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Artigo | Amarelo é a cor mais quente, por Miguel Enrique Stédile

Seis meses após seu aparecimento, o segredo do movimento "coletes amarelos" é bem conhecido: chama-se luta de classes

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Os coletes amarelos são trabalhadores de várias idades, mas principalmente mais maduros e há mais tempo no mercado de trabalho / Foto: Mehdi Fedouach/AFP

Os gilets jaunes, os coletes amarelos franceses, já foram descritos de muitas formas. Já foram chamados de filhos da precarização, confundidos com Black Blocks, comparados com o junho brasileiro de 2013, assediados pela extrema direita, olhados com desconfiança por parte da esquerda. Mas a resposta pode parecer mais simples do que parece.

Os coletes amarelos são trabalhadores de várias idades, mas principalmente mais maduros e há mais tempo no mercado de trabalho, afetados pelos constantes cortes de direitos e políticas sociais do Estado francês. 

“Antes um casal de professores que trabalhasse metade da sua vida profissional poderia, juntos, comprar uma casa e viver dignamente o restante da sua vida”, conta Nadine, colete amarelo de Val d'Oise. “Hoje, essa situação é impossível, um casal de professores teria dificuldades para pagar o aluguel e viver com decência."

Não é a toa que este movimento tenha, desde o princípio, entrado em rota de colisão com o discurso e a prática do presidente Emanuel Macron. Oriundo do mercado financeiro, sem carreira política, mas tendo ocupado o posto de ministro da Economia, jovem, 41 anos, sua eleição foi saudada, dentro e fora da França, como um modelo de “nova política”. “Macron se apresenta como se fosse um presidente de uma startup”, ironiza o deputado François Ruffin, da França Insubmissa.

A vida de príncipe encantado de Macron durou pouco. Devoto da cartilha de austeridade, seu governo reduziu o valor de ajuda social para aluguéis, flexibilizou leis trabalhistas para favorecer os empregadores, aumentou a contribuição obrigatória de aposentados e gerou uma desvalorização real dos salários, ao mesmo tempo em que, como no episódio das doações para reconstrução de Notre Dame, isentava as camadas mais ricas de impostos. “Há um descolamento da população em relação a este discurso neoliberal, da globalização, da competição, da concorrência”, diz Ruffin. “Não há mais sonho nenhum sendo vendido por este discurso e as pessoas não se veem como parte dele”.

“Desde os anos 1960, com o fim do mundo camponês, o desenvolvimento da agricultura industrial, a terceirização da economia e a urbanização dos territórios, a França conhece um fenômeno progressivo de desertificação do ‘estado-providência’ nas partes rurais” explica o colete amarelo Bruno Vaz. São fechamentos de escolas e hospitais públicos, ausência de transportes públicos e a desmaterialização de numerosos processos administrativos. “Pagando impostos como sempre, a classe trabalhadora francesa vê então desaparecerem ou se degradarem, pouco a pouco, estes diferentes serviços públicos. Então os coletes amarelos são reação a uma fratura territorial e uma rejeição a uma política fiscal injusta e ineficaz”, afirma. “Por isso, o movimento está muito mais mobilizado e ativo no que foi chamado de ‘diagonal do vazio’, que vai da região das Ardennes aos Pirineus-Atlânticos, onde estão situados os departamentos mais afetados pelo despovoamento e desertificação dos serviços públicos”. 

A gota d’água foi um novo imposto sobre combustíveis. Irradiadas a partir de Seine-et-Marne, há apenas 62 km de Paris, as manifestações ganharam corpo rapidamente e, no dia 17 de novembro do ano passado, cerca de 300 mil franceses paralisaram ruas e estradas em protesto contra o novo imposto. Os coletes amarelos são um item de segurança obrigatório nos carros franceses, daí a primeira relação entre o símbolo e o motivo dos protestos. Mas os coletes são também uma espécie de uniforme obrigatório para todo tipo de trabalhadores nas ruas, o que gerou uma identificação quase imediata dos manifestantes com outras categorias, não apenas motoristas. As bandeiras de lutas foram ampliadas rapidamente, se tornando um movimento contra a política econômica e por melhorias na qualidade de vida. As reivindicações incluem aumento do salário mínimo, aposentadoria mínima de 1.200 euros e a volta do imposto sobre grandes fortunas, extinto por Macron.

As primeiras pesquisas apontam que os coletes amarelos são, em sua maioria, trabalhadores com média de idade de 45 anos, de classes populares ou da classe média. 

