Opinião

Artigo | "8 ou 80" da política bolsonarista

Existem aqueles que vivem para o consumo e existem os que vivem segundo outros valores

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"O único caminho a ser trilhado é o da educação e não o da política armamentista" / Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No cenário político atual vivemos em um constante movimento pendular em que se busca já não mais o equilíbrio ou, no pensamento aristotélico, a justa medida, mas vivenciamos os extremos. No Brasil, somos atordoados de modo incessante pelos vários meios de comunicação que pintam nas múltiplas telas dos diversos aparelhos tecnológicos ou nos clássicos jornais de papeis o terreno bélico da nação brasileira.

Na fresca memória de muitos brasileiros ainda há cheiro de tinta fresca do jargão popular “8 ou 80”, utilizado pelas charges para se referir a barbárie ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, onde um cidadão, trabalhador, foi alvejado com 80 tiros por militares do Exército Brasileiro ao levar a família para um chá de bebê. Seria esse fato apenas mais uma morte em meio a tantas outras? Ou apenas um equívoco cometido pelos “guardiões da paz e do bem”? Essas e muitas outras afirmações se fazem escudos para justificar a morte de muitos inocentes. Contudo, podemos iluminar as raízes desses “equívocos”, cometidos diversas vezes, para entender que não é apenas mais um erro e sim um “novo código moral” com base na violência que vem sendo alimentado pelos nossos governantes. Olhando para esse fato, referido com o jargão popular que traz consigo um sentido de extremidades, podemos refletir tanto no âmbito político, educacional, religioso como familiar na busca de iluminar tais “erros”.

Na atual conjuntura há também apenas dois lados (8 ou 80): ou você é direita ou esquerda, ou você é capitalista ou comunista, ou você é rosa ou azul e idem… Não há o meio termo, mas apenas o oposto extremista.

O problema é que num país diverso como o Brasil, entre o 8 e o 80, o ser e o não ser, termo generalizado, existe o agricultor (a), o indígena (a), o comerciante (a), o pai e a mãe de família e as diversas peças do mosaico que formam esse país. Não há sentido em destruirmos essa riqueza por meio da perversão da linguagem (discursos) nos dias atuais, onde termos perdem o seu real sentido, discursos são camuflados e holocaustos vistos como vitória para a história. Assim, diante de tais manobras, o único caminho a ser trilhado é o da educação e não o da política armamentista. Se quisermos uma sociedade mais solidária, tolerante e pacifica diante do diferente, é necessário estimularmos aquilo que acredito que cada ser humano traz consigo, que são as virtudes. Educarmos, por exemplo, para que todas as crianças, jovens e adultos percebam que nem todos vivem nas mesmas condições. Existem aqueles que vivem para o consumo, mas existem também aqueles que vivem segundo outros valores.

Com isso, evitaremos os “equívocos”, as atrocidades e a relação de violência que vem sendo alimentada pelo Estado e, sim, ao contrário, criaremos um terreno fértil de mais liberdade e aceitação do diferente.

Vitor Vinicios da Silva é frade franciscano e coordenador do núcleo Educafro de Betim.

Edição: Elis Almeida