vida civil

Senadora colombiana fala sobre novo desafio das FARC, agora como partido político

A ex-guerrilheira Sandra Ramírez trata das dificuldades da transição em cenário de ascensão da direita na América Latina

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sandra Ramírez: "Na Colômbia se elimina, se assassina o opositor. Se elimina a pessoa que pensa diferente, que quer um país diferente" / Foto: Reprodução/Brasil de Fato

A Colômbia viveu nos últimos anos um dos momentos mais decisivos de sua história política. O inédito acordo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), assinado em 2016, após quatro anos de negociações, prometia inaugurar uma nova era de garantias democráticas no país.

Guerrilheiros das FARC, como parte do acordo, deixaram as armas e ingressaram na vida civil. A partir de 2017, a organização passou a se chamar Força Alternativa Revolucionária do Comum, ocupando, desde 2018, dez cadeiras no Congresso Nacional.

Foram mais de 50 anos de conflito armado na Colômbia, resultado de uma disputa desigual pela terra, em um país em que 1% da população concentra mais da metade das propriedades rurais.

Pelo menos 180 mil civis foram assassinados em decorrência da guerra interna. Um em cada dez colombianos teve de deixar sua casa por conta da violência, somando quase 5 milhões de deslocamentos forçados, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

O fim do conflito e a garantia de participação política são, no entanto, apenas dois dos seis eixos pactuados entre o movimento guerrilheiro e o governo colombiano, em um acordo de 324 páginas. O documento também prevê iniciativas para a substituição dos cultivos ilícitos, a reforma agrária integral e políticas de reparação para as vítimas do conflito armado.

O sexto e último ponto trata da implementação do acordo. O governo de extrema direita de Iván Duque, que sucedeu Juan Manuel Santos – quem assinou o acordo com esta guerrilha – na presidência, porém, já se declarou contra a maior parte dos pontos pactuados.

O contexto atual da Colômbia, as dificuldades de ingresso na vida civil, o histórico de violações de direitos humanos no país e sobre sua vida como guerrilheira até a entrega das armas são os temas desta entrevista do Brasil de Fato com a senadora da FARC Griselda Lobo, pseudônimo Sandra Ramírez, seu atual nome. Griselda é o nome de registro, porém, ela o abandonou ao entrar na clandestinidade, que durou 24 anos.

“Paz com legalidade? Não. A paz é muito mais. A paz é uma mudança, a paz é feita com pão, saúde, educação. A paz é um país onde caibamos todos os colombianos e colombianas”, afirma a senadora.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: Quais foram suas motivações para entrar na guerrilha?

Sandra Ramírez: A motivação principal é a desigualdade social. É não ter apoio do Estado, nem recursos para ser uma profissional. E também, junto com isso, a violência com que a classe política sempre governou, descarregada sobre os pobres, sobre as pessoas humildes. 

Estas são as duas motivações fundamentais para chegar à guerrilha. Minha mãe teve bastante influência, para que eu buscasse uma alternativa de vida, e foi a guerrilha que se apresentou naquele momento. Alternativa de vida, porque não tínhamos outra opção. O Estado colombiano não apoia a juventude de nosso país.

::::: Leia mais: Colômbia Profunda :::::

Como foi a vida na clandestinidade? Quais os pontos positivos e negativos?

A vida na guerrilha é forte, é dura. Não em todo momento, mas é. As situações de assédio, as operações, enfrentamentos, bombardeios são situações muito difíceis. O fato de não ter uma casa fixa, transitando de um ponto a outro, são também também situações que temos que nos acostumar e não são simples.

Mas também contamos com algo muito bonito, que é a selva. A selva é paz, a selva nos deu comida, a selva nos protegia também, nos permitia viver dentro dela, estarmos ocultos. E o mais bonito é a qualidade humana que conformou a guerrilha.


Formamos entre todos uma nova sociedade guerrilheira, onde o coletivo é o que valia. O "eu" desaparecia.


Eu sou fulana de tal porque há um coletivo que me apoia, tenho um coletivo que me forma, tenho um coletivo que me defende, tenho um coletivo que se solidariza comigo, tenho um coletivo que me ensina e que me forma dentro da crítica e da autocrítica. Há um coletivo que exige que eu seja responsável pelos meus atos, com os fatos, com o que digo. Com eles. Isso é muito bonito.

Particularmente, nós mulheres fizemos nosso trabalho em ser combatentes em igualdades de deveres e direitos, em liberdade de escolha, de que nossas opiniões fossem levadas em conta, em nossos postos de direção, de sermos respeitadas e um sujeito de direitos, um sujeito político. Não um objeto, mas uma pessoa que opina, que fala, que se respeita. 

Como era a relação com a população local nos locais de atuação da guerrilha, geralmente no campo, lugares esquecidos pelo Estado?

A relação com os camponeses, com os habitantes do nosso campo, foi muito especial. Porque os camponeses foram nossos olhos, nossos ouvidos e nossa casa. Eles nos protegiam.  Nós não teríamos enfrentado essa guerra por mais de 53 anos sem esse apoio, sem nenhum tipo de contrapartida.

A guerrilha se nutria de recurso humano dos filhos dos camponeses e camponesas do nosso país. Nossa relação com eles era muito próxima, era de igual para igual. A única diferença é que tínhamos um uniforme e portávamos um fuzil. A diferença é que nós começávamos a armar nossa cabeça e, pelo fato de sermos guerrilheiros, por suposto estávamos dando apoio a eles.

Nos campos, nós começamos a cumprir funções do Estado. Não nos cabia, mas começamos a cumprir funções do Estado, porque éramos o apoio, éramos a solidariedade para eles. Se ficassem doentes, buscavam a guerrilha. Se tinham problemas com um vizinho, buscavam a guerrilha, para que se solucionasse. Se havia uma dívida de dinheiro pendente, buscava, a guerrilha para ver como solucionar. 

Até para as decisões mais simples, eles sempre buscavam a guerrilha para que nós os orientássemos. Também começamos com eles um processo de conscientização do cuidado do meio ambiente. De cuidar de suas águas, de cuidar de sua selva. Por manter a diversidade da selva e não transformar tudo em monocultivo.

A diversidade da selva é muito importante, porque temos múltiplas espécies. E, não somente cuidado com o meio ambiente, mas também com os animais: preservar a fauna de nosso país. Se houvesse necessidade, se sacrificava um animal. Caso contrário, não.

Quais foram os pontos chave do processo de paz entre governo e FARC, que começou em 2012 e terminou em 2016?

O processo de paz não começou com o governo de Juan Manuel Santos, que foi um governo de direita, da direita empresarial, financeira. Começou há 30 anos, quando nos sentamos com o primeiro presidente para negociar. Começamos a construir uma saída política, mas tendo como base um projeto de país.

No governo de Juan Manuel Santos houve um acordo, porque ele se sentou conosco e reconheceu que somos uma força beligerante, que temos um comando único, um uniforme que nos identifica, temos normas internas, um regulamento.

Então nos sentamos com ele e colocamos na mesa nosso projeto de país para confrontá-lo e construir, a partir dessas bases, o acordo, que são seis pontos:

Primeiro, reforma rural integral, porque na Colômbia o conflito surge pela terra: a defesa da vida e da terra, de nosso território, das terras que foram roubadas violentamente. Onde estão essas terras? Quem as têm? Portanto, reforma rural integral, porque é uma necessidade urgente. 

O fato de fazermos uma reforma rural integral não quer dizer que sejamos um país socialista ou comunista. Os países desenvolvidos que fizeram uma reforma rural integral não são comunistas. Suécia, Estados Unidos, Noruega não são países comunistas, mas têm uma sociedade mais equitativa.

Participação política é o segundo ponto, porque na Colômbia se elimina, se assassina a oposição. Se elimina a pessoa que pensa diferente, que quer um país diferente. Participação política com garantias para a oposição, para os partidos minoritários. Não somente participação nas corporações públicas, mas também nos meios de comunicação, que tenhamos direitos aos meios de comunicação. Queremos que o Estado providencie emissoras comunitárias para difundir o pensamento e para que sejam a voz das comunidades.

Terceiro ponto: fim do conflito. Para podermos fazer a transição e nos tornarmos uma força política, havia que terminar com o conflito. Fizemos todo o processo de entrega das armas, para poder fazer a transição a um partido político. 

Quarto ponto: solucionar o problemas das drogas ilícitas.

Na Colômbia, temos um gravíssimo problema social muito grave com as drogas ilícitas. É um dever, uma obrigação do Estado colombiano resolver. Pactuou-se um programa de substituição gradual de cultivos ilícitos. Mas um processo não violento, não erradicando, não fumigando áreas com glifosato. Também a partir de um compromisso com os camponeses, com um acordo.

Em diálogo com eles se firmou o compromisso de que voluntariamente façam a substituição gradual dos cultivos. O governo precisa se comprometer a dar projetos produtivos a substituição. Se não, não teremos uma substituição gradual. Não é necessária somente assistência técnica, mas também apoio na comercialização desses produtos que os agricultores vão produzir para substituir a coca. 

Quinto ponto, e o mais importante, o que está no centro do acordo: as vítimas.

A Colômbia tem mais de oito milhões de vítimas do conflito armado. Temos seis milhões de hectares roubados. Não sabemos na mão de quem está. É necessário devolver essa terra aos seus donos, mas prestando assistência adequada.

Mas voltemos às vítimas.

As vítimas precisam da verdade. Necessitam saber onde estão os seus entes queridos; onde estão esses homens e mulheres que foram à guerra e nunca voltaram. Onde estão seus irmãos, seus tios? Onde estão? Não sabemos. Essa é a verdade. Mas com um sistema importante: o sistema de verdade, justiça, reparação, e não repetição dos conflitos.

A verdade para não repetir, não voltar a repetir o conflito que nos deixou essas profundas feridas, profundas cicatrizes na sociedade colombiana.

É um processo que estamos começando de reconhecimento e de reconciliação dos colombianos, das famílias. Reconhecimento porque temos que reconhecer nossa responsabilidade no que ocorreu na guerra. Não somente a insurgência, mas o Estado colombiano que também tem muita responsabilidade, toda responsabilidade nesta guerra que está vivendo a Colômbia. 

Mas os conflitos não terminaram. Ainda não temos diálogos com os companheiros da ELN, e é importante continuá-los. Não somente isso, queremos que o Estado tome o controle verdadeiro das armas e que não haja mais esquadrões da morte. É preciso desarticular os esquadrões da morte, os paramilitares, que fazem trazem tantos danos ao nosso país. Matam, assassinam um líder a cada três dias em nosso país. 

O sexto ponto: referendar e implementar o acordo.

Nisso estamos muito lentos. O novo governo fez sua própria leitura do acordo. O resumiu a 32 páginas. Um livro de 324 páginas ficou reduzido a 32 páginas. É o primeiro acordo desta natureza no nosso país. É histórico. Porque é a mudança para buscar uma nova sociedade, buscar construí-la.

O governo de direita, fez sua própria leitura e apresentou um documento de 32 páginas. Paz com legalidade? Não.

A paz é muito mais. A paz é uma mudança, a paz é feita com pão, saúde, educação. A paz é um país onde caibamos todos os colombianos e colombianas.

Depois do longo período de negociações, qual era a avaliação das FARC quando firmou o acordo com o Juan Manuel Santos?

A guerra chegou a um ponto em que nem eles, nem nós, ninguém venceu. Era um confronto muito forte, um confronto no qual se chegou a apresentar inocentes como resultados de guerra, já que o exército já não tinha resultados contra a guerrilha.

O exército fazia redes e, enganando pessoas, levou uma grande quantidade de jovens, transportou a outros pontos do país, vestiu como guerrilheiros e os assassinou. Depois o exército os apresentava como guerrilheiros para o país, para mostrar que estava ganhando a guerra. Mas era mentira, não era assim.

Findar o conflito era uma reivindicação geral, das pessoas, das comunidades, das mães. Era uma exigência permanente que nos sentássemos, insurgência e governo, para que terminássemos o conflito colombiano que estava açoitando tanto a sociedade. Sobretudo nos campos, porque nos campos foi onde se sentiu o conflito colombiano. 

Os "falsos positivos" causaram muito dano, sobretudo nos lares colombianos, porque eram filhos desaparecidos que não tinham nada a ver com o conflito e eram assassinados e apresentados como guerrilheiros. 

Isso foi o que gerou o clamor das pessoas para que nos sentássemos para conversar. Aí nós atendemos esse clamor da sociedade, de sentarmos à mesa com Juan Manuel Santos.

Não foi somente um clamor para a guerrilha, foi um clamor para o governo também, em buscar uma solução política à guerra. 

O partido FARC, já na vida civil, como é sua atuação?

Primeiro, entramos neste espaço, nesta corporação. Assumimos a tarefa de iniciar um relacionamento com as outras forças progressistas do nosso país, e os senadores representantes, e formamos a bancada alternativa. Somos 21 senadores e 22 representantes na Câmara. 

Quando o congresso se reúne, somos 43 congressistas de diferentes forças, de partidos progressistas de nosso país.

Qual é nossa tarefa principal? A implementação do acordo. Essa é a nossa bandeira, a implementação do acordo. Por quê? Firmar o acordo significou para o nosso país uma mudança. E isso se manifestou nos 8 milhões de votos, por exemplo, que houve para a Colômbia Humana, para a oposição em nosso país. 

Aí estamos nós também incluídos. Não podemos evitar o fato que ficou comprovado de que as pessoas querem mudanças, e lutamos por isso todos os dias.

Há pouco se criou um movimento grande de defesa da paz e estão lançando capítulos em diferentes cidades de nosso país. São muito importantes essas pessoas que chegam para defender e apoiar a paz.

São docentes, jornalistas, intelectuais, diretores de universidades, profissionais, doutores. É um movimento grande, com apoio em todas as  cidades.

Temos um programa, de ir à todas as cidades em que estejam nos solicitando, que estejamos presentes para que também eles, a sociedade, se vinculem a esses diferentes capítulos de "Denfendamos la Paz". 

Também queremos levar a nível latino-americano, criar uma rede de parlamentares e ex-parlamentares, de personalidades em defesa da vida, em defesa da paz da Colômbia e de toda a América Latina. 


A paz da Colômbia é a paz da América Latina, é a paz de toda nossa América.


A Colômbia tem sete bases norte-americanas instaladas em nosso país. Isso é um perigo. Dali se pode tomar, se pode invadir outro país facilmente, ter acesso aos nossos países vizinhos, aqui no Brasil, Bolívia, Peru. 

Temos que impulsionar esse projeto. Necessitamos de uma unidade urgente, de toda nossa América. Dos povos da nossa América. 

Como o partido vê ascensão da ultra-direita na Colômbia com Ivan Duque, no Brasil com Jair Bolsonaro, na região como um todo?

É preocupante o avanço da ultradireita que temos na região. Muito preocupante. Por isso chamamos à unidade, à unidade dos povos.

Nós, os povos, temos que nos unir diante desta "direitização" que está ocorrendo. Temos na Argentina, no Brasil, na Colômbia. Também essa intervenção que querem levar a cabo, por exemplo na Venezuela, sem respeitar que se trata de um povo autônomo, um povo soberano, um povo que decide seu destino. 

Vamos arrumar nossas casas primeiro, e vamos nos solidarizar com nossos vizinhos. Solidariedade, solidariedade. Não intervenção.

Devemos exigir do norte, do império, que acabe com o bloqueio. Isso é importante. Terminar com o bloqueio, em apoio ao povo venezuelano. E, ao dizer povo venezuelano, estou incluindo seu governo, porque o povo venezuelano foi autônomo para eleger seu governo, de forma democrática, com eleições.


Vejam que preocupante é que as políticas dos Estados Unidos incidam nos nossos países. Não para o bem, mas para retirar nossas riquezas, para tirar o que é nosso. Querem roubar nosso território, nossa água, nosso oxigênio, nosso petróleo. 


Pessoalmente, como foi para você a saída da clandestinidade e passagem para uma vida civil e pública?

Tem sido muito difícil. Nós, em nossa clandestinidade, em nossa vida guerrilheira, sempre nos prepararmos para sermos melhores guerrilheiros, disciplinados, para entregar o melhor do nosso ser, para socializar nossos ensinamentos.

Fazer esse passo para a legalidade nos trouxe dificuldades, incertezas, porque regressamos a um Estado de Direito que não vela pelos cidadãos. 

Voltamos a um Estado de Direito de figura, mas não de realidade, a uma sociedade que não progrediu. Mas com a firme convicção de que, com as pessoas, conquistaremos as mudanças.

Estamos nos organizamos e nos mobilizando em defesa do que nos corresponde, em defesa destes direitos que nos são negados, mesmo sendo direitos garantidos pela Constituição.

Sentimos falta disso, nossa vida sente falta disso, nossa pequena sociedade construída à base de valores como solidariedade, da irmandade, de viver em harmonia.

E atualmente a sociedade individualiza cada um num escritório, então isso foi difícil na adaptação. Sentimos falta do amor guerrilheiro entre nós, do carinho. Disso temos saudades, é claro.

Edição: Rodrigo Chagas