Se as pautas podem ser descritas como “classistas”, a forma de organização dos coletes não reproduz as formas clássicas de sindicatos e partidos. Ao contrário, há muita resistência à participação partidária e duras críticas ao movimento sindical no interior do movimento. “Aqui não temos sindicatos e nem partidos, é um movimento de cidadãos”, conta Maria Gonçalves, ex-sindicalista e manifestante em Val d'Oise. “É melhor que seja assim. Eu cansei de ir em manifestações sindicais, cada vez menores, e ver os sindicatos não saberem como reagir à crise”. Sem se organizar de uma forma tradicional, o movimento criou outro dilema para o governo: não saber com quem negociar.

Esta rejeição às formas tradicionais de organização, o discurso duro contra o sistema político, mas, principalmente, o apoio da população e a abrangência das manifestações, atraiu a atenção dos setores de direita da política francesa. Mesmo fora das fronteiras francesas, um partido de extrema direita australiano se registrou com o nome de coletes amarelos, enquanto o governo italiano e o partido Cinco Estrelas elogiaram publicamente o movimento, causando mal-estar diplomático. Porém, a tentativa de se apropriar do movimento fracassou. “Talvez haja uns 15% de manifestantes que se declarem de direita dentro dos coletes”, explica o jornalista Cristophe Ventura, “e eles tentaram dirigir o movimento e impor pautas liberais como o fim dos impostos, mas foram derrotados quando o movimento reafirmou as bandeiras de justiça fiscal e, ao contrário, defendeu o aumento de impostos para os mais ricos”.

Macron recuou no aumento do imposto de combustíveis, mas se viu encurralado quando as pautas miraram na economia. Decidido a não abrir mão da política de austeridade, o governo recorreu à repressão policial. Os conflitos se tornaram constantes a cada manifestação dos coletes aos sábados. “Não tem problema, eu já estava em maio de 1968 e me habituei desde aquela época com o gás lacrimogênio”, brinca Maria Gonçalves. A referência não é gratuita. Segundo Fabian Jobard, pesquisador do Centre Marc Bloch, o número de coletes amarelos feridos pela polícia já supera os dos protestos de maio de 1968. A violência só aumentou a rejeição a Macron, normalmente chamado pelos manifestantes de oligarca ou “bankster”, uma fusão de banqueiro e gangster. Tampouco diminuiu os protestos.

Quando o movimento completou seis meses, Macron apresentou uma série de medidas, supostamente resultado do que o governo chamou de “o grande debate”, um roteiro pelo país que durou três meses. “Na verdade, ele não reuniu e nem escutou ninguém, só os prefeitos do seu partido”, reclama o colete Serge Grossvak, “não teve debate nenhum”. 

“Depois de gastar 12 milhões de euros com o ‘grande debate’, Macron simplesmente disse que escutou, que entende, mas que não vai mudar seus planos”, avalia Bruno Vaz. Apesar de anunciar uma redução de impostos, Macron afirmou que o custo será o aumento da carga de trabalho para os franceses. “Nós devemos trabalhar mais, a França trabalha muito menos do que seus vizinhos”, afirmou o presidente. Porém, Macron descartou o aumento da jornada de trabalho, atualmente de 35 horas, e do aumento da idade mínima da aposentadoria. Segundo ele, o governo terá de diminuir os investimentos sociais, além de reduzir alguns benefícios para empresas, para suprir a diminuição da arrecadação dos impostos. Obviamente, a declaração não surtiu nenhum efeito e os coletes estavam nas ruas novamente no sábado seguinte.

“Este movimento derrotou totalmente e inverteu a percepção que se tinha sobre o governo Macron, sobre esta CEOcracia” diz Cristophe Ventura. “Os coletes amarelos barraram completamente a política econômica de Macron e agora as pessoas pensam justamente o contrário sobre ele: talvez ele seja muito jovem e inexperiente e não faça a menor ideia do que esteja fazendo”.

Os coletes, ao contrário, parecem saber para onde vão. “Nosso movimento teve várias fases e agora é a hora discutir o futuro dele” diz Grossvak. “A questão central é preservar nossa diversidade e autonomia, ultrapassando velhas formas como os sindicatos." Os primeiros passos foram dados com a realização de duas “Assembleia das Assembleias”, um encontro nacional dos coletes de várias regiões. A segunda, ocorrida em maio, reuniu mais de 700 representantes de praticamente todos os municípios onde os coletes têm presença. Entre os temas debatidos estava como reagir à repressão policial, como contrapor a mídia, a convergência ecológica, relações internacionais, a estruturação da Assembleia das Assembleias e a posição sobre as eleições europeias, onde decidiram não expressar apoio à nenhuma candidatura em nome da unidade do movimento. “Os coletes são o movimento mais duradouro e vigoroso que já tivemos na França nas últimas décadas, só o fato de estar resistindo já é uma vitória”, comemora Ventura. 

*Miguel Enrique Stédile é historiador e integrante do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos

Edição: Brasil de Fato