ENTREVISTA

José Valenzuela: “Eleição de Bolsonaro é desgraça para os povos da América Latina”

Mudança estrutural no México depende de organização política interna e solidariedade internacional

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

,
Economista chileno e professor da UAM México, Valenzuela ministrou curso na UFRJ nesta quarta-feira (8) / Marina Freire

José Valenzuela é um dos mais importantes economistas da América Latina, chileno, e professor da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM, México). Em entrevista ao Brasil de Fato, o especialista comentou o momento político que culminou na eleição do presidente progressista Andrés Manuel López Obrador e os desafios para uma possível mudança estrutural no México.

O modelo econômico neoliberal adotado por governantes de direita deixou a maioria dos mexicanos em condição de extrema miséria e trabalho informal. Em meio a corrupção, conflitos sociais e violência do narcotráfico, a população decidiu apostar no político de 65 anos, escritor e cientista, do Movimento de Renovação Nacional (MORENA).

“Ele conquistou uma ampla maioria de votos mas temos que lembrar que ganhar eleição não significa ganhar o poder”, diz Valenzuela. “A solidariedade dos povos da América Latina é básica. Foi uma desgraça para o México e todo povo da América Latina a eleição do Bolsonaro no Brasil. O movimento progressista exige que os países irmãos também tenham êxito porque ajudamos uns aos outros”, afirma.

Valenzuela ministrou o mini-curso “México: da crise neoliberal a uma possível mudança estrutural”, que faz parte faz parte do ciclo de seminários de análise da conjuntura mundial. Nesta quinta (9), a programação segue com o tema “neoliberalismo, recursos naturais e conflitos globais”, no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), às 14h.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Quais as consequências que a política econômica neoliberal trouxe para o México?

José Valenzuela: Primeiro, o crescimento econômico têm sido lentíssimo, situação de quase estancamento. No período prévio, de 1940 a 1980, a economia mexicana cresceu na ordem de 6 a 7% a média ao ano, agora é de 2%. O produto por habitante está crescendo a 0,5% anual. Se continuar assim, o produto por habitante dobraria em 150 anos, essa é magnitude. Antes se duplicava a cada 15 anos.

Depois, é a situação de pobreza extrema. A ocupação hoje no México é 60% informal, onde vivem pessoas com níveis de renda baixíssima em situação de miséria, sem contrato de trabalho e sujeitas a exploração total. Esse modelo econômico neoliberal beneficia, quando muito, 3% da população total e prejudica as outros 90%.

E ainda há um processo de composição social e moral que é terrível. Como diz uma velha música ranchera mexicana, a vida não vale nada. O que é uma letra de uma canção bonita e reflete costumes que teriam seu encanto, agora é uma realidade cotidiana que não pode ser aceitada. São de 25 a 35 mil mortos por ano sem incluir os doentes nem as mortes usuais, mas por guerras do narcotráfico. São números próprios de um país em guerra civil. Ou seja, uma economia de uma sociedade não pode seguir assim porque vai de encontro ao ódio.

Você comentou que o México é um ponto fora da curva na América Latina. Qual contexto possibilitou a eleição do Andrés Manuel López Obrador?

Penso que Obrador foi eleito em primeiro lugar porque há um grande descontentamento. Sempre há um povo descontente mas o que acontece é que os prejudicados votavam a favor daqueles que os prejudicam. Tínhamos casos de mortos de fome que votavam em grandes banqueiros. Há um processo de falsa consciência social e de classe espantoso. E agora se deu uma reação no sentido contrário. Os prejudicados votaram a favor de uma pessoa que se diz contra o sistema. Nesse contexto, não há só o grande incômodo pela situação econômica em que vive a maioria da população mexicana como também a revolta contra a chamada máfia do poder que só faz roubar e roubar. Um roubo descarado à luz pública que vocês conhecem bem, não é?

No México existe um ditado que diz “político que não é ladrão, é um mau político”, que é espantoso. Chega em momento em que as pessoas dizem um basta para isso. Em terceiro lugar temos que López Obrador é um político muito clarividente e foi capaz de capitalizar essa raiva em favor de um governo novo. Ele conquistou uma ampla maioria de votos mas temos que lembrar que ganhar eleição não significa ganhar o poder. Para isso é preciso outras condições que no México não acontecem como a organização política dos descontentes. Posso estar com muita raiva, gritar, ir contra, mas nada adianta se não entendo porque se dá essa situação que me causa tanto mal e o mais importante o que necessita para superar essa situação.

Há uma esperança no México de que a população se organize e participe mais da política?

O grande desafio do México hoje é político, mais concretamente a capacidade das organizações políticas, os dirigentes e o povo, de desenvolver organizações políticas sólidas, sindicais, por exemplo, nas grandes indústrias de petróleo e gás que tenham condições de defender as medidas de López Obrador e inclusive empurrar medidas mais radicais que são importantes de tomar. Como de repente estatizar La Banca [parte do sistema bancário mexicano] e regular o comércio exterior. Há necessidade que o povo se organize para assim ter poder político. Por exemplo, caso haja ameaças contra o governo Obrador que seja capaz de uma greve geral que paralise o país.

Em segundo lugar é preciso apoio externo, que a situação internacional que hoje é muito desfavorável seja favorável ou não tão desfavorável à luta interna do povo mexicano. E a solidariedade dos povos da América Latina é básica. Foi uma desgraça para o México e todo povo da América Latina a eleição do Bolsonaro no Brasil. O movimento progressista em cada um dos nossos países exige que os países irmãos também tenham êxito porque ajudamos uns aos outros.

Se um cai em desgraça prejudica os demais. Obviamente não só na América Latina, mas a chave está na América Latina. Como nos tempos da independência, se nos libertamos dos espanhóis, os venezuelanos nos ajudaram com os colombianos, peruanos, argentinos e demais. A luta de Carlos Prestes teve apoio internacional muito forte. São tradições que o povo brasileiro tem que retomar.

Edição: Vivian Virissimo