Ameaça

Moradores simulam saída de Barão de Cocais e fazem protesto contra Vale

Simulação ocorreu neste sábado; em novo desastre, rejeitos chegariam em até uma hora ao centro da cidade mineira

Leer en español | Read in English | Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Moradores protestaram em treinamento de evacuação da cidade, neste sábado (18) / Divulgação

Moradores de Barão de Cocais (MG) fizeram um novo treinamento de evacuação da cidade neste sábado (18). Isso porque a mineradora Vale aumentou o alerta de risco de rompimento da barragem Sul Superior, da mina Gongo Soco.

O simulado foi conduzido pela Defesa Civil e apoiado pelas equipes da Vale, empresa dona da barragem. Mas, segundo Maria Júlia Andrade, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), teve baixa adesão. 

“Só o ponto de encontro perto do centro ficou cheio. Os outros pontos de encontro, sete no total, foram muitos esvaziados. Quase ninguém, o que já denota um cansaço, uma exaustão do povo muito grande em lidar com essa situação toda”, afirmou a militante.

:: Ameaça de rompimento de barragem da Vale em Barão de Cocais (MG) aterroriza população ::

Durante o treinamento, os moradores fizeram um protesto contra a Vale. Na quinta-feira (16), um documento da Vale, ao qual o Ministério Público (MP) do estado teve acesso, apontava que a barragem poderia se romper a partir deste domingo (19). O motivo é uma deformação no talude norte da cava de Gongo Soco, na mina de Gongo Soco.

Mas o MP afirma que risco no município pode ser maior que o documentado pela Vale. Segundo o órgão, o estudo da mineradora não contempla os impactos na mancha de inundação para o caso do rompimento de toda estrutura. Ou seja, a quantidade de material e a força da avalanche de rejeitos podem ser maiores do que o informado pela mineradora.

A juíza Fernanda Chaves Carreira Machado, da comarca de Barão de Cocais, determinou multa de R$ 300 milhões caso a mineradora não apresente em até 72 horas um novo estudo.

Maria Júlia afirma que a população de Barão dos Cocais e de Santa Bárbara está aterrorizada.  “Não consideramos que as informações estão sendo dadas de maneira correta. As informações vêm a público de conta-gotas, e o pânico e o terror estão generalizados. As pessoas não sabem se o risco é real, não sabem se vai romper ou não. Só sabem que existe um pânico e um medo. É uma bomba-relógio em cima de suas cabeças.”

A Agência Nacional de Mineração (ANM) notificou a Vale e determinou que a empresa tome uma série de providências emergenciais. Algumas delas, como interditar o trecho da ferrovia que liga Vitória a Minas, já foram tomadas pela mineradora.

Em nota, a Vale informou que iniciou ações preventivas, como a terraplenagem para construção da contenção em concreto localizada a 6 km à jusante da barragem Sul Superior, em Barão de Cocais. O objetivo, segundo a mineradora, é reduzir os possíveis impactos às pessoas e ao meio ambiente no cenário extremo de um rompimento da estrutura.

"A Vale ressalta que continua monitorando a barragem e o talude norte da cava de Gongo Soco 24 horas por dia e mantendo contato permanente com as autoridades competentes no sentido de prevenir e informar a toda a população sobre o andamento dos trabalhos e da situação da barragem Sul Superior e da cava de Gongo Soco", afirma a empresa.

O Brasil de Fato também contatou a assessoria de imprensa da prefeitura, mas não obteve retorno até a publicação.

Histórico

Segundo a ANM, o talude se deslocava 10 centímetros por ano desde 2012 – quantidade estava dentro do aceitável para uma cava profunda. Mas, desde o fim de abril, a velocidade do deslocamento aumentou para 5 centímetros por dia, informou a agência. 

A vibração desta movimentação pode chegar à barragem. Neste caso, uma onda de água e sedimentos chegaria ao centro de Barão de Cocais em cerca uma hora.

O empreendimento da mineradora está localizado a 100 km de Belo Horizonte e a 144 km de Brumadinho, onde, há quatro meses, o rompimento de uma barragem da Vale em janeiro deixou 240 mortos e 30 desaparecidos.

O município de Barão de Cocais tem 32 mil habitantes. No dia 8 de fevereiro, 433 moradores já foram retirados das casas localizadas na zona de autossalvamento (ZAS), área que sofreria um impacto maior após um rompimento. Elas estão alocadas em hotéis custeados pela Vale.

No final de março, o nível de alerta da barragem já havia passado para 3, que é o grau máximo. Na ocasião, a sirene do sistema de segurança da barragem da mina da Gongo Soco foi acionada durante a madrugada.

Edição: Rute Pina