)

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"O governo do Bolsonaro é para pessoas ricas, para os grandes latifundiários e fazendeiros, pessoas que têm grandes plantações" / Foto: Guto Cezar/Brasil de Fato

A saúde indígena é uma das principais pautas de luta dos povos originários. Comunidades reivindicam não só o acompanhamento médico, mas um acompanhamento em que seja respeitada a medicina tradicional, com seus pajés, parteiras e rezadores. Grande parte dessa demanda era cumprida através do programa Mais Médicos, desmontado após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), com a partida dos médicos cubanos. É o que conta Iolana Pereira da Silva, liderança Macuxi da comunidade Uiramutã, em Roraima, em entrevista ao Brasil de Fato.

A demarcação de terras é outra reivindicação importante para os povos tradicionais, de acordo com Iolana: “A demarcação das terras indígenas representa muito, porque sem a terra nós não temos nada. Não temos vida. Todas as nossas batalhas em prol das terras é em prol da vida”. Para a liderança, o governo Bolsonaro representa uma ameaça, já que é declaradamente contra a demarcação de terras indígenas.

O presidente coleciona ataques aos direitos indígenas não só através de declarações, mas também com ações como a transferência da responsabilidade de demarcação de terras para o Ministério da Agricultura e a realocação da Fundação Nacional do Índio (Funai), que deixou o Ministério da Justiça e agora responde ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A indígena, que se especializou em gestão de saúde indígena e formação de profissionais do SUS com respeito ao uso da medicina tradicional dos pajés e das parteiras, mantém o tom otimista frente aos desafios impostos pelo atual governo. "Ele não vai ficar para sempre, ele vai sair, e a gente consegue ocupar o nosso espaço como queremos ocupar", afirma.

Confira abaixo a entrevista coma indígena Macuxi Iolana Pereira da Silva, militante da saúde indígena e medicina tradicional.

Como você vê a situação atual da saúde indígena?

Iolana Pereira da Silva: A situação atual da saúde indígena está muito difícil. Queremos que a saúde indígena tenha uma boa qualidade, um bom atendimento, que seja humanizado e de fato uma saúde para todos. Mas isso a gente vê que está ficando cada vez mais distante. Estamos vendo o desmonte do SUS a cada dia, e da saúde indígena que está sendo mudada constantemente.

Hoje a gente acorda e recebe a notícia de que o coordenador do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena)  foi exonerado e entrou outro. Quando começa assim é muito difícil para fazermos as coisas. Hoje eu não vejo muita seriedade no trabalho que o governo está fazendo: muita politicagem. Eles falam em acabar com a corrupção, mas é o contrário. Estão tirando pessoas e colocando pessoas. Eles sabem que na saúde indígena tem muito recurso, como dizem. Para eles é muito fácil desviar um recurso, fazer uma licitação que não seja verdadeira. Eu fico indignada com o nosso país. Mais uma vez que eles estão colocando alguém para tentar tirar aquilo que é do povo.

O que representa a demarcação das terras indígenas? Por que o governo do Bolsonaro tem se posicionado contra?

A demarcação das terras indígenas representa muito, porque sem a terra nós não temos nada. Não temos vida. Todas as nossas batalhas em prol das terras é em prol da vida. Os igarapés, os lagos, os rios, as matas, os campos, fazem parte da nossa vida. Tanto nos campos quantos nas matas, nós temos a nossa medicina tradicional, e os lagos e rios também são sagrados para a gente. Não tem como a gente descartar a demarcação das terras como se não fizesse parte da vida indígena.

O nosso povo só não acaba porque ele tem a sua terra para poder trabalhar, criar seus filhos. Aqui em Roraima, eles dizem que 60% das terras são indígenas, mas Roraima já foi toda indígena. A gente sempre viveu aqui, e as nossas terras eram 100% indígenas. Hoje nós temos as nossas comunidades fixas e essas comunidades estão organizadas, com suas escolas e postos de saúde. A comunidade é mais centralizada. A gente não tem como estar indo com 200 pessoas de um lado para o outro para poder conseguir alimentação, não é assim. Hoje a gente planta, cria, o povo indígena é produtor de bovinos, de aves, peixes.


A gente sempre viveu aqui, e as nossas terras eram 100% indígenas.


