COMUNICAÇÃO

"Se algo distingue os meios progressistas é o testemunho do povo"

Jornalistas da Telesur falam sobre o papel dos meios de comunicação popular nas lutas sociais

Brasil de Fato | Recife (PE)

,
A Telesur (Televisão do Sul) é uma rede de televisão multi-estatal, fundada em 2005, com sede na Venezuela / Reprodução

Em visita ao nordeste, a jornalista Danay Galletti e o editor Arlejandro Cárdenas, ambos cubanos e correspondentes internacionais da Telesur em Brasília, conversaram com o Brasil de Fato PE sobre o trabalho que a emissora vem realizando no acompanhamento de ações desenvolvidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Nordeste e sobre o momento político atual na América Latina e a realidade cubana. Danay Galletti é correspondente internacional e esteve dois anos trabalhando na Venezuela. Alejandro Cárdenas, antes de atuar desde o Brasil, esteve como correspondente na Rússia e cobrindo conflitos na Síria. A Telesur (Televisão do Sul) é uma rede de televisão multi-estatal, fundada em 2005, com sede na Venezuela.



Brasil de Fato: Como tem sido a experiência de vocês na Telesur?

Danay Galleri: Telesur é muito conhecida em Cuba porque Cuba forma parte desde o início nesse projeto de dar visibilidade aos povos e de criar uma alternativa aos meios de comunicação hegemônicos. Então, nossa instituição, que é Prensa Latina, fez um convênio com Telesur e, paulatinamente, funciona com quatro correspondentes principais, que seriam Egito, Rússia, Brasil e China. O trabalho de Telesur é similar aos meios de comunicação cubanos, de televisão educativa que visibiliza ao povo e as lutas sociais. Em nosso caso, como equipe, levamos também um trabalho ainda maior com os movimentos sociais, nesse caso o MST e percorremos vários estados do país, que é onde verdadeiramente está a notícia para uma emissora como Telesur. Mais adiante do que pode passar em nível político, nós estamos melhor ao lado dos povos, das manifestações de quem luta por educação, quem luta por terra. É muito interessante, porque nós conhecíamos o MST desde Cuba, mas, agora, temos vivido ele, experimentado suas lutas, acampamentos, disciplina, coletividade, luta pelo bem comum e isso tem sido muito satisfatório. 

Alejandro Cárdenas: Telesur surgiu, fundamentalmente, para fazer um contraponto ao sistema da notícia que estava sendo difundido na América Latina. O fundamental é mostrar a verdadeira notícia que está acontecendo na América Latina e não o que aos meios gigantes convêm mostrar, porque os meios só mostram uma greve ou manifestação, uma ocupação de terra, a partir do que convêm aos meios e grandes empresas, não realmente o que necessitam as pessoas e povos da América Latina. Um projeto inicialmente conformado por Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina, Cuba e Brasil, com governos que, nesse momento, estavam dirigindo o tema da integração latinoamericana. A ideia foi criar esse canal. A essência de Telesur é transmitir a verdade do que está passando e as notícias que normalmente não se mostram nos canais como Globo e Record aqui no Brasil, que fazem reportagens pouco profundas. Nós, como cubanos, somos parte desse processo. Telesur mostra a luta do povo e não das elites, isso é o essencial da emissora.  



BdF: Estamos vivendo um momento político na América Latina muito diferente do cenário que tínhamos há 10 anos. Qual o papel de meios como Telesur nesse momento?

DG: Vocês [brasileiros] viveram aqui, nas eleições de outubro passado, as Fake News. Qualquer campanha nos meios hegemônicos pode alcançar que uma pessoa com um discurso machista, xenófobo, contra as mulheres e populações afrodescentes, mediante campanha que não contava a realidade. Esse é o papel dos grandes meios de comunicação, elaborar a realidade que consideram ser a melhor e mais conveniente para as elites de poder. Brasil de Fato, Telesur e outros meios populares de América Latina são como essa alternativa, uma luz de verdade para apresentar às pessoas uma verdade que está sendo esquecida pelos grandes meios de comunicação. Se algo distingue os meios progressistas é o testemunho do povo, essa característica não se pode perder, o microfone que se põe adiante do trabalhador, que tem que resistir e subsistir diariamente. Temos que ter cobertura no Congresso, mas também nos assentamentos e nas ruas. 

AC: Há vários meios de comunicação alternativos em outros países latinoamericanos. Em Cuba, temos Prensa Latina, que tem correspondentes em todos os países de latinoamérica e, diariamente geram notícias muito similares aos meios de esquerda, mostrando, fundamentalmente, o que está passando. Temos correspondentes da Prensa Latina no Brasil, por exemplo, que nutre com notícias diretamente do Brasil. Hoje, as redes sociais também são muito fundamentais. 



BdF: Que aspectos de Cuba vocês acreditam que são distorcidos pela mídia brasileira?

DG: Em Cuba, claro, existem problemas econômicos, políticos ou sociais, não estamos livres disso. Há décadas, Cuba vive com um bloqueio econômico financeiro e comercial e isso impossibilitou de ser o país com maior desenvolvimento econômico. De Cuba, posso dizer que é muito boa a educação e também a saúde. Não sou eu que digo, são indicadores mundiais. A saúde que se exporta em solidariedade. Aqui, no Brasil, houve quase 10 mil cubanos. Mas, também, se vive problemas econômicos fundamentalmente derivados do bloqueio, que também está vivendo Venezuela. Cuba teve que navegar em uma solidão na América Latina, quando havia várias ditaduras de direita, e saiu adiante como pôde. Cuba é uma pequena ilha no meio do Caribe, enfrentando a maior potência mundial [Estados Unidos]. Cuba foi uma das que impulsionou a integração latinoamericana quando começaram a vencer governos de esquerda. Cuba tem, ao meu ver, um papel medular na região. 

AC: Cuba tenta, de alguma maneira, equilibrar a diferença social. Uma das expressões comuns é que em Cuba há um “teto” que não podes enriquecer. Bem, para que não haja os tão pobres, não podem haver os tão ricos. De uma maneira, as condições estão criadas para que haja mais equilíbrio em sociedade. Cuba é um país diferente de qualquer país do mundo. Um país de terceiro mundo, se nenhum recurso além da população preparada em alto nível e a natureza do litoral. Os recursos do turismo criam a base para que essa população possa se preparar. Mas, Cuba te garante a vida. Pode não ser a vida sonhada, mas a fundamental para o ser humano. Garante o que muito povo do mundo faz manifestações e greves para ter. Cuba te dá o básico, o que é enorme. Por exemplo, um transporte de coração é caro em qualquer parte do mundo, mas em Cuba te fazem grátis. Em Cuba ninguém morre de fome.



BdF: Como tem sido a visita de vocês ao Nordeste do Brasil? Que reportagens vocês têm desenvolvido aqui?

DG: Elaboramos a visita com o MST para divulgar o que acontece nessa região que foi sempre a mais esquecida pelos governantes mas que, há uns 15 anos, renasceu e passou a ter outras oportunidades. Nós estivemos no Ceará, cobrindo a 1ª Copa Estadual da Reforma Agrária, em Fortaleza. Depois, estivemos em acampamentos ameaçados de expulsão, mas que estão fazendo produção agroecológica. Mostramos como o MST faz enfrentamento a essa liberação massiva de agrotóxicos com alternativas agroecológicas mais saudáveis. Vencendo, também, a criminalização ameaçada pelo governo Bolsonaro e tentando permanecer nos assentamentos onde já têm a vida criada. Nossa estratégia no Nordeste é dar visibilidade a esse povo e trabalho social feito pelo MST.

 Também estivemos na missa que se celebrou no Rio Grande do Norte e no Armazém do Campo, que já é o quinto do país, que se converteu também em um espaço para debate ideológico, para reunião, aglutinar forças contra o que está significando a imposição da Reforma da Previdência. 

AC: O povo nordestino tem uma qualidade humana, humildade de espírito. São muito similares aos cubanos. Temos esta relação mais humana, mais cordial e creio que o tema da pauta e do trabalho é seguir o que já vem fazendo Telesur e nossa contribuição às equipes de reportagens que já levam tempos trabalhando aqui. Como cubano, como Telesur, como latinoamericanos, queremos visibilizar esse processo do MST, PT, todos que defendem o tema de buscar uma igualdade no país. Essa tem sido nossa visão. Além de uma experiência profissional, é uma experiência humana.

Edição: Monyse Ravenna