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Queda de general deve acentuar processo de desmonte nos Correios

Desde o golpe de 2016, empresa pública está sob ataque dos privatistas e já perdeu 17% do quadro de funcionários

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Empresa pública que atua em todo o país e pode dobrar o lucro anual corre o risco de ser vendida
Empresa pública que atua em todo o país e pode dobrar o lucro anual corre o risco de ser vendida - Foto: Fentect/Divulgação

A demissão do general Juarez Cunha da presidência dos Correios, oficializada nessa quarta-feira (19), deve acelerar o processo de privatização desta que é uma das mais eficientes e conceituadas empresas públicas brasileiras.

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Na avaliação do governo, o general Cunha, que assumiu o cargo final do governo Temer, havia se aproximado demais da posição dos trabalhadores contrários à privatização. Na semana passada, durante café com jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) anunciou a demissão de Cunha por ele estar se comportando como um “sindicalista”.

No meio sindical, no entanto, não era clara a posição do general sobre o tema. Na última segunda-feira (17), durante uma videoconferência para funcionários, Cunha teria se mostrado favorável à venda da empresa a partir de um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). 

De toda maneira, sua saída sinaliza para o recrudescimento do desmonte e da demonização da empresa junto à opinião pública, processo iniciado depois do golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, segundo Hálisson Tenório, diretor da Federação dos Servidores dos Correios.

“Boa parte da população defende a privatização dos Correios sem saber o que está acontecendo internamente. Teve a saída de trabalhadores sem a reposição. Onde tinha três carteiros, agora tem um fazendo o trabalho de três; e postos de serviços, agências, sendo fechadas”, disse Tenório.

Em 2014, os Correios tinham 124 mil funcionários. Hoje 103 mil. Uma redução de 17%. Por dia, os carteiros entregam 22 milhões de objetos em 66 milhões de residências.

Um dos maiores temores em relação à privatização é o provável abandono das pequenas cidades por parte das empresas que assumirem os serviços. Isso, porque dos 5.570 municípios brasileiros, em apenas 324 a operação é financeiramente positiva. Esse “lucro” é usado hoje para ajudar a bancar os serviços nas demais 5.246 cidades.

“Nenhuma empresa vai querer pegar a banda boa e a banda ruim. Para quem vai sobrar a banda ruim? Uma vez que o serviço dos Correios é constitucional e precisa ser prestado. Isso vai gerar um déficit [de atendimento] para a população. Encomendas em município que não dá lucro vão deixar de ser realizadas”, disse o sindicalista.

O governo usa os dados do balanço de 2018, com lucro apertado, para justificar a necessidade de privatização. A arrecadação somou R$ 19,69 bilhões e as despesas somaram R$ 19,53 bilhões, gerando um saldo positivo de R$ 161 milhões.

Para Hállison, porém, a arrecadação dos Correios poderia dobrar, chegando a R$ 40 bilhões por ano, se o governo aprovasse uma lei exigindo que a empresa pública fosse a prestadora logística preferencial dos municípios, dos estados e da União.

Edição: João Paulo Soares