VENEZUELA

Verba de ajuda humanitária financiou vida luxuosa de assessores de Guaidó, diz jornal

OEA pede investigação de políticos nomeados pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela

Caracas (Venezuela)

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Assessores de Juan Guaidó na Colômbia estão envolvidos em escândalo de corrupção / Twitter @jguaido

Um escândalo de corrupção atinge a equipe de Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, na Colômbia. Entre eles estão dois assessores encarregados de administrar os recursos destinados a ajuda humanitária e o pagamento de hotéis de ex-militares desertores da Força Armada Nacional Bolivariana. Trata-se de Kevin Rojas e Rossana Barrera, sendo esta última cunhada do deputado venezuelano Sergio Vergara, braço direito do autoproclamado presidente. No entanto, a suspeita recai também sobre o “embaixador” de Guaidó da Colômbia, Calderón Berti, e sobre os deputados venezuelanos radicados na Colômbia, Gabriela Arellano, do partido de Guaidó, Voluntad Popular, e Juan Manuel Olivares, do partido Primero Justicia.

O escândalo foi revelado pelo site de Miami, PanAm Post, no sábado (15), que apresentou documentos e comprovantes de pagamento que mostram o mal-uso dos recursos destinados a ajuda humanitária. Os recibos confirmam gastos dos opositores venezuelanos na Colômbia que chegam a mil dólares por noite em refeições e bebidas. Além de despesas com roupas em lojas caras em Bogotá e Cúcuta, assim como aluguel de carros e pagamentos de hotel. O jornalista do Panam, Orlando Avendaño, afirma que parte das fontes da reportagem são membros dos órgãos de inteligência da Colômbia.

A assessora de Guaidó, Rossana Barrera, teria armado um esquema para desviar fundos relacionados à ajuda humanitária e à manutenção de despesas de ex-militares venezuelanos em Cúcuta, informou a reportagem. “Como confirmado por três fontes diferentes, Barrera informou a Caracas o pagamento dos sete hotéis em que os militares e suas famílias estavam hospedados. Caracas desembolsou os fundos, no entanto, apenas dois hotéis correspondiam a ela”, disse o site.

Outra forma de desvio de recursos, identificado pela inteligência colombiana, está relacionada ao número de ex-soldados venezuelanos desertores em Cúcuta. A informação oficial, fornecida por Juan Guaidó ao presidente colombiano, Iván Duque, foi de mais de 1450 ex-militares. “No entanto, uma avaliação paralela da inteligência colombiana concluiu que Barrera e Rojas inflaram o número de desertores. Realmente são cerca de 700”, afirma a reportagem. Essas irregularidades haviam sido informadas diretamente a Juan Guaidó, de acordo com fontes do governo colombiano, citadas pelo jornalista. O governo da Colômbia, no entanto, não se pronunciou oficialmente sobre o caso.

O site de Miami reporta também que 60% dos alimentos doados à oposição venezuelana e que estavam armazenados na cidade colombiana de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, estão apodrecendo e provavelmente serão queimados. A deputada Gabriela Arellano, em uma entrevista à imprensa local, negou que os alimentos estejam se perdendo dentro dos armazéns.

Toneladas de alimentos enviados pela USAID dos EUA ainda estão em Cúcuta | Foto: AFP/Raul Arbolena

Já o deputado Juan Guaidó saiu em defesa de seus funcionários, em um primeiro momento. “A delegação da Colômbia tem conduzido com austeridade e limitações econômicas [os recursos da ajuda humanitária]”, escreveu Guaidó no seu Twitter no sábado. Porém, na segunda-feira (16), fez declarações a imprensa, em Caracas, e pediu para seu “embaixador”, Calderón Berti, solicitar formalmente uma investigação às autoridades colombianas.

O cientista político Martín Pulgar afirma que não existe um organismo ou órgão estatal que regule esse tipo de recurso, sobretudo a parte que foi doada. “Tudo isso é tão irregular que é difícil falar de qualquer protocolo de uso desses recursos doados. Em geral, nesses casos, existem protocolos acordados entre os doadores e os quem recebe o dinheiro. Todos esses elementos não foram cumpridos, porque isso tem como origem uma operação de golpe de Estado que supostamente iria durar pouco”, afirma o analista político.

Pulgar afirma que cabe às autoridades colombianas investigar o caso. Os países doadores dos recursos, como os Estados Unidos igualmente poderiam investigar. “É preciso verificar qual é o amparo jurídico desses recursos dentro do sistema de leis colombiano. Imagino que deva existir algum tipo de contrato que se assinou na Colômbia e esse deve ser o marco regulador, mas isso ainda não está claro. Isso vale também para os recursos do Estado venezuelano confiscados pela Colômbia e por outros países”, diz.

Origem dos recursos

A origem dos recursos administrados pela oposição venezuelana e o montante não foram informados pelos líderes opositores. No entanto, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, informou, na segunda, que o governo Trump doou cerca de US$ 213 milhões de dólares. E o governo do Canadá havia anunciado doação de US$ 40 milhões de dólares, em janeiro desse ano.

O governo venezuelano informou que pode haver também recursos do Estado bloqueados no exterior, que seriam destinados a importação de alimentos e medicamentos. O ministro da Comunicação e Informação, Jorge Rodríguez disse que há suspeita de que parte do dinheiro em contas estrangeiras da estatal petroleira da Venezuela, a PDVSA, possa ser utilizado pelos opositores para o pagamento de despesas pessoais. Ele afirmou que falta transparência sobre a origem e a administração desse fundo controlado pela oposição, pois não passa por nenhuma controladoria do Estado venezuelano.

Além disso, o secretário de Estado dos Estados Unidos informou semana passada que a Assembleia Nacional da Venezuela havia aprovado a emissão de US$ 71 milhões de dólares em títulos de dívida para “pagamento de credores”, mas não especificou quem eram os beneficiários desses pagamentos.

Jorge Rodríguez destacou ainda, durante suas declarações à imprensa, que o Departamento de Estado dos EUA “possivelmente abrirá uma investigação”, para apurar uma suspeita de alteração na contabilidade da subsidiária da PDVSA nos EUA, a Citgo América. De acordo com o ministro venezuelano os representantes indicados por Juan Guaidó podem ter excedido o valor de US$ 70 milhões de dólares em títulos da dívida, que havia sido anunciado formalmente pela Assembleia Nacional.

De acordo com investigações do governo venezuelano o valor de US$ 2,5 milhões dólares arrecadados com o show Venezuela Aid Live também foram repassados a Juan Guaidó e sua equipe, mas ele não se pronunciou sobre esse repasse.

Depois que a notícia foi publicas em diferentes meios internacionais, o Ministério Público da Venezuela decidiu abrir uma investigação, nesta terça-feira. "Os fundos administrados por essas pessoas designadas por Guaidó como seus representantes na Colômbia são designados desde a Venezuela, então cabe à nossa jurisdição investigar, tanto a origem do dinheiro quanto o seu uso", destacou o procurador-geral da República da Venezuela, Tarek William Saab.

Reações oficiais

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, crítico do governo Maduro e aliado de Juan Guaidó, também solicitou investigação. “Solicitamos à jurisdição competente uma investigação que esclareça as graves acusações formuladas, para determinar responsabilidades e exigir responsabilização. Não há democratização possível sob a opacidade dos atos de corrupção”, escreveu em seu Twitter.

O governo venezuelano se pronunciou sobre o caso nessa segunda-feira e pediu ao governo colombiano que investigue os fatos. O ministro de Comunicação e Informação, Jorge Rodríguez, afirmou que as autoridades venezuelanas já investigavam Rossana Barrera e Kevin Rojas desde o mês de março. “No dia 23 de março denunciamos o gigantesco plano de corrupção de Juan Guaidó, com dinheiro enviado a Cúcuta”.

Ministro Rodríguez apresenta evidências de envolvimento de Guaidó em corrupção | Foto: ImprensaMiraflores

O ministro relatou ainda que existem evidências de o que próprio Guaidó esteja envolvido no esquema. Conversas suspeitas encontradas no celular do advogado e político Roberto Marrero, preso em março, acusado de contratar matadores de aluguel com recursos doados para ajuda humanitária.

Rodríguez cobrou das autoridades colombianas uma investigação rigorosa sobre caso que envolve o deputado do partido Vontade Popular, Freddy Superlano. No dia 22 de fevereiro, data do show musical, Venezuela Aid Live, em Cúcuta realizado para arrecadar recursos para ajuda humanitária, Superlano e seu primo Carlos Salinas, foram envenenados por duas prostitutas, em um hotel de Cúcuta.

Na ocasião Salinas morreu e foram roubados US$ 250 mil dólares em dinheiro vivo, segundo informou a imprensa local na época. “Nós temos fotos das prostitutas saindo do hotel, como é que o governo colombiano não tem? Por que ainda não identificaram as prostitutas?”, questionou o ministro ao apresentar uma foto e um vídeo do deputado acompanhado de duas mulheres em uma festa e delas saindo do hotel.

O presidente Nicolás Maduro também falou sobre o tema, durante um evento no Palácio Miraflores, na segunda. “Roubaram todo o dinheiro da ajuda humanitária. Se roubaram entre eles”, comentou.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira