Resistência

Ancestralidade e cuidado são temas do 1º Encontro Nacional de Povos de Terreiro

Mais de 400 lideranças de axé discutem a importância de entender a saúde como território de disputa política

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Encontro Ègbé, acontece entre os dias 13 e 16 de junho, em Belo Horizonte (MG) / Foto: Rafael Stedile

A ancestralidade dos povos de terreiro como estratégia de resistência e luta política para pensar as relações entre o eu e o outro. Esse é um dos objetivos do – Encontro Ègbé –  que acontece desde quinta-feira (13) e termina neste domingo (16), em Belo Horizonte (MG). Os grupos religiosos se reúnem pela primeira vez a fim de construir ações coletivas para os desafios em seus territórios no próximo período.

Com o tema “Os Territórios Tradicionais e os ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, a mesa redonda da noite de sexta-feira (14) iniciou o debate sobre a relação entre os quintais e terreiros religiosos e a luta por territórios livres de agrotóxico e pela alimentação saudável, que se desdobrou em grupos de trabalho ao longo de todo o sábado (15).

Além da manutenção dos terreiros, e do direito ao culto religioso, as lideranças reunidas reafirmam o compromisso de lutar pela descolonização dos corpos através da saúde popular e dos cuidados tradicionais.

Segundo a médica Ângela Gomes, os povos de terreiro não separam o alimento que sacia o corpo do alimento que promove a cura, pois esta concepção vem de um entendimento cartesiano da vida, que limita e separa os saberes conforme categorias de utilidade. Para estes povos, que consideram o alimento de remédio é importante entender a luta contra o uso de agrotóxicos, pelo respeito à natureza e pela terra como uma bandeira de emancipação.

Esses grupos produzem alimentos com os princípios da agroecologia - prática que respeita o solo e a natureza, com o cultivo a partir do cuidado e cobertura do solo, simulando o ecossistema das florestas - as religiões de matriz africana entendem que a terra, a biodiversidade, a água, e o minério não são mercadoria.

Gomes fala da necessidade de questionar e impedir a apropriação de conhecimentos milenares sobre a natureza por parte capitalismo, e da construção de políticas públicas que considerem a cultura tradicional de terreiro. “A gente tem o direito de coletar nossas plantas e não podemos ser presos por isso. Quando falo de biodemocratização, a gente quer que esse conhecimento se reverta como direito do patrimônio que o Candomblé tem, e a Umbanda também”, comenta.

Para os povos de axé, a “biodemocratização” refere-se não só o uso e preservação da natureza, mas as práticas ancestrais vindas da África que são uma forma de defesa do meio ambiente e autodefesa, pois não há separação entre o ser humano e o espaço que o rodeia. Eles enfatizam que biodemocratização tem a ver também com o respeito e à tolerância religiosa.  

Mãe Kelma de Iemanjá, coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde, reforçou a importância da memória ancestral para afirmar que houve um longo processo de aprendizado e resistência para que hoje a luta dos povos de terreiro pudesse avançar. Segundo ela, é dever das religiões de matriz africana se ocupar com o todo da vida, pois é no coletivo que se cura.

''Quando a gente defende o meio ambiente, quando a gente cuida da terra, quando quer uma alimentação de qualidade, a gente está falando de saúde e saúde é todo esse complexo.  No terreiro a gente vai cuidar das pessoas, a partir do manuseio que a gente faz das plantas, das árvores, das folhas."

Mãe Kelma ressalta que é preciso acabar com a desinformação, que traz estereótipos e preconceito.Um exemplo é o conhecimento sobre as práticas curativas que servem para trazer alívio aos males físicos e espirituais para as pessoas da comunidades que os terreiros estão inseridos.  

Para ela, este trabalho é circular e tem seu papel na resistência política. “Quando a gente luta contra a Reforma da Previdência, a gente está querendo saúde, qualidade de vida, um bom envelhecimento das pessoas, então tudo isso para gente é saúde”, explica Kelma, que faz parte do Núcleo do Povo de Terreiro do Partido dos Trabalhadores do Ceará. 

A mãe de santo explica que saúde e luta caminham juntas, seja na defesa dos territórios, da alimentação saudável, e de um novo projeto de Brasil, e por isso são tão centrais para a discussão do Encontro “Ègbé – eu e o outro”. “Luta pra gente, ser resistência, é uma maneira de você gerar uma nova existência, uma existência que não seja essa existência do modelo civilizatório do capitalismo, porque ele não nos contempla, nunca nos contemplou”, afirma.

 

Edição: Anelize Moreira