Agricultores cultivam e vendem orgânicos a preço popular no ABC paulista

Imagem de perfil do Podcast
Momento Agroecológico

Ouça o áudio:

Nas hortas comunitárias de São Bernardo do Campo trabalhador tem incremento de renda e ajuda a recuperar a biodiversidade do local / Fotos: Sarah Fernandes
A coisa mais gostosa da plantação é as pessoas chegarem, levarem e agradecerem

O apito da fábrica, anunciando a troca de turno dos trabalhadores, é um som presente no imaginário de quem vive nas cidades do ABC, na região metropolitana de São Paulo. O que nem todo mundo sabe é que no bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, a sirene muitas vezes é substituída pelo barulho da enxada na terra.

No local, que é totalmente urbano e de caráter industrial, também é possível comprar hortaliças orgânicas direto do produtor. E o melhor: por um preço mais baixo que no mercado ou nas feiras convencionais.

O dia do metalúrgico aposentado Geraldo de Lima, de 84 anos, começa cedo. Antes das 7h ele já está na sua roça, pronto para arar a terra, plantar, colher e regar as hortaliças que cultiva. A rotina é a mesma há 30 anos, desde que recebeu um lote no terreno que até então abrigava apenas as torres de transmissão de energia. “Tem couve, rúcula, quiabo, coentro, cará, chuchu, acerola, tem um pouquinho de tudo. As flores também ajudam. As borboletas fazem a festa delas aqui”, diz. “Tem uns que só pensam em vender. Aqui a gente vê diferente: é tudo misto, com um pouco de cada coisa, não visando lucro, mas apenas o benefício para saúde.”

A promoção de saúde e bem-estar para os agricultores e para as famílias do bairro é um dos pilares do projeto que começou em 1984. A iniciativa é de um grupo de ex-alunos da Universidade Metodista, interessados em implantar projetos sociais na região. Daí surgiu a Associação para o Desenvolvimento Sustentado (AGDS), que administra as hortas.

Ao todo, a associação já ajudou a implantar 100 hortas comunitárias no estado de São Paulo. Dez delas são de administração direta da entidade e juntas reúnem 70 famílias. 

O convênio com a empresa de energia, a terraplanagem e a infraestrutura para irrigação estão prontas para os agricultores, que são selecionados entre os interessados em integrar o projeto. Os gastos são apenas com sementes e água.

Assim, fica mais fácil oferecer alimentos 100% orgânicos ao preço dos convencionais, como explica o presidente da AGDS, Nelson Pedroso. “A propriedade é cedida com gratuidade e o produto está perto das pessoas, não tem custo logístico dos transportes, então não tem sentido fazer o repasse desses itens que encarecerem o produto. E quem é o principal beneficiário? A comunidade local.” Nas hortas, os preços são tabelados e variam de acordo com o diâmetro dos maços. Em média, um maço de couve ou alface orgânico custa R$ 3.

Entre os consumidores que aprovam o preço e a qualidade está o metalúrgico Diego do Nascimento Rocha. " Eu gosto porque as verduras e hortaliças plantadas aqui são orgânicas. A horta ocupa um terreno que antes era só mato, além de ser um espaço próximo a minha casa e eu dou preferência para os comércios próximos da minha casa". Diego costuma ir à horta acompanhado do filho Pedro, de 1 ano e 8 meses. “É para ele acostumar a ver os legumes e as verduras, o que hoje em dia não se tem tanto costume de fazer”.

“A insegurança alimentar está presente em todas as classes, tanto na questão da quantidade como da qualidade, quer dizer, as pessoas comem muito mal. Como nós trabalhamos essa informação junto ao público? Fazendo com que a pessoa tenha o alimento a disposição a todo o momento, porque o alimento está aqui e não depende de crises que possam surgir na área do transporte, como ocorreu no ano passado”, avalia Pedroso.  

Além da alimentação, ele destaca que as hortas somam diversos outros benefícios para a cidade. “É um trabalho de paisagismo. É todo um trabalho estético que a gente promove para que fique um espaço bonito. Tem também uma aproximação de aves e borboletas. Nesses quase 35 anos, aumentou a presença de aves que já não existiam mais aqui. Há um resgate da biodiversidade muito interessante.”

Apesar da organização e do engajamento da comunidade, o projeto enfrenta alguns desafios. Um deles é a demora da empresa de energia, a Enel, em liberar novos terrenos. Outra dificuldade é a impossibilidade de comercializar os produtos orgânicos com a prefeitura, para servi-los na merenda das escolas da cidade, já que, pela legislação, é necessário que o produtor tenha na agricultura sua principal fonte de renda, o que não necessariamente ocorre nas hortas comunitárias do Rudge Ramos.

Desafios a parte, o metalúrgico aposentado Dorindo Turbiane, que hoje é agricultor, não abre mão de plantar orgânicos. Quando adolescente ele trabalhou como agricultor em Catanduva, no interior de São Paulo. “Lá no interior eu trabalhava na roça e lá eu tinha que passar veneno. Eu tenho muitos parentes que morreram envenenados", conta. Mas hoje, aos 65 anos e em contato direto com o consumidor, ele percebeu qual é a melhor parte do seu trabalho: "a coisa mais gostosa da plantação é as pessoas chegarem, levarem as coisas que plantamos e agradecerem dizendo aqui tudo é gostoso.”

Edição: Daniela Stefano