Autora traz mitologia africana para dentro das escolas

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 "Conhecendo os Orixás: de Exu a Oxalá" é a porta de entrada para a coleção "O Livro dos Orixás para Crianças", da Arole Cultural
"Conhecendo os Orixás: de Exu a Oxalá" é a porta de entrada para a coleção "O Livro dos Orixás para Crianças", da Arole Cultural - Repercussão: Conhecendo os Orixás | Amazon
Se as crianças aprendem sobre os gregos, elas podem aprender sobre os orixás

Uma das matérias favoritas das crianças no ensino fundamental é o estudo das mitologias. Na base curricular obrigatória, incluem-se as mitologias grega, romana, nórdica, egípcia e asteca, as cinco mais conhecidas do mundo.

A falta de conhecimento sobre a mitologia africana chama atenção. Isso porque, segundo o IBGE, mais de 50% de sua população do Brasil é composta por pessoas pardas e negras.

Foi pensando nessa lacuna que Waldete Tristão, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e graduada em Letras e Pedagogia, escreveu o livro infantil Conhecendo os Orixás: de Exú a Oxalá. “O livro fala dos orixás da mitologia africana. A importância deles é exatamente que todas as crianças brasileiras de escolas públicas ou privadas tenham acesso a esse tipo de conhecimento, porque outros conteúdos, como a mitologia nórdica são de fácil acesso às crianças. O livro acaba sendo uma possibilidade não só para crianças, mas também para os adultos que não tiveram oportunidade de acessar esse conhecimento”, comenta.

Waldete conta que o projeto surgiu há 12 anos, quando seu filho ainda estudava a mitologia grega: "ele não tinha ainda essa oportunidade de conhecer a mitologia africana. A gente falava sobre as crianças terem acesso a esses conteúdos e o quanto era importante. Pensamos em escrever um livro. Ensinei aquilo que eu conhecia. E começamos a estabelecer relações, a comparar Zeus com Xangô por exemplo. O projeto ficou parado por algum tempo. Depois, no ano de 2017, infelizmente o meu filho morreu e eu retomei esse projeto”.

Apesar de importante, são poucas as escolas que trabalham esse tipo de mitologia com seus alunos. Ela comenta que a exclusão ocorre pelo processo de “demonização” da cultura africana: "a gente vive em uma sociedade racista e preconceituosa. Os conteúdos que tem a ver com a população negra acabam sendo de menor importância na hora de pensar o projeto pedagógico na formação das crianças e dos jovens de modo geral. Não é à toa que as religiões de matriz africana foram demonizadas. Todo o conteúdo que tem relação com história e cultura africana e afro-brasileira foi rechaçada pela população”.

A postura tomada pelas escolas reflete um padrão da sociedade brasileira. De acordo com ela,Waldete diz que a mudança tem que partir da direção das instituições de ensino: "os profissionais que estão na escola refletem a sociedade. Se não houver um compromisso político dos professores em levar esse conteúdo para dentro das escolas, ela não vai chegar. Não só de literatura, mas também de manifestações culturais, como: o jongo ou outros tipos de conteúdos e de experiências culturais, que estão diretamente ligadas à cultura africana e afro-brasileira”. 

Apesar de informativo, lúdico e muito utilizado como material didático nas escolas, a pedagoga explica que o livro não foi pensado dessa maneira: “ele não é um material didático, embora seja extremamente adequado para o atendimento da lei 10639. [A norma] alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e diz: que as escolas devem trabalhar com as crianças. Essa lei diz que todas as crianças da educação básica devem ter acesso aos conteúdos da história e da cultura africana e afro-brasileira. Como meu livro fala de orixás, ele se torna uma possibilidade de ser um material didático. Assim como as crianças podem aprender sobre os gregos, elas podem aprender sobre os orixás”, conclui.

O livro foi publicado pela Arole Cultural, com textos de Waldete e ilustrações de Caco Bressane, em 2018. Ao todo, são 17 os orixás  apresentados, com suas características particulares, cores, comidas favoritas e a força da natureza que comandam. 

Edição: Katarine Flor