LITERATURA

João Baruinho

Soldava carrinhos para os catadores dali. O preço era flutuante: dependia dos recursos do trabalhador

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Reencontro um casal de amigos de lutas sociais. Foi só aquele tempinho pra um café morno antes das tarefas do dia. Eles comentam que voltaram a contribuir, depois de anos, com uma pastoral na Vila das Torres, ajudando a comunidade. Lá foi dos primeiros lugares onde me engajei nas lutas sociais. Era uma ong chamada “Girassol’, que dava cursos pra piazada, sem muita organização e sem recursos. Vinte anos depois, a área de ocupação mais próxima do centro de Curitiba segue com problemas. Tráfico. Pobreza hoje acentuada. Porém, de repente um fio de memória me trouxe o João, o João Baruinho, ex-carrinheiro, magro, figura de procedência e amizade. Baruinho soldava carrinhos para os catadores dali. O preço era flutuante: dependia dos recursos do trabalhador. Mas João se tornou famoso de verdade com um helicóptero criado com sucata, em tamanho quase original, surpreendendo quem o via pousado na lage de João.

Ansioso, eu quis saber dele. “Morreu faz tempo. De leptospirose, a doenças dos ratos, sabe?” Pensei no céu. Pensei nos voos que Baruinho queria galgar mas nesse país que cuida cada vez menos dos seus melhores cientistas e inventores.

 

*Autor dos livros Sanga (poesia, 2017); Três Vértebras (seleção de conto e poesia, 2013); Entre Muros e Montanhas – encontro com os zapatistas no México – e outras histórias dos Andes à América Central (Relato jornalístico, 2017) e História da Comuna de Oaxaca (Relato jornalístico, 2018) 

Editado por: Redação

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