Entrevista

“Quando as pessoas estão dominadas pelo mito elas ficam insensíveis à razão”

Professor estudou a narrativa mítica que levou população ao medo e Bolsonaro à vitória

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"Um salvador sempre se aporta nas situações de desespero, reais ou forjadas", analisa professor / Foto: Arquivo Pessoal

A entrevista dessa semana tenta desvendar um mistério que anda rondando a nossa política. Nas últimas eleições para presidente da República, eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) começaram a chama-lo de “mito” como forma de valorizá-lo. Isso provocou a curiosidade do professor Dimas Antônio de Souza, que mergulhou nos textos sobre mitologia para entender o assunto.

Aqui, ele nos explica como é possível afirmar um mito político, em contraposição a fatos e argumentos racionais. Dimas é cientista político, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e integrante do Coletivo Alvorada. Ele foi o idealizador de ações de grande visibilidade na capital mineira, como o “Coral de Mil Vozes por Lula” que foi criado por ele e teve o arranjo elaborado pelo maestro Hudson Brasil. Também é do professor a ideia que originou o primeiro Lulaço, no Mercado Central de Belo Horizonte, evento que teve o protagonismo do trompetista Fabiano Leitão e que se espalhou por todo o Brasil. Ambos os atos foram produzidos pelo Coletivo Alvora.

O que é o mito?

Dizemos que dado relato é um mito, quando, independentemente de sua veracidade, acredita-se que ele seja verdadeiro, sobretudo pela forma dramática qual é apresentado. O mito funciona socialmente, é eficaz, mobilizador, indutor de julgamentos e de ações práticas. Sendo que, é a eficácia do mito que deve ser o critério para pensá-lo. Sendo respostas para as angustias e sonhos, próprios da existência humana, os mitos encontraram nas ideologias políticas o meio propício à sua permanência e proliferação, de modo que, como pano de fundo das mesmas, encontra-se, preponderantemente, a narrativa judaico-cristã.

Na última eleição a palavra “mito” apareceu ligada a Jair Bolsonaro. Na sua opinião, ele pode ser considerado um mito?

Um salvador sempre se aporta nas situações de desespero, reais ou forjadas. No fundo, Bolsonaro representa os anseios por ordem, estabilidade, unidade e um forte apego às formas de vida social que se sentem cada vez mais ameaçadas frente às mudanças correntes, principalmente nos costumes. O mito Bolsonaro assemelha-se profundamente ao de Moisés ou ao arquétipo do profeta. Anunciador dos tempos por vir, ele lê na história aquilo que os outros ainda não veem. Ele próprio conduzido por uma espécie de impulso sagrado, guia seu povo pelos caminhos do futuro. Sendo o mito um plano de ação, o combate aos comunistas, ou ao marxismo cultural, como denominam, é o verdadeiro programa de Bolsonaro.

Criaram também um medo do Foro de São Paulo e da esquerda. Por que isso aconteceu?

No Brasil, a velha ficção da dominação comunista renovou-se com a edição do Foro de São Paulo, em 1990, ou seja, acionaram o Mito da Conspiração. Tal mito narra a existência de um complô demoníaco, prestes a dominar toda a terra. Atemorizados, forma-se em contrapartida a santa conjuração e os Filhos da Luz escolhem frequentemente a noite para travar o seu combate, dado que passam a acreditar que só um complô pode frustrar o complô. Pela estrutura do mito, podemos deduzir que se formou no Brasil, com a finalidade de combater uma organização comunista imaginaria, uma outra organização, de direita, real e criminosa, que se articulou e operou nas sombras, cooptando agentes públicos, produzindo e divulgando mentiras pelas redes sociais, criando o clima favorável a que as suas ideias fossem implantadas.

Da mesma forma, os nazistas usaram na Alemanha no período entre as duas Guerras o livro “Protocolos dos Sábios de Sião”, em que se descrevia uma reunião dos judeus para dominar o mundo. Hoje sabe-se que essa reunião nunca aconteceu e que o livro era uma farsa, mas os nazistas acusaram os judeus de conspiração e os massacraram. Então, no Brasil, passou a existir uma verdadeira conspiração e organização criminosa de direita que armou o golpe contra Dilma e que mantém o Lula preso sem provas.

Você fala que essa conspiração de direita é uma organização criminosa. Quem participa dela?

Precisa de pesquisa e investigação criminal para a gente conseguir identificar os atores e seus mecanismos. Mas é certo que o grupo que acusa o outro de conspiração, é quem de fato conspira. Vivemos sob um complô organizado pela extrema direita nacional e internacional, que visa surrupiar direitos e riquezas naturais.

Bolsonaro criticou muito o “toma lá dá cá” com os deputados e senadores, mas já começa a fazer isso para aprovar a reforma da Previdência. Os apoiadores vão ver nessa atitude um afastamento do caminho moral?

Os seus seguidores têm nele o profeta. Aceitam de bom grado tudo que ele fizer, inclusive acabar com a transparência do governo para esconder criminosos [em referência ao caso Queiroz e das laranjas]. Quando as pessoas entram para dentro da lenda, elas vivem isso como uma verdade, mas não dá pra prever quanto tempo dura. Em geral termina em tragédia.

E onde fica Lula no meio dessa construção mitológica?

O Lula representa um sentimento enorme da população brasileira. Ele é uma ideia e um herói, assim como Bolsonaro. Só que o Lula está vivendo a fase do herói mártir, preso injustamente. O martírio é uma narrativa tão escatológica quanto a mitologia da conspiração. A existência do mártir é a prova definitiva que o mal está vencendo, o que exige também a ação imediata das forças do bem. Observe que só muda o lado, quem é o bem e quem é o mal.  E corre o risco desses dois lados entrarem em confronto sangrento.

Que caminhos a gente poderia tomar nesse contexto político?

A primeira coisa é que quando as pessoas estão dominadas pelo mito elas ficam insensíveis ao argumento racional. Elas serão mais sensibilizadas pela arte, porque é mais fácil comunicar com elas na hora que o cérebro delas está “distraído”, “desarmado”. Agora é importante que a gente utilize charges, que a gente traduza essa história do golpe em quadrinhos e tenha uma comunicação que chegue nas bases da sociedade e também nas classes médias.

Edição: Elis Almeida