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Indonésia: confrontos após reeleição de Widodo deixam seis opositores mortos

Com cerca de 193 milhões de eleitores aptos, país asiático é considerado a terceira maior democracia do mundo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Os distúrbios começaram após a Comissão Eleitoral da Indonésia (KPU, na sigla em indonésio) confirmar a reeleição de Widodo / Goh Chai Hin/AFP

Seis pessoas morreram e cerca de 200 ficaram feridas durante confrontos entre eleitores contrários à reeleição do presidente da Indonésia, Joko Widodo, e a polícia. As manifestações ocorreram entre a noite de terça-feira (21) e desta quarta (22). 

O balanço de vítimas foi divulgado por Anies Baswedan, governador de Jacarta, capital do país e local onde ocorreram os conflitos. Segundo a agência Efe, cerca de 60 pessoas foram detidas durante os tumultos.

O chefe da polícia, Tito Karnavian, informou que as forças de segurança do país não usaram munição real contra os manifestantes, no entanto, algumas das vítimas foram atendidas com ferimentos à bala. 

Os distúrbios começaram após a Comissão Eleitoral da Indonésia (KPU, na sigla em indonésio) confirmar a reeleição de Widodo nas presidenciais, que ocorreram em 17 de abril. 

O atual mandatário, que correu pelo Partido Democrata Indonésio (PDI-P), venceu o pleito com 55,5% dos votos. O ex-general Prabowo Subianto, do Partido do Movimento da Grande Indonésia (Gerindra), obteve 44,5%. O candidato derrotado não aceitou o resultado, se recusando a assinar as atas eleitorais.

Os atos começaram de forma pacífica na noite de terça-feira. Confrontos só foram registrados após a polícia tentar dispersar os manifestantes usando bombas de gás lacrimogêneo. Protestos maiores ocorreram na quarta, no centro de Jacarta.

Sob a justificativa de conter o compartilhamento de notícias falsas, o governo da Indonésia anunciou que irá bloquear temporariamente o acesso a algumas funções das redes sociais. 

Segundo o presidente Widodo, a situação do país está sob controle. O mandatário disse, no entanto, que poderá adotar medidas mais duras contra quem instigar os tumultos. “Eu não vou tolerar ninguém que ameace a segurança, a unidade do país ou aqueles que rompem o processo democrático, disse”. 

Subianto havia amargado o segundo lugar nas eleições presidenciais de 2014. Na ocasião, ele também se recusou a aceitar a vitória de Widodo, levando a questão à Justiça, que não acatou a sua queixa. 

Quem é o presidente reeleito?

Joko Widodo, de 57 anos, é presidente da Indonésia desde 2014, ano em que bateu Subianto pela primeira vez. o político ganhou destaque a partir de 2012, quando se tornou o governador de Jacarta. 

Widodo, que tem origens humildes, baseou sua campanha no combate à corrupção, crescimento econômico e na venda de uma imagem de “homem do povo”. 

A economia do país registrou um crescimento constante durante seu primeiro mandato. Centrado no aumento dos investimentos estrangeiros, Widodo conseguiu selar contratos com a China para angariar investimentos na infraestrutura da Indonésia.

O mandatário é bastante criticado por não ter cumprido parte da agenda proposta em 2014. O político havia prometido iniciar um processo rigoroso de investigação dos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura Suharto.

O presidente é considerado um muçulmano moderado em um país onde o islã conservador cresce desde os atentados contra o World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Para tentar conquistar parte do eleitorado mais religioso, Widodo escolheu Ma’ruf Amin, um pregador conservador, como seu vice.

Quem é o candidato derrotado?

Prabowo Subianto é um político, empresário e ex-general da Indonésia que não apenas atuou durante a ditadura de Suharto, como também mantinha relações próximas com ele, tendo sido casado casado com Titiek Suharto, uma das filhas do ex-ditador.

Em 1998, ao final do regime, Subianto foi dispensado sem honras. O político é acusado de ser cúmplice em casos de violações de direitos humanos. Ele nega, no entanto, qualquer envolvimento. 

Assim como Widodo, Subianto  fez uma campanha baseada no combate à corrupção e no crescimento econômico. Mas ao contrário do presidente, Subianto defendeu uma agenda nacionalista, afirmando que, caso eleito, iria rever os contratos com os chineses. 

Próximo das elites políticas da Indonésia, Subianto também tentou desvincular sua imagem da classe política tradicional do país, a quem chamou de “elites do mal de Jakarta”. 

Durante a campanha, Bubianto se aproximou dos setores islâmicos mais conservadores. O seu candidato a vice foi o ex-empresário Sandiaga Uni. Até o momento, nenhuma evidência de fraude eleitoral foi 

Terceira maior democracia do mundo

Com cerca de 193 milhões de eleitores aptos, a Indonésia é considerada a terceira maior democracia do mundo, ficando atrás apenas de Índia e Estados Unidos. Ainda assim, a transição democrática do país é recente, tendo ocorrida apenas em 1998, após longos períodos conturbados. 

O país só conquistou sua independência da Holanda em 1945, ao que se seguiu um longo governo autocrático liderado por Ahmed Sukarno, que comandou o país de 1945 a 1967 tentando equilibrar nacionalismo, islã e comunismo.

Após 1967, com a chegada de Suharto ao poder, o país mergulharia em uma ditadura que duraria mais de 30 anos, tendo fim somente em 1998. Com um teor profundamente anti-comunista, o regime de Suharto foi responsável pela perseguição de líderes sindicais, membros do Partido Comunista da Indonésia e javaneses da etnia Abangan. Durante o período, entre 400 mil a um milhão de comunistas foram assassinados.

Cerca de 80% da população da indonésia é composta por muçulmanos, em sua maioria sunitas.

* Colaborou Tiago Angelo.

Edição: Daniel Giovanaz