Esporte

Crônica | A Copa do Mundo feminina a as casas abertas ao futebol

Aprendi a amar o futebol por todas as possibilidades improváveis e inimagináveis que o jogo carrega

Brasil de Fato | Fortaleza (CE)

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A seleção já disputou dois jogos na Copa do Mundo da França / Lucas Figueiredo/CBF

O texto que se segue é uma tentativa, mais lírica que técnica de pensar a Copa Mundial de Futebol Feminino. E antes de propriamente começar, gostaria de fazer duas advertências, a primeira delas é que sou atleticana, e como toda boa atleticana aprendi a amar futebol por todas as possibilidades improváveis e inimagináveis que o jogo carrega. Nós, torcedores do Galo, sabemos que até os últimos segundos de uma partida, nada está definido, a gente efetivamente vive o "eu acredito", logo esse texto é quase uma homenagem ao futebol e as suas potencialidades. A segunda delas é que pauto minha vida numa teoria de mundo que me faz ser quem sou em todos os campos de ação dos meus dias: sou marxista. E como marxista, meus posicionamentos longe de serem neutros, são políticos e atrelados à luta da classe trabalhadora. 

Bem, dito isso, já se sabe logo de partida que meu texto não busca agradar nem a ala masculina de direita que só acredita que mulher gosta mesmo de futebol se ela citar de cor e salteado a escalação da seleção brasileira na última partida da Copa de 1970, nem tão pouco a esquerda mecanicista que vê no futebol o culpado de todas as mazelas sociais, ponto alienante e responsável pelo não fortalecimento da consciência de classe. Nem sei a escalação da dita partida, nem limito ao futebol o poder exercido pelo capital como forma de manipular e fetichizar a humanidade. Nada fica imune a este sistema devorador da potência humana. Nada.

 

Agora vamos à Copa Feminina que já começou estraçalhando minha garganta e minhas unhas. Pela primeira vez, sendo esta a oitava edição do campeonato, que teve início no ano de 1991, na China, é que estão sendo transmitidas as partidas no Brasil via rede Globo de televisão, privilégio esse que só o torneio masculino gozava até agora. Não ocorreu até o momento, que já disputamos duas partidas do torneio, a mesma comoção ou parada na vida social que se dá, quando da Copa masculina, mas ouso dizer é muito mais bonito e humanizado ver esses jogos com a mulherada em campo. E isso não só pelas gingadas de bola que ainda focam nos dribles e toques, coisa que faz algum tempo o hegemônico futebol masculino vem perdendo, é pela torcida também.     

Ver o jogo das meninas é estar em um ambiente em que os marginalizados por essa sociedade escrota tem voz, gritam, emocionam, chamam palavrão, mas focam nos erros de passes das jogadoras e não na mãe da juíza, que, diga-se de passagem, na última partida entre Brasil e Austrália, tinha lado bem definido e não era o nosso. É partilhar alegria de um passe de bola bonito, sem ter de ouvir a explicação técnica como se só especialistas pudessem ver beleza numa roubada de bola que passa por debaixo da perna da adversária (muito obrigada por aquela jogada Debinha!) e finaliza num belo gol. Qualquer pessoa é capaz de se emocionar com beleza, não precisa necessariamente saber a técnica que foi capaz de criá-la, se ela não conseguir se fazer entender pelo conteúdo que quer transmitir ela é vazia. Ou dito de outra forma, qualquer pessoa é capaz de se emocionar com um belo gol, sem ter de entender se foi o atacante ou o lateral esquerdo quem o fez. 

Assistir às partidas do mundial de futebol feminino é ter ao lado gay, lésbica, mulher cis, trans, criança, cachorro e gato, e todo mundo gritar junto e xingar o passe ruim, mas ouvir lá do fundo: “ei, reprodução machista hein”, quando por deslize e força da repetição alguém faz um comentário escroto, é também se desculpar, e agradecer por ter sido corrigida. Ver as partidas das brasileiras além de divertimento e catarse possibilita se acrescentar enquanto gente. E não estou romantizando nada aqui, acredite. É só que os grupos aos quais tenho me juntado para ver os jogos me ajudam exatamente nisso, me enxergar melhor dentro do todo social excludente e reparar melhor na outra mulher do lado que grita gol comigo. 

Longe de acreditar que tais partidas irão mudar a forma do mundo enxergar nossa condição feminina de estar nesse mundo patriarcal, excludente e machista, visto que isso só terá possibilidades de se efetivar quando este sistema ruir, ver esses jogos é possibilidade material concreta de fazer pensar sobre a estrutura que nos limita, diminui e desrespeita, como por exemplo, fez Marta na nossa última partida, mostrando o símbolo de igualdade de gênero na sua chuteira, dando visibilidade a desigualdade de tratamento dos patrocinadores destinado a jogadoras femininas e jogadores masculinos.  É ainda, a concreção da partilha da alegria, um hiato cotidiano nesse mundo desumano, um estilhaço de leveza. 

Eduardo Galeano tem um livro intitulado “fechado por motivo de futebol” em que explica que essa era a frase que ele pregava na porta de sua casa quando da Copa do Mundo de futebol masculino. Eu ouso mudar a frase do poeta e gostaria de pregar aqui na porta de minha casa: “aberta por motivo de futebol” e juntar aqui todas as amigas para coletivamente a gente gritar, e rir, e chorar, e aprender, e nos 90 minutos de uma partida carregar a potência de gritar gol e fazer o mundo caber aqui nas paredes de casa onde o sistema patriarcal não pudesse chegar. 

Pena isso ser tão longínquo, não só porque não tenho TV em casa, mas principalmente porque o momento em que vivemos atualmente em nosso país é extremamente desumano e reacionário, sem muito espaço para vivenciar humanidades. Restando-nos, logo, ter nas partidas do mundial o que ela pode nos proporcionar: um respiro de 90 minutos desse mundo cão. 

Assim, que as meninas sigam jogando de forma tão bonita, que santa Sissi milagrosa das bolas difíceis abençoe as pernas de Marta e as cabeçadas de Cristiane. Que Debinha e Ludmila apareçam ainda mais na próxima partida que será contra a Itália e que a gente enfrente a situação atual do país com coragem, mobilização e consciência de classe, entendendo o verdadeiro foco de ação: a luta de classes. Avante! 

*É professora em Brejo Santo (CE)

Edição: Monyse Ravena