Para nós, a terra significa muito. E nós temos trabalhado muito para isso. Não temos como viver sem ela. Um povo sem terra é um povo sem história e sem vida. É um povo sem destino. Para onde ele vai? O que vai fazer? Como vai fazer? Se ele não tem onde ficar, morar, plantar, criar. Somos muito ligados a natureza.

:: Indígenas denunciam o desmonte da saúde pelo governo Bolsonaro ::

Esse governo nunca foi de acordo com as terras indígenas. O governo do Bolsonaro é um governo para pessoas ricas, para os grandes latifundiários e grandes fazendeiros, pessoas que têm grandes plantações. Não é um governo para pessoas pobres. O que a gente vê é que ele fica o tempo todo batendo na tecla dizendo que nós temos muitas terras. Ele não pensa no amanhã, no que que nossos filhos vão ter, como nossos filhos vão crescer. As terras vão para quem? Ele quer que sejam dadas para pessoas ricas. O governo muitas vezes pensa em uma coisa que não é verdadeira, não pensa no trabalho que a gente pode fazer. O que nós fazemos hoje é lutar para sobreviver.

Qual a saúde indígena que seu povo defende?

Nós defendemos uma saúde de qualidade, que tenha profissionais de saúde completos. Mesmo que seja atenção básica, mas que atendam bem a nossa comunidade, que sejam pessoas que também possam reconhecer nossa cultura e nossas tradições, aceitar e trabalhar isso junto com a gente, para que não seja discriminado os saberes indígenas. Uma saúde de qualidade que atenda a todos os povos indígenas e não só algumas pessoas.

De forma geral, que tenhamos acesso aos hospitais de média e alta complexidade, mas que também o nosso povo seja bem atendido, e que lá não sejam discriminados por serem indígenas, mas que sejam cuidados também. Aqui no estado de Roraima, apesar de ser um estado que está nessa situação com os imigrantes, ainda conseguimos ver que o estado está acolhendo os povos indígenas. Temos dois hospitais, que é o hospital da criança e o HGR (Hospital Geral de Roraima) que recebem recurso para a saúde indígena de média e alta complexidade.


A gente espera que quem sabe um dia tenhamos um hospital somente para atender o povo indígena, ou que tenha uma aula somente para atender o povo indígena


Hoje já temos os intérpretes, as coordenações indígenas dentro dos hospitais. Foi muita luta para termos isso, o que também é para ter qualidade no serviço nos hospitais, e os intérpretes venham a conversar com os médicos e dizer o que nossos pacientes sentem, e até assim facilitar o atendimento dos pacientes indígenas. A gente espera que quem sabe um dia tenhamos um hospital somente para atender o povo indígena, ou que tenha uma aula somente para atender o povo indígena. A gente sonha em um dia chegar a isso no nosso estado. Eu já não vejo como impossível porque a gente vem conquistando muitas coisas boas para os povos indígenas, apesar do governo que nós temos hoje. Ele não vai ficar para sempre, ele vai sair, e a gente consegue ocupar o nosso espaço como queremos ocupar.

Qual a sua visão sobre medicina tradicional? E qual o desafio atual?

Hoje, o desafio da medicina tradicional indígena é que tem poucos pajés. E com a entrada da equipe multidisciplinar, muitas vezes a cultura não é respeitada, e as parteiras não são procuradas. Na maioria das vezes, as mulheres que são encaminhadas para a maternidade não são avaliadas por parteiras. Hoje em dia se cobra muito o pré-natal com a equipe, enfermeiros, médicos, e deixam as parteiras de lado.

A minha preocupação hoje, quanto a coordenação da medicina tradicional no DSEI, é fazer com que a medicina tradicional seja respeitada, e trabalhe junto com a equipe multidisciplinar para que possam realizar o trabalho nas comunidades sem muitas remoções.


Os remédios tradicionais estão sendo pouco valorizado nas comunidades, muito paracetamol, muito dipirona, muito antibiótico sendo dado.


