17 de maio

Histórias por trás de um mercado de trabalho que se fecha para pessoas LGBT+

Preconceito na hora de buscar por emprego é mais um a ser combatido no dia Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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20% das empresas brasileiras não contratam gays, lésbicas, travestis e transexuais / Getty Images

Na hora de preencher o campo “gênero” de seu currículo para procurar uma vaga de emprego, Joy Agoston, hoje com 24 anos, escreveu aquele com o qual se identifica: feminino. Mulher transexual, ela procurava uma vaga na área de comunicação, e na época ainda não tinha emitido o documento social, aquele compatível com a sua orientação de gênero.

Ao concorrer a uma vaga para a qual se encaixava, Joy assistiu de perto à realidade que aflige pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais no país: o preconceito no mercado de trabalho.

“Já aconteceu comigo de eu fazer o processo, chegar na fase final e não ser selecionada não pela capacidade, porque preenchia todos os requisitos da vaga, tinha os necessários, mas por conta de ser uma mulher trans", relata a jornalista. A vaga, porém, não tinha sido preenchida. Pouco tempo depois, uma amiga dela, que é mulher cisgênero, estava concorrendo ao mesmo emprego em um novo processo.

Foi então que Joy conheceu uma iniciativa online desenvolvida para conectar oportunidades de emprego e os currículos de pessoas LGBT+ capacitadas para essas vagas. Por trás do projeto Camaleão.co estão também histórias de um mercado de trabalho que se fecha para a diversidade.

A iniciativa foi fundada no final de 2017 pela jornalista e palestrante Maira Reis, de 35 anos. Mulher e lésbica, ela também viveu o preconceito na hora de procurar um emprego quando saiu de seu estado natal, Minas Gerais, e veio para São Paulo.

O Camaleão.co recebe os currículos de pessoas LGBT+ e os encaminha para empresas com vagas abertas. A tentativa é vencer a barreira do preconceito e mostrar que, independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero, essas pessoas são profissionais capacitados para o mercado. Segundo Reis, ganham os dois lados: tanto aqueles que procuram um emprego, quanto os que oferecem.

"Trabalhamos hoje para que esses vieses de preconceitos sejam minimizados, para que as pessoas possam se sentir confortáveis dentro dos processos seletivos e as empresas consigam entender justamente que as pessoas podem ser múltiplas e nem por isso serão profissionais ruins", explica.

Para Reis, a contratação de profissionais LGBT+ também rompe um ambiente igualitário, e traz novos parâmetros de criatividade e inovação para a empresa, uma vez que abre portas para a diversidade.

O que mostram os dados

De acordo com pesquisa feita pela empresa Elancers, 20% das empresas brasileiras não contratam gays, lésbicas, travestis e transexuais em razão da sua orientação sexual e identidade de gênero. 11% delas só contratariam se o candidato não ocupasse cargos de níveis superiores.

Quanto se trata da população transexual, as dificuldades se aprofundam. Segundo pesquisa realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), 82% dos transexuais não concluem seus estudos. O preconceito, somado à alta taxa de evasão escolar, agrava ainda mais o cenário.

A história de Joy Agoston é um ponto fora da curva. Ela já está há um ano e meio na empresa pela qual foi contratada depois de conhecer o Camaleão.co, mas ainda percebe o preconceito em simples comentários.

“Às vezes, quando converso com pessoas e elas perguntam com o que eu trabalho, e digo que é com assessoria de imprensa e comunicação, elas falam 'sério?'. Sempre acham que pessoas trans ou fazem programa ou trabalham com subempregos, como cabeleireira, manicure”, conta.

Frente à realidade do mercado de trabalho, Maira Reis defende que pensar em estratégias para mudar esse cenário é importante, também, para uma mudança maior na sociedade.

"A  primeira coisa que precisamos entender é que, realmente, somos preconceituosos por natureza. A diferença hoje é estar atenta a esses preconceitos e quebrá-los, estar disposto e disposta a rompê-los, abrir a cabeça para outros tipos de vivência, de formas de estar no mundo, de relações afetivas e sexuais e isso é muito bonito", defende a jornalista.

Um estudo realizado pela consultoria Santo Caos com 230 profissionais LGBT+ de diferentes áreas mostrou que 40% deles já sofreu discriminação no trabalho por sua orientação sexual.

Edição: Katarine Flor