Veneno está na mesa

Água do Paraná está contaminada com agrotóxico

Foram identificadas substâncias tóxicas em 326 cidades, incluindo Curitiba

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Dados foram apresentados por professores pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pela procuradora Regional do Ministério / Divulgação

O paranaense consome uma das águas mais contaminadas do país. Em 326 dos 399 das cidades do Paraná foram identificadas as 27 variedades das substâncias tóxicas testadas, incluindo Curitiba. Já em Londrina, também um total de 27 agrotóxicos foram detectados na água que abastece o município, entre 2014 e 2017. Mas, o veneno não está só na água, em Londrina, por exemplo, entre 2012 e 2017, foram consumidas quase 5.500 toneladas dos mais diversos agrotóxicos.

Esses e outros dados foram apresentados por professores pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pela procuradora Regional do Ministério Público do Trabalho, Margaret Matos de Carvalho, em uma audiência pública realizada no dia 09 de maio, no anfiteatro Cyro Grossi, em Londrina, no campus da UEL. Aproximadamente 500 pessoas acompanharam a audiência, entre agricultores, estudantes e demais moradores do município e da região, como Cambé, Apucarana e Ibiporã.

Água venenosa

Dos 27 pesticidas testados e detectados na água, 11 estão associados a doenças crônicas como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer, em relatório publicado em 2015. Várias dessas substâncias são proibidas nos EUA e na União Europeia. O herbicida alacloro, por exemplo, apesar de ser catalogado como “mediano” no Brasil, é vetado na União Europeia e classificado como altamente perigoso, podendo causar distúrbios endócrinos, que afeta o sistema hormonal.

No país, agrotóxicos foram identificados em moléculas de água que abastece mais de 2.300 cidades, entre 2014 e 2017, segundo dados de Controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA), do Ministério da Saúde. O Paraná é o segundo estado do país com maior nível de contaminação da água (atrás apenas de São Paulo).

A procuradora Margaret Carvalho afirma que não podemos esperar por ações combativas do governo federal, que só neste ano liberou mais de 166 novos tipos de produtos tóxicos. “É preciso agir em âmbito local, há leis municipais que podem regular o uso de veneno e proteger a população”, defendeu.

                                                                     

Abelhas em perigo

A professora e pesquisadora Sílvia Helena Sofia (UEL) apresentou resultados quanto aos impactos em populações de abelhas, insetos que cumprem papel essencial de polinização para grande parte das culturas utilizadas na alimentação humana. Segundo Sofia, o uso intensivo de agrotóxicos, causa hiperexcitabiidade nervosa, colapso e morte de populações do inseto. Resultados recentes demonstraram diminuição da vida das abelhas em 50% do tempo esperado, os insetos analisados em pesquisa apresentaram-se letárgicos e com redução de tamanho cerebral.

“Chuva” tóxica

Além da água, os dados sobre o uso de veneno nas lavouras são assustadores. O estado é o segundo maior produtor de soja nos rankings nacionais e o cultivo do grão é o que mais se utiliza veneno, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em pesquisa publicada em 2017.

Parte do veneno aplicado nessas plantações deriva da técnica de pulverização aérea por aviões, que pode trazer consequências graves para comunidades vizinhas às áreas de plantio. Para Carvalho, essa prática é uma insanidade. De acordo com um estudo de 2004 da Embrapa, mais da metade da quantidade de veneno pulverizado dessa forma é dissipada através do vento, contaminando solo, rios, áreas de mata e comunidades vizinhas, com impactos ambientais e para saúde humana ainda pouco discutidos.

Audiências percorrem o estado

A Audiência Pública em Londrina foi a quarta promovida pelo pelo Ministério Público do Paraná e Ministério Público do Trabalho, da 9ª Região em parceria com o Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, Campanha Viva Sem Veneno, pesquisadores da UEL e Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida. Curitiba, Campo Mourão e Maringá também já sediaram outras audiências sobre o tema.

 

 

Edição: Laís Melo