ÁFRICA

“O poder da mídia global precisa ser desafiado, isso é parte da luta de classes”

Editor por 26 anos de um jornal de oposição, Fred M’Membe é fundador do Partido Socialista da Zâmbia

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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“Fui preso muitas vezes. Mas quanto mais nos perseguiam e me prendiam, mais o jornal ganhava prestígio nas ruas” / Joana Tavares

“Aqueles que exploram os trabalhadores no Brasil não querem que as pessoas conheçam sobre a África”, resume Fred M’Membe, pré-candidato pelo Partido Socialista à presidência da Zâmbia, nas eleições de 2021. Fundador do primeiro partido de esquerda do país e condecorado como “Herói Mundial da Liberdade de Imprensa” pelo Instituto Internacional de Imprensa (IPI), Fred foi editor por 26 anos de um influente jornal, que sofreu inúmeras perseguições do governo local. A Zâmbia, um dos países com maiores índices de pobreza do mundo, tornou-se independente da Inglaterra em 1964 e enfrentou uma política de partido único até 1991. Nas próximas eleições, será a primeira vez que um candidato de esquerda concorrerá ao principal cargo do Executivo. “A gente achou que as pessoas não iam ser tão receptivas às ideias socialistas. Mas têm nos aceitado muito bem. Muito bem”, reforça o jornalista, que defende, em visita ao Brasil, necessidade de se fortalecer a campanha internacional pela liberdade de Lula.

Brasil de Fato - Você foi o fundador de um jornal - o Zambia Post - e foi responsável por sua edição por 26 anos. Por essa atuação, você foi preso algumas vezes. Como foi essa experiência de fazer comunicação de oposição por tanto tempo?

Fred M'Membe - Entrei no jornalismo sem muito conhecimento, não frequentei faculdade de jornalismo, tinha uma formação em negócios. O que me fez lançar o jornal foi o contexto político do período. A União Soviética tinha colapsado. A política de partido único (que vigorou na Zâmbia de 1972 a 1991) tinha sido desacreditada. E o processo de o país se tornar multipartidário não foi fácil. Toda a mídia estava concentrada nas mãos do Estado. Não havia outras vozes. E nós precisávamos de uma voz, precisávamos de um jornal. Eu tinha um amigo que era jornalista, que trabalhava como correspondente da BBC. A gente tinha muitas ambições. A ideia era fazer um jornal que saísse à noite. Depois, entendemos que a logística não ajudava pra isso. A gente não tinha as máquinas de impressão, não tinha a rede de distribuição, não tinha o capital. A gente tinha a ideia e o desejo. Começamos o jornal com 20 mil dólares, por aí.

Compramos alguns carros, mesas, equipamentos. No final, não tinha dinheiro para rodar a primeira edição. Rodamos sem dinheiro, no crédito, torcendo para que o jornal vendesse bem nas ruas. Mudamos de um jornal que saía todas as noites - no começo da noite - para um jornal que saísse de manhã, para depois ser um jornal semanal. Não tínhamos jornalistas. Pessoas que a gente achava que iam se somar, não se somaram. Meu amigo da BBC não quis arriscar seu emprego indo trabalhar com a gente. Assim acabei virando editor. Aprendi com ele, com outros amigos, estudei muito, fiz cursos de jornalismo no mundo todo, inclusive nos EUA. Eventualmente, aprendi. Depois de alguns anos, o jornal se tornou diário - por volta de 1995, quando passou a se chamar "The Post" - chegando a empregar mais de mil pessoas. O jornal começou a circular em 1991, semanal, e em 1995 era diário. Com o sucesso da edição, veio o desafio da política. O jornal se tornou muito forte, e isso gerou conflitos com os donos do poder. O jornal denunciava muito a corrupção e também defendia a liberdade de expressão, o que atraiu muita atenção política. Fui preso muitas vezes. Mas quanto mais nos perseguiam e me prendiam, mais o jornal ganhava prestígio nas ruas. Começamos a receber muitos prêmios internacionais.


