CONJUNTURA

Artigo | Estamos diante de uma guinada à direita no Continente e no Brasil?

"É mais fácil falar de 'ondas' do que estudar com alguma seriedade períodos históricos de nós mesmos"

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

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"Embora tenhamos novas práticas mais à direita, não se trata necessariamente de uma novidade" / Reprodução

A pergunta do título é chocante e a constatação mais ainda. Mas, há muita desinformação e desconhecimento históricos. É mais fácil falar de “ondas” do que estudar com alguma seriedade períodos históricos de nós mesmos, ou seja, do Brasil e da América Latina.

Antes de mais nada é preciso compreender que embora tenhamos novas práticas mais à direita, não se trata necessariamente de uma “novidade”. Muda de escala, é verdade, mas não de matrizes. Veja o caso dos Chicago Boys, tinham origem no coração da besta, na ala ultra-liberal do departamento de economia da Universidade de Chicago, justo onde dava aula Milton Friedman. Os alunos deste sociopata se tornaram os asseclas de Augusto Pinochet, quando, através de uma articulação interna e externa dos EUA, deram um golpe de Estado e derrubaram o governo constitucional do presidente Salvador Allende, da Unidade Popular, no Chile em 11 de setembro de 1973. Não é para antecipar que as direitas políticas e ideológicas transformem todo o Continente, mas na dinâmica de nossos países, somos bastante influenciados mutuamente assim como pelas projeções de poder que vêm dos Estados Unidos.

No caso brasileiro, a novidade é a direita assumida. Particularmente, acompanho a política nacional desde 1982 e até 2014, só havia visto direita assumida na rua em documentário ou em tribos de subcultura urbana. Mas, em relação aos períodos anteriores, embora pouco visíveis, o eleitorado não varia tanto. Os eleitores de direita sempre estiveram presentes, o que não havia era político profissional, oligarca repaginado ou arrivista de rede social fazendo do rótulo “sou de direita” uma bandeira de atuação. Entende-se que houve um certo cansaço com as práticas da democracia oligárquica e com isso, mais a Operação Lava Jato e a nova linguagem da “nova-velha” direita, os ultra-liberais, conservadores e saudosistas da ditadura mudaram o jogo ideológico no país. Temos de levar em conta a difusão política pela internet e a “produtividade” dos jovens sociopatas que foram fazer cursinhos de lavagem cerebral na Rede Atlas (Atlas Network) e voltaram ao país formando “lideranças” que resultaram em parte do que hoje vemos nas redes sociais e por alguns momentos, nas redes.

Também é importante ressaltar o ano de 2014 como fundante destas práticas e não a rebelião popular de 2013, justo quando surgiu a difusão do conceito de “precariado”. Há uma afirmação recorrente que o ovo da serpente começou a ser chocado em 2013 e entendo a afirmação como absurda. 2013 foi uma luta mais à esquerda do que o pacto de classes e o governo de coalizão com o PT na posição de partido de governo. A direita assumida se massifica no país no segundo turno das eleições presidenciais no ano seguinte, aliás eleições plebiscitárias no modelo econômico, e depois chegam às ruas numa excelente articulação dos “movimentos” como MBL e Vem Prá Rua com a ação dos conglomerados de mídia como porta vozes oficiosos da Lava-Jato. Mesclar os temas não é correto nem historicamente e menos ainda conceitualmente.

Mas, como elemento do discurso da campanha já com Aécio Neves e constando no programa de governo do PSDB em 2014, a política externa e as relações exteriores do Brasil seriam alvo de mudança quando a reação assumida chegasse ao poder. Já estava afetando após o golpe de 2016 e com a eleição de Bolsonaro mais ainda. Já vem afetando o Itamaraty desde a posse do novo chanceler. A “nova ideologia”, se falarmos especificamente dos seguidores de Olavo de Carvalho e sua influência no governo Jair Bolsonaro, leva o país a assumir papéis absurdos, ser ridicularizado em nível internacional, nos aproxima de governos abjetos – como o do primeiro-ministro Viktor Orbán, na Hungria; ou na “Nova Itália” do vice-premiê Matteo Salvini – e coloca o Ministério das Relações Exteriores (MRE) diante de uma situação esdrúxula. Estamos com um chanceler aquém, muito aquém, das excelentes condições e formações de nossos diplomatas do MRE. Na medida em que o filho do presidente – deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) oficia de “chanceler oficioso”, a situação se torna ainda mais complicada. Some-se a isso o fato do presidente falar demais sobre temas em países vizinhos, como a obsessão pela Venezuela ou a intromissão na política interna da Argentina e estamos diante de um gigantesco problema.

Este problema, como já dito acima, começa na demonização do período anterior, naquilo que houve de quase irrepreensível. A política externa brasileira nos governos de Lula e Dilma não se aproximou de governos por finalidade “ideológica”, como se afirma no senso comum e sim por questões de orientação pela inserção digna, autônoma e soberana do país no Sistema Internacional. O que ocorre é que o atual presidente afirma uma condição subordinada, colonizada eu diria, e como tal faz o jogo da comparação.

Trata-se de atual política colonizada pois voluntariamente o desgoverno Bolsonaro adula o Império, nega as relações Sul-Sul de quase qualquer ordem, revive um transe de Guerra Fria e termina fortalecendo o que há de mais horripilante na América Latina. Por exemplo, o tema da projeção de poder e integração latino-americana assim como a presença brasileira na África, em especial na costa do Atlântico e no mundo lusófono, além da África do Sul estão como muito distantes. A política externa do atual presidente é um retrocesso subordinado e uma farsa, pela ausência de algo que vá além de factoides da “guerra cultural”, “cruzada anti-globalista” ou qualquer outro dos delírios de Olavo de Carvalho e seus seguidores. A situação é tão absurda que se não fosse pela intervenção do vice-presidente, general de quatro estrelas Hamilton Mourão, o Brasil cederia território para uma “operação de ajuda humanitária” feita pelas tropas dos EUA sob governo de Trump!

Infelizmente, a agenda da política externa e seus debates são feitos por quem nada entende e joga para a torcida nas redes sociais. Vive-se um paradoxo: quanto mais tempo se passa em redes sociais, sem estudo de rigor e profundidade, mais as pessoas opinam sobre quase tudo sem entender de quase nada. Daí essa inclinação para polarizar, reproduzindo um pouco do comportamento das correntes políticas dos Estados Unidos e a difusão de conceitos mal traduzidos, referências mal digeridas e uma polissemia sem fim.

Cabe observar o caso do desgoverno Bolsonaro com nossa vecina y hermana. O tema da Argentina deveria ter uma observação de maior profundidade. O Brasil é o maior parceiro comercial de nosso vizinho e a Argentina é a terceira maior parceira comercial nossa. Ou seja, estamos muito implicados mutuamente e isso deveria ser uma orientação básica para compreendermo-nos e, no que diz respeito das autoridades, evitar um desgaste desse nível. Tenho certeza de que se o peronismo um pouco mais “progressista” (e menos patotero), ou ao menos a frente de oposição, volta a ganhar na Argentina, este futuro governo verá com olhos muito desconfiados a relação com o Brasil. Indo mais à esquerda, a base política e social convocada para repudiar a presença de Bolsonaro em reunião com o famigerado Maurício Macri é enorme. Ambos se afundam juntos em seu projeto de destruir a viabilidade produtiva de nossos países.

Para piorar, podemos observar um padrão. Ainda que com uma distância um pouco maior, a relação do Brasil com a América Latina deveria seguir os mesmos critérios defendidos acima na relação com a Argentina. Infelizmente, a cada guinada à direita, nós como latino-americanos e brasileiros, ficamos mais colonizados e mais distantes de pelear por uma segunda e derradeira independência. O mesmo ocorre em cada um dos países de nosso Continente. O ciclo das ditaduras militares pode ter se esgotado e nem é de interesse do imperialismo que isso volte. O Pentágono e o Comando Sul defendem a securitização interna, a militarização da estúpida “guerra contra as drogas” e a ingerência direta de suas agências no aparelho de Estado de nossos países: como se verificou no Plano Colômbia, antes nos Bloques de Búsqueda (contra os carteis de Medellín e Cáli, nesta ordem) e mais recentemente com as operações de Lawfare (como na Operação Lava-Jato), o uso da lei como arma de guerra, através de relações horizontais na cooperação internacional aplicada no combate ao crime de colarinho branco. Não é só a política externa do governo Bolsonaro que se explica pelo viés colonizado, mas a própria existência desse. Às avessas chegamos em ponto semelhante. É preciso inverter essa lógica, colocando o pensamento e a posição política decolonial, anti-colonial e descolonizadora como um dos eixos centrais no acionar da política brasileira e latino-americana.

* Bruno Lima Rocha ([email protected] / estrategiaeanaliseblog.com) é pós-doutorando em economia política, doutor em ciência política e professor de relações internacionais e jornalismo e membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https://capetacapitaleestado.wordpress.com/).

Edição: Marcelo Ferreira