Tradição

Editorial | O São João e o pulsar do coração ao som do forró

Mesmo diante de tantas dificuldades, a cultura regional persiste e as festas juninas nos mostram isso

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O fato é que é no Nordeste onde se encontra grande parte desta representatividade cultural / Andréa Rêgo Barros/ Divulgação: PCR

Mais uma vez chegamos a esta época tão festejada que é o período junino. E, em meio a muita canjica, pamonha e mungunzá, sempre reaparece uma espécie de disputa regional sobre onde se faz a melhor festa de São João do Brasil. Seria em Caruaru ou em Campina Grande? Ou, na verdade, seria em Aracaju, em Mossoró ou em São Luís. Não importa muito. O fato é que é no Nordeste onde se encontra grande parte desta representatividade cultural. Quase como um polo de resistência diante de uma massificação cultural que não é de hoje que tira espaço das produções locais de música, poesia, dança, entre tantas outras manifestações.

Mesmo para os que não curtem muito as festividades deste mês, como negar a importância de artistas como Luiz Gonzaga ou esconder o pulsar do coração ao escutar a música que começa com “olha pro céu meu amor, vê como ele está lindo”? Como não sentir vontade se balançar ao escutar trechos como “Pisa na fulô, pisa na fulô, pisa na fulô, não maltrata o meu amor”, pela belíssima voz de Marinês e Sua Gente. Ou, para ficar em artistas da atualidade, como não se emocionar