Não há aquela preocupação de avaliar o paciente, pedir um chá, um banho, ou pelo menos fazer uma massagem. Muitas vezes os meus pacientes falam das dores eu faço uma massagem, e de repente ele melhora. Muitas vezes não é necessário usar tanto medicamento. E a gente gostaria muito que isso fosse utilizado. As gripes muitas vezes se transformam em pneumonia porque não são bem tratadas. Ou, quando começa a piorar, não se pensa em um banho, ou uma nebulização a vapor. Vai logo entrando no antibiótico, não tem um xarope caseiro.

Com a medicina tradicional caminhando junto com a medicina ocidental, vamos ganhar muito. Aqui na cidade eu tenho ajudado muitos não-indígenas, que têm me procurado, procurado uma garrafada, um xarope, uma pomada. Eu faço. E a gente mostra que essa forma de trabalhar com a medicina tradicional nas comunidades indígenas é uma forma muito boa.

Já avançamos muito, e acredito que vamos conseguir ir mais adiante, porque hoje já estamos em contato com os hospitais, para levar para os hospitais e falar da medicina tradicional junto com os profissionais. Isso pra mim é muito gratificante.

Qual foi o impacto da saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos?

A saída dos médicos cubanos dificultou para os profissionais que já trabalhavam com eles, porque toda vez os enfermeiros faziam atendimento junto com eles. Todo o trabalho que era realizado junto, e depois que eles saíram, dificultou até para os agentes de saúde. O pessoal do Mais Médicos gostava muito de usar a medicina tradicional, então gostamos muito do trabalho deles. Eles não trabalhavam somente com os remédios farmacêuticos, mas procuravam muito a medicina tradicional, com chá, banho, inalação. Quando saíram, tivemos essa dificuldade com outros profissionais que não deram continuidade. Espero que esses novos médicos que vão entrar deem valor e procurem trabalhar a medicina tradicional também.


O pessoal do Mais Médicos gostava muito de usar a medicina tradicional, então gostamos muito do trabalho deles.


O governo de hoje culpa muito o PT por tudo o que está acontecendo, mas eu já falo o contrário. No governo do presidente Lula nós tivemos muito apoio. Mudou para nós a relação com a saúde indígena, educação indígena, demarcação e homologação de terra. Mudou essas situações. Agora esse novo governo quer fazer o desmonte do SUS. Acabando com o Mais Médicos, eles deixaram muitas áreas descobertas, sem atendimento. Mas isso eles não levam em conta.

Qual a sua trajetória de luta pelo seu povo?

A minha história de luta começa desde meus 11 anos. O meu pai me chamou como assistente do pajé. Nesse período meu pai já lutava pela demarcação da Raposa Serra do Sol. Nós moramos em uma região que foi invadida por garimpeiros, por fazendeiros. Meu pai era um dos líderes que nessa época estava lutando para libertar o povo, porque os fazendeiros pegaram os índios como escravos, e os indígenas começaram a trabalhar no garimpo e pegar outro, que também acabaram se transformando em escravos. 

Eu ficava acompanhando tanto a parte do pajé, quanto essa parte de liderança, de estar no movimento, ajudando a comunidade. Cresci nesse meio, na batalha pelo meu povo. Quando meu pai viajava, eu que ficava responsável por informar as invasões.. Ou quando os garimpeiros entravam em nova área tínhamos que ir lá para impedir para não entrar, e se não ligassem, tinha que entrar em contato com a Polícia Federal e a Funai.

Eu parei de estar indo nos movimentos em 2009, quando entrei para ser secretária de saúde no município do Uiramutã, e aí tive que me dedicar mais para o lado da saúde. Foi uma experiência muito boa porque era diferente, não era como fazer somente o controle social, mas era fazer a gestão. Então, quando eu saí da secretaria, eu pensei em ficar na comunidade e ficar mais com a minha família, mas não deu. Fui chamada para trabalhar na sede do DSEI para fazer parte da gestão, e assim acompanhei o trabalho como funcionária, já dentro da sede. Fiquei fazendo parte da supervisão dos agentes de saneamento.

Eu fazia muitas outras coisas, além de dar apoio ao controle social, assessoria à gestão, era interlocutora entre as nossas lideranças, levando as informações para as nossas lideranças e também trazendo informações para os coordenadores. Então, representei várias vezes o nosso DSEI em nível nacional, mas nunca deixei de trabalhar a medicina tradicional. É uma das bandeiras que eu sempre carreguei, sempre lutei pela medicina tradicional,  sempre procurei dar apoio às parteiras, pajés, benzedores. Nesse meio tempo, sempre fazia minhas pesquisas de trabalho junto com o pajé, com as parteiras.


É uma das bandeiras que eu sempre carreguei, sempre lutei pela medicina tradicional,  sempre procurei dar apoio às parteiras, pajés, benzedores.


Em março de 2012 eu saí do trabalho porque eu pensei em me candidatar, porque queria conhecer a política partidária. Eu via que meu povo é muito enganado por muitas coisas, as pessoas que estavam lá nunca falavam a verdade para o meu povo. Então me candidatei e conheci esse lado da política, de como ela é feita, e graças a Deus eu não me elegi. Eu não entrei na política para ser eleita, e sim para descobrir os meios que os políticos usam para enganar o nosso povo. 

O DSEI me chamou de novo para trabalhar. Fiz um acordo em que tinha 20 dias na comunidade como agente de saúde, e 10 dias na sede, para assessorar. Eu fiz isso do final de 2012 até 2015. 

Eu fui muito capacitada em muitas outras coisas, mas o meu trabalho de parteira e trabalhar com medicina tradicional eu nunca deixei. Toda vez que eu estava na minha comunidade eu fazia parto, medicamentos, tratava os nossos pacientes. A casa do meu pai era como um hospital. Meu pai fazia atendimento na casa dele, era uma casa bem grande. Nós fizemos muitos trabalhos bons. De 2009 para cá, minha história foi muito acima disso, entre a gestão, a medicina tradicional, controle social. Nunca deixei de participar das reuniões do Condisi (Conselho Distrital de Saúde Indígena), mesmo sem ser conselheira eu sempre fui convidada para as reuniões, e se eu não fosse convidada do mesmo jeito eu ia, porque para mim é muito interessante e especial a saúde do meu povo.

:: Quais são os interesses políticos e econômicos por trás dos ataques à saúde indígena? ::

Já em 2016, com a entrada da nova coordenação, a gente viu que ia mudar. Foi uma coisa colocada pelos políticos. O coordenador foi indicado pelo senador Romero Jucá (PMDB) e o deputado Édio Lopes (PR). Nós nos mobilizamos, a gente não queria ele. Ocupamos a sede do DSEI e passamos 2 meses lá, e vimos as outras lideranças estavam trabalhando a favor, mas esses políticos entraram nesse meio e bagunçaram o trabalho. Então, nessa gestão de 2016 à 2018 tivemos muitos problemas, e p trabalho da medicina tradicional fracassou muito nas regiões.

Nós tivemos que fazer reuniões, encontros, mudar a forma de como a gente ia trabalhar. Então pensamos na região das Serras. Começamos lá com as oficinas de medicina tradicional, com os jovens, as parteiras, os rezadores. Iniciamos em 2016 esse trabalho, e hoje a coordenação  da região das Serras continua fazendo esse trabalho mesmo se o DSEI não ajuda. Não tem investimento para isso, mas a gente vai forçando as situações. Muitas vezes a gente pede somente o transporte, combustível e motorista para locomover o nosso pessoal para as oficinas. Nas outras regiões, nós temos dificuldades porque ainda não temos um meio completo, estamos tentando fazer as nossas oficinas.


A gente já consegue ver as pessoas que querem trabalhar a medicina tradicional.


No ano passado, 2018 e 2019, nós mudamos a forma de fazer o acolhimento com os profissionais. Quando vai fazer o acolhimento, eu sempre faço uma palestra sobre saúde indígena que é para eles não entrarem lá sem saber que existe parteira, rezador, que é para o nosso pessoal não se deparar com outra forma de trabalho. Graças a Deus tem dado certo, os profissionais têm procurado trabalhar de acordo com os tradicionais indígenas. Em algumas regiões os enfermeiros e outros profissionais não conseguem ainda trabalhar dessa forma, mas a maioria das regiões a gente já tem um retorno dos enfermeiros, que eles chegam e falam "nós queremos um pajé", ou "queremos saber quem é a parteira que tem o kit de parto". A gente já consegue ver as pessoas que querem trabalhar a medicina tradicional.

*Colaborou Bruna Caetano.

Edição: Rodrigo Chagas