MERCADO PETROLEIRO

Apoio da Opep fortalece Venezuela frente às investidas dos EUA

País preside organização internacional, em que 13 dos 14 membros reconhecem o governo Maduro como legítimo

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

,

Ouça o áudio:

Ministro do Petróleo venezuelano, o major general Manuel Quevedo, é o secretário-geral da Opep / Foto: PDVSA

A Venezuela preside, desde janeiro, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), responsável por 40% da produção mundial e 60% das exportações petroleira. O mandato tem duração de um ano e é ocupado pelo ministro do Petróleo venezuelano e presidente da empresa estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA), Manuel Quevedo, major general da Guarda Nacional Bolivariana.

Na Opep, 13 dos 14 países membros reconhecem Nicolás Muduro como o presidente legítimo da Venezuela. Apenas o Equador reconhece o deputado opositor Juan Guaidó como presidente interino.

"O fato de a Venezuela hoje presidir a Opep não é algo que deva ser menosprezado. Uma das razões é que essas nações continuam reconhecendo Nicolás Maduro como presidente da Venezuela", aponta o economista espanhol Alfredo Serrano, que é doutor em economia pela Universidade Autônoma de Barcelona.

"Também não houve nenhuma tentativa dessa organização em reconhecer alguém que foi autoproclamado presidente interino. Isso, no atual contexto geopolítico, não é um dado menor. Porque, às vezes, cometemos o erro de focar apenas no que estão dizendo os Estados Unidos, e o mundo vai além", afirma o economista.

Entre os países-membros da Opep está a Arábia Saudita, maior produtora e exportadora de petróleo do mundo e aliada dos Estados Unidos. “A Arábia Saudita abriga a maior base militar estadunidense no exterior”, ressalta o advogado e deputado Felix Roque, professor de pós-graduação da Universidade Nacional Bolivariana. E apesar de aliada dos EUA, se manteve isenta em relação aos temas internos da Venezuela.

No entanto, não há expectativa de que esses países possam apoiar o governo venezuelano de forma incisiva, segundo Roque, mas a isenção da maioria na Opep favorece o presidente Maduro.

Maioria de países da Opep reconhece Maduro como presidente | Foto: AVN

“Presidir uma organização importante como é a Opep também significa o reconhecimento do presidente Nicolás Maduro. Isso é consequência da atividade política que tem mantido a Venezuela no exterior desde a ascensão do ex-presidente Hugo Chávez”, diz Serrano.

Para o economista, a Venezuela ampliará seu papel e influência dentro dessa organização. “A Venezuela continua tendo um papel protagonista dentro da Opep, pois tem voz e voto. Além disso, assume funções e atribuições concretas na hora de planejar as questões específicas em relação ao preço do petróleo, níveis de produção e distribuição de outras tarefas. Esses são espaços que o mundo disputa no setor econômico”.

Serrano fala ainda que o lugar que a Venezuela ocupa nesse setor está entre os motivos para os Estados Unidos confrontarem o governo Maduro. “Esse papel importante que a Venezuela joga dentro da Opep lhe é atribuído devido aos níveis de suas reservas de petróleo. Essa é uma das razões da política dos EUA contra a Venezuela, pois tem muito a ver com o seu papel na Opep”, explica.

Entre os grandes desafios da Opep hoje está o equilíbrio e a estabilidade do preço do barril de petróleo. Entre os membros da organização, os mais afetados com a queda do preço petróleo são a Venezuela e o Irã, devido à dependência que suas economias têm da renda petroleira.

O aumento da tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela gera impacto no mercado internacional de petróleo, segundo Felix Roque. “Todos os grandes conflitos que afetaram os países produtores de petróleo tiveram fortes consequência no preço do barril. Além disso, existe um temor por parte dos investidores internacionais do setor petroleiro de que os Estados Unidos queiram usar o petróleo venezuelano para inundar o mercado e reduzir drasticamente o valor desse produto, em caso de um conflito que resultasse em derrota do presidente Nicolás Maduro”, afirma o advogado e professor de direito.

As sanções econômicas dos Estados Unidos já afetam o mercado venezuelano de petróleo, mas também o internacional. Nesse contexto, executivos da empresa estadunidense Chevron, que opera na Venezuela, solicitaram ao governo de Donald Trump flexibilizar as sanções que afetam seus negócios nesse país sul-americano. A informação foi confirmada por diretores da empresa à imprensa venezuelana.

Atualmente, a maior parte do petróleo que os Estados Unidos deixaram de comprar da Venezuela, depois das últimas sanções, em março deste ano, é enviada a países como a Índia e a China, que já ficavam com 40% da produção venezuelana, de acordo com dados oficiais.

No entanto, em abril, os Estados Unidos voltaram a comprar da Venezuela. Nesse momento são exportados 136 mil barris de petróleo diários. O embargo total durou apenas duas semanas, entre 11 e 19 de março, apesar de ter sido anunciado em janeiro.

Contexto histórico

A Organização de Países Exportadores de Petróleo foi criada em 1960 como um contrapeso à Agência Internacional de Energia, que fixava o nível de produção de petróleo acima do que os países produtores podiam suportar, de acordo com Alfredo Serrano.

Entre 2002 e 2004, a Venezuela exerceu a presidência da Opep, tendo o político e diplomata venezuelano Alí Rodriguez, falecido ano passado, como secretário geral da organização. O barril do petróleo passou de 41 dólares, em 1999, para 148 dólares em 2004.

Edição: João Paulo Soares