A cultura pop e seu envolvimento direto com a comunidade LGBTQI+

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Mosaico Cultural

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Beijo entre Princesa Jujuba e Marceline, personagens do desenho infantil "Hora de Aventura" / Reprodução Cartoon Network
Eu não sou fofinha, eu quero destruir o patriarcado

A cultura pop vem tomando espaço na vida das pessoas ao longo dos anos. Seja o novo filme dos Vingadores, a última temporada de Game of Thrones ou o mais novo quadrinho lançado pela Emil Ferris, a cultura pop, muitas vezes reconhecida como cultura nerd ou cultura geek, é bastante popular no Brasil.

Com o avanço crescente da luta das minorias, a pauta da diversidade vem crescendo neste tipo de mídia, que atinge cada vez mais pessoas. A abordagem de personagens da comunidade LGBT é um dos exemplos. A Princesa Jujuba e a Marceline, que formam um casal lésbico em “Hora de Aventura”, ou mesmo o professor Dumbledore, o famoso mago da saga de Harry Potter, que foi confirmado como gay pela autora J. K. Rowling são personagens consistentes que ganharam espaço e fama entre os fãs. 

Mas é preciso ter menos ingenuidade na hora de encarar a representatividade fomentada por empresas. A cantora Camila Godoi, da banda feminista e LGBT, Clandestinas, explica que o capitalismo traz esse viés com algumas armadilhas: “às vezes dou palestras em empresas, sempre falo 'Olha, não se apropriem das nossas pautas de luta. Não transformem elas em commodities". Porque o capitalismo tem isso, ele se apropria de uma bandeira de luta, transforma aquilo commodity e, ao transformar em commodity, você diminui a força daquilo”.

Apesar do avanço, ainda são passos curtos para que a sociedade aceite pessoas LGBT, de fato, inseridas em sua cultura. A quadrinista lésbica Aline Zouvi comenta que, principalmente nos quadrinhos mainstream, a adesão de personagens fora do padrão nem sempre é bem recebida pelos fãs, que são moralmente construídos à imagem de homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. “Quando pensamos em atitudes que a Marvel e a DC tomaram, empresas que acabam trazendo mais discussão sobre representatividade, por causa de alguns personagens que tiveram seu gênero mudado, ou que tiveram sua homossexualidade revelada aos leitores. Os fãs de quadrinhos, principalmente os de mainstream, de super-heróis, boa parte deles ainda tem dificuldade para aceitar a mudança de alguns paradigmas”, comenta a quadrinista. 

A cantora Camila Godoi explica a representatividade dentro de meios midiáticos ainda é um avanço muito pequeno: “a gente se ilude que essa vilisibidade, porque está aparecendo numa série de TV, numa novela, num blockbuster. Isso vai melhorar minha vida? Não, isso talvez apenas crie brechas para que a minha pauta possa ser discutida. Então tem que ir e lá e colocar o dedo na ferida”.

A necessidade da representatividade dentro das telas é sabida, mas a pauta deve aparecer com naturalidade dentro das telas, livros e quadrinhos.

“Não é todo protagonista que precisa ser LGBT, mas, quando nos preocupamos em representar nossa realidade de forma orgânica, é óbvio que vai aparecer um personagem gay, negro, porque estamos rodeados de pessoas diferentes de nós no nosso cotidiano, então, se quisermos representá-lo de forma fiel, a visibilidade de pessoas LGBT será natural”, destaca Aline Zouvi.

Ela comenta ainda que, mesmo inserindo as pautas LGBT em diversos meios midiáticos, é necessário que a pessoa esteja aberta a receber o conteúdo: “eu não acredito que o discurso possa mudar o trabalho de alguém. Eu acho que ele pode influenciar sim, mas se uma pessoa não está preocupada em representar minorias sociais nos quadrinhos ou em qualquer outro produto, a chance dessa pessoa se influenciar por um discurso ou um movimento é baixa. Nosso foco tem que ser em continuar apoiando artistas que se importam com isso, que usam essa representatividade de algum jeito e também apoiando a mídia especializada, que ajuda a divulgar esses trabalhos”. 

Recentemente, um dos diretores de Vingadores Ultimate, anunciou que veremos um personagem assumidamente LGBT na Marvel muito em breve.

Edição: Katarine Flor