Educação

Mais de mil intelectuais assinam manifesto contra cortes nas ciências humanas

Entre os signatários, estão professores das universidades de Berkeley, Harvard, Oxford, Yale, Sorbonne e Cambridge

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Pesquisadores da Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo, também assinaram o documento / Divulgação/Harvard

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Educação Abraham Weintraub anunciaram, no dia 26 do mês passado, que o governo estudava “descentralizar” investimentos nas áreas de humanas, como filosofia e sociologia. Segundo eles, os recursos retirados iriam para cursos que geram “retorno imediato ao contribuinte”, como veterinária, engenharia e medicina.  

Logo depois, no dia 30, o governo anunciaria também o corte de R$ 7,3 bi no orçamento da educação federal, incluindo ensino básico, institutos e universidades federais.

Nesta segunda-feira (6), mais de mil pesquisadores de instituições de ensino renomadas no Brasil e no mundo, como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e as universidades de Berkeley, Harvard, Oxford, Cambridge, Columbia, Yale e Sorbonne assinaram manifesto em repúdio ao anúncio do presidente. 

O texto foi organizado pela organização Gender International, cujo objetivo é “combater a cruzada da ideologia de gênero”, em referência ao termo pejorativo utilizado pela direita para designar os estudos de gênero. Entre as signatárias do documento está a filósofa americana Judith Butler, professora da Universidade de Berkeley, na California e da European Graduate School, na Suíça. 

Leio o manifesto na íntegra: 

“No dia 29 de abril de 2019, o presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro, confirmou por Twitter o que no dia anterior já havia anunciado o Ministro da Educação, Abraham Weintraub: seu governo planeja reduzir o financiamento federal para programas acadêmicos em sociologia e filosofia. Segundo eles, nesses campos, futuros estudantes terão que pagar por sua própria formação. Enquanto o Ministro afirmava que sua proposta havia sido orientada por medidas tomadas no Japão em 2015, o Presidente insistia que a educação deve se concentrar na leitura, na redação e na aritmética e que, em lugar dos cursos na área de humanidades, o Estado deve investir nas áreas que tragam retornos imediatos para quem paga impostos, tais como veterinária, engenharia e medicina.

Nós, signatários dessa declaração, fazemos um alerta quanto às sérias consequências de tais medidas que, inclusive, levaram o governo do Japão a recuar de suas propostas depois de um amplo protesto nacional e internacional. Em primeiro lugar, por que a educação em geral e a educação superior, em particular, não trazem retornos imediatos; constituem um investimento no futuro das novas gerações. Segundo, as economias modernas não exigem apenas técnicos especializados; nossas sociedades precisam de cidadãs e cidadãos que tenham uma formação ampla e geral. Terceiro, nas nossas sociedades democráticas, os políticos não devem decidir o que é a boa ou a má ciência. A avaliação do conhecimento e de sua utilidade não pode ser conduzida de modo a conformar- se com as ideologias de quem está no poder.

As ciências sociais e as humanidades não são um luxo; pensar sobre o mundo e compreender nossas sociedades não devem ser privilégio dos mais ricos. Como acadêmicos dos mais diversos campos, estamos plenamente convencidos que nossas sociedades, incluindo o Brasil, precisam de mais e não menos educação. A inteligência coletiva é tanto um recurso econômico quanto um valor democrático”.

 

Edição: Rodrigo Chagas