HISTÓRIA

Ator Leno Sacramento reflete sobre o 13 de maio e os desafios dos negros no Brasil

Data marca o dia da abolição da escravatura no país e estimula reflexões sobre seu real significado para o povo

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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"Só mudou o nome, mudou a lei e mudaram as armas, mas a escravidão continua", afirma Leno. / Divulgação

O dia 13 de maio é marcado pela abolição da escravatura no Brasil. A data merece reflexão e é mote para debates em torno do seu significado real para a sociedade brasileira. Nesta edição, entrevistamos Leno sacramento, artista soteropolitano que faz parte do Bando de Teatro Olodum, sobre a data e os desafios dos negros e do teatro negro. O Bando de Teatro Olodum completará 30 anos de atividade e é um dos grupos de teatro negro mais conhecidos do país. Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Em 13 de maio completam 131 anos da abolição da escravatura.Militantes e movimentos sociais costumam dizer que a abolição não libertou de fato o povo negro escravizado e deixou marcas que perduram até hoje. Como você avalia isso? 

Leno Sacramento: A escravidão não acabou. O dia 13 de maio é para ser visto como um luto. A gente não tem o que comemorar neste dia. Ela continuou naquele momento e ela continua até hoje. Só mudou o nome, mudou a lei e mudaram as armas, mas a escravidão continua. Nós pretos continuamos morrendo mais jovens por conta de esforço dos trabalhistas, nós pretos continuamos morrendo assassinados, nós pretos continuamos sendo escravizados, indo transportados no camburão, que é o considerado Navio Negreiro, da nossa casa para as celas. A escravidão não acabou.

Quais são os principais desafios dos negros e negras no atual momento?

Não sei se é desafio, estratégia ou missão, mas temos que conscientizar os nossos para que não pensemos que somos nós que estamos discriminando a nós mesmos. É triste quando a gente vê um negro dizendo que quem discrimina mais é o negro, porque se você se conscientiza de fato você descobre que não é isso. Então eu acho que o desafio é conscientizar os nossos. E a gente descobre que a gente tem todo poder na mão. Enquanto a gente achar que é moreno, cabo verde, mulato, aí a gente fica mais fraco. O desafio é juntar todo mundo, a missão de ajudar todo mundo é uma estratégia.

O Bando de Teatro Olodum está perto de completar 30 anos de existência e a temática racial é centralmente abordada nos espetáculos. Quais são as dificuldades e os desafios que enfrentam sendo uma companhia formada de artistas negros e de repertório antirracista? 

Temos 30 anos de Bando de Teatro Olodum na resistência. Falando de genocídio, de preconceito, de discriminação e o que temos como resposta: 30 anos sem patrocínio. Não estamos brincando. Mas queremos levar conscientização para as comunidades. Então para que patrocinar um espetáculo que fala tão sério, que briga tanto? Aí vem aquela questão da escravidão e do castigo. Se a gente não está falando o que eles querem, que é catequizar a comunidade para o voto, para alienação, eles não dão patrocínio para a gente. E o que acontece com a gente? A gente morre de depressão, a gente fica psicologicamente abatido, abalado e a gente para. Mas, como o Bando de Teatro Olodum tem essa questão que é uma coisa ancestral - a resistência -, a gente se mantém. A gente ficou 30 anos lutando e vamos continuar por muitos anos. Agora os obstáculos estão sempre: locais para apresentar, editais para passar, grana para ganhar.

Como avalia o papel da arte [teatro, música, dança, poesia] na luta antirracista e na transformação da realidade?

Eu acho que a gente tá indo para um lado da cultura errado. Cultuando a cultura da bala. As televisões colocam a tragédia como um sensacionalismo, as pessoas ligam as televisões meio-dia dia e as pessoas pagam para ver aquilo. E tem uma cultura que vai salvar: a cultura da arte. Eu acredito muito na dança, no teatro, na música. Essas culturas elas estão sem dinheiro ainda. Os espetáculos deixaram de ser só um espetáculo e viraram um ato político, indo para comunidade, mostrando seu trabalho e conscientizando jovens. Se cada polo, se cada bairro que tem uma sede tivesse música, teatro e dança as coisas podemos ser melhor. Eu acho que a cultura da música, da dança, da cultura da arte, essa cultura que vai salvar o mundo. Então é um ato político, é uma arma que a gente tem. Essa arma atira em muito mais pessoas do que a gente pensa, tem muito mais força e a gente ainda não sabe.

 

Edição: Elen Carvalho