No dia que fecharam o jornal acharam que íamos parar de rodar, mas não paramos nenhum dia


Em 2000, você recebeu o prêmio de Herói Mundial da Liberdade de Imprensa, concedido pelo Instituto Internacional de Imprensa. Qual a importância desse reconhecimento para a atuação em seu país?

Sim, ainda sou um dos heróis da liberdade de expressão do mundo. Á medida que o jornal foi ficando mais velho, nossas inclinações políticas foram sendo expostas, aqui e ali, especialmente nas organizações internacionais. Naquele tempo, toda a África estava sendo varrida pelo neoliberalismo e o mundo estava sendo governado pela agenda neoliberal. Comecei a defender Cuba, depois o governo da Venezuela, com Chávez, nesses eventos internacionais da imprensa. Com o prestígio crescendo no mundo, os ataques em casa também aumentaram. Em 2014, o governo decidiu que ia fechar o jornal. Eles vieram com uma multa, de uns cinco milhões de dólares. Fizemos uma batalha judicial de dois anos, e em junho de 2016 o governo tentou nos fechar de novo. Mas as autoridades judiciais disseram que não havia motivos para fechar o jornal. O governo ignorou a ordem da Corte. Decidimos continuar rodando. Começamos a fazer edições clandestinas.

De junho de 2016 até novembro de 2017 fizemos publicações clandestinas. Eram só oito páginas, mas fizemos tiragens diárias. Isso os irritou muito. Em agosto havia eleições. Queriam que não houvesse mais o jornal, mas nós insistimos. Em novembro de 2017, eles resolveram nos aniquilar. Começaram uma campanha para pegar nossos bens. Até hoje o assunto está na Corte. Mas nunca podemos depor. Nunca fomos chamados. São procedimentos criminosos que estão fazendo contra nós. No dia que fecharam o jornal acharam que íamos parar de rodar, mas não paramos nenhum dia. No dia seguinte, saímos com outro jornal, The Mast. Ele era idêntico ao Post. Mudamos o design complemente, ficou até melhor. O Mast continua até hoje. É o principal jornal do país em termos de influência. Ele é de uma organização não lucrativa, ninguém é dono. E mudamos também algumas coisas, seguindo as tendências mundiais do mercado de mídia. Tivemos que diminuir a equipe - não foi fácil - a circulação, o número de páginas. Mas mantivemos o alcance nacional. E está indo bem, mas não sou mais editor. Em 2017, entrei para o Partido Socialista.

Por que você considera importante para um ativista político ter essa atuação na comunicação, tocar um projeto de mídia? Como a luta das ideias se articula com a luta política?

Elas são inseparáveis. Governar é comunicar. Se você não é capaz de fazer suas ideias chegar até as pessoas, como elas vão saber o que você pensa? Não vivemos mais em clãs pequenos, onde você pode falar diretamente com os membros facilmente. Vivemos em um mudo grande e diverso, com milhões de pessoas. Você pode falar com todos ao mesmo tempo, mas precisa dos meios de comunicação de massa. Aqueles que dominam os meios de comunicação dominam a política também. Precisamos entender que a mídia é parte da superestrutura, que é usada para consolidar o poder econômico. A mídia não é neutra. Toda mídia tem uma natureza de classe. Pode existir objetividade, mas não neutralidade numa sociedade de classes. Vivemos num mundo dominado pelas ideias do capitalismo, então a maioria dos meios de comunicação de massa é dominada pelas agendas do capitalismo.

Nós da esquerda precisamos lutar por esse espaço. Não vamos conseguir isso nos meios capitalistas, precisamos criar nossos próprios meios. E não é fácil. Mídia requer dinheiro. Mas podemos pensar mídias que estejam a nosso alcance, de nossas possibilidades. Podemos aproveitar de algumas brechas do próprio sistema, como a internet, e proliferar instrumentos nossos, de uma forma que fique difícil pra eles lidar com a gente. Podemos desafiar o poder da mídia global. Eles precisam ser desafiados, isso é parte da luta. Foi assim em todas as lutas socialistas. Marx era um editor de jornais. Lênin era um editor. Eles notaram muito cedo que é preciso ter as próprias mídias. Nós socialistas não podemos ser enganados pelos paradigmas burgueses da mídia. Estamos criando nossos próprios paradigmas, nossas próprias mídias. 


Governar é comunicar. Se você não é capaz de fazer suas ideias chegar até as pessoas, como elas vão saber o que você pensa?


Como você começou sua atuação no Partido Socialista?

O partido foi criado em 2017, por mim e por meus camaradas. Eu sempre fui um comunista, desde 1978, sempre fui membro do Partido Comunista da África do Sul. Mesmo quando fui para a mídia, ainda era membro do Partido Comunista. O jornal não era do partido, mas foi o primeiro - e único - jornal da África a ter um escritório em Havana. Foram 11 anos de investimento de um correspondente em Cuba. Fundar um partido era continuidade de um longo caminho. 

Você será o candidato a presidente pelo partido nas eleições de 2021. Quais são os principais desafios para um governante da Zâmbia?

O principal é a pobreza. Temos níveis muito altos de pobreza, 76,6% da população, que chegam a 80% em algumas regiões. Temos uma das maiores taxas de mortalidade materna do mundo. Somos o 3º ou 4º país mais faminto do mundo hoje. E isso traz consequências. Aumenta as taxas de mortalidade infantil, diminui a expectativa de vida, aumenta a quantidade de doenças, sobrecarrega os serviços de saúde. Significa também que a educação é pobre. Nossa infraestrutura é um desastre. 62% da população tem menos de 25 anos. E essa população deveria estar na escola, de todos os níveis. Dois terços da população precisa de educação. Isso quer dizer que é preciso ter grande parte do orçamento voltado para a educação, não menos de 20% do orçamento deve ir pra isso. E não gastamos nem 8% hoje em dia. Isso significa que muitas de nossas crianças não vão pra escola.

A creche, o jardim de infância, não faz parte do nosso sistema de educação, é apenas para uns poucos privilegiados. Temos taxas altíssimas de desemprego. Há muita migração para as áreas urbanas, que significa cidades congestionadas, sem educação, sem moradia, pouco acesso à água, saneamento. Neoliberalismo aprofunda o problema. Ele foca no lucro, não nas pessoas. Significa que as taxas de pobreza aumentam, no campo e na cidade. Estamos perdendo empregos, inclusive na mineração. A tecnologia está mudando, então empregam cada vez menos. Temos perdas de empregos no capitalismo financeiro, na indústria, em toda parte. E a população está crescendo. Onde essas pessoas vão trabalhar? O número de crianças vivendo na rua está crescendo todo dia. Que tipo de sociedade se cria com crianças morando nas ruas?


Toda mídia tem uma natureza de classe. Pode existir objetividade, mas não neutralidade numa sociedade de classes


Você acha que tem chance de ganhar a eleição?

Nossa chance é muito alta. Claro que tudo depende do que faremos daqui até 2021. Como nos organizaremos, como faremos a campanha. Estamos competindo em eleições capitalistas, burguesas, então vamos ter que arrecadar dinheiro. Estou me tornando uma mercadoria, uma commoditie, para ser vendida para os eleitores da Zâmbia. É um processo muito doloroso para um socialista. Mas para ganhar as eleições temos que, às vezes, jogar o jogo dos capitalistas aqui e ali. Temos que fazer marketing. Com limites, claro. Nunca houve um partido de esquerda na Zâmbia. Havia o Partido Comunista do Sul da África, mas é a primeira vez que temos um partido nacional de esquerda. A gente achou que as pessoas não iam ser tão receptivas às ideias socialistas. Mas têm nos aceitado muito bem. Muito bem. A credibilidade de quem promove os projetos importa. A clareza do programa também. A gente gostaria de ter dado esse passo muito antes, mas precisávamos da experiência que temos hoje. É uma combinação difícil. Agora temos a experiência necessária, inclusive para aprender mais.

Por que você acha que os brasileiros sabem tão pouco sobre a África em geral e sobre a Zâmbia em particular?

Aqueles que exploram os trabalhadores no Brasil não querem que as pessoas conheçam sobre a África. Querem deixar as pessoas ignorantes sobre as lutas da África. Quando vocês ficam aqui, fazendo as lutas de vocês, eles conseguem controlá-los. Quando você espalha suas lutas - para a África, para a Ásia, para outras partes do mundo - fica muito difícil conter as lutas. E não é só vocês que são deixados na ignorância. Eles também deixam a África ignorante sobre o Brasil. O que todos sabem sobre o Brasil é futebol. Como se o país fosse só isso. Mas a luta de vocês é muito importante. Imagina se o mundo todo soubesse, por exemplo, sobre apenas uns 50% das coisas que o MST faz? Se as pessoas pobres do mundo soubessem. Esse mundo seria o mesmo? Eles não querem que tenhamos essas visitas, essas trocas. Isso tudo é perigoso para o capitalismo. Não querem que articulemos as lutas. Nos últimos três anos, a Zâmbia teve um acordo de cooperação com o MST. Os esforços desse movimento mudaram o país. Nosso partido não existiria se não fosse a interação com o MST. Isso é a cooperação e por isso o imperialismo não quer essa articulação.

Como você vê o cenário político no Brasil hoje?

É um revés, e não é um revés pequeno. Há uma onda reacionária varrendo o Brasil e algumas partes da América Latina. Mas há uma outra onda emergindo, que vai ser muito maior que a onda progressista anterior. Ela vai vir, e vai ser maior que aquela que eles mataram. E essa onda progressista na América Latina vai vir junto com uma onda na África. Quando a onda progressista estava passando aqui, a África estava dominada pelo neoliberalismo. Os esforços que estamos fazendo definitivamente vão produzir uma nova África nas próximas décadas. Se não antes. O que é bom é que vocês têm organizações populares e a capacidade de refletir sobre o que deu errado. As reflexões do PT, do PCdoB, de outros partidos de esquerda, são importantes.

Há um crescimento da esquerda também nos Estados Unidos. E podemos dizer que a esquerda está crescendo no mundo. Há terreno fértil para as ideias progressistas. O que precisamos é estar à altura dos desafios que temos hoje. Não temos outra alternativa a não ser lutar por um mundo mais justo, mais humano. E é nosso dever fazer isso, como indivíduos e como coletivos. Esse mundo novo não vai vir do céu, não, precisamos lutar. O desafio é imenso, eles são implacáveis - veja como agiram e agem no Brasil, veja a prisão do Lula. Isso é brutal, é inumano. Mas desde quando o capital é humano? O capital que fez as pessoas trabalharem 20 horas na revolução industrial. Esse é o capitalismo.


Se as pessoas pobres do mundo soubessem o que o MST faz esse mundo não seria o mesmo


Você quer deixar um recado para nossos leitores?

O Brasil está passando por um período difícil de sua história. A parte progressista do Brasil, os trabalhadores, os camponeses. Mas o mundo todo está passando por um período desafiador. Esse período nos exige mais princípios, mais ideias, mais compromisso, mais lutas, mais unidade, mais solidariedade internacional. Precisamos unificar todas nossas lutas. Inclusive a luta pela liberdade de Lula, pela sua saída de uma prisão ilegal, fascista. Precisamos internacionalizar a campanha por Lula livre. A luta continua! Contra o capitalismo. 

 

 

Edição: Elis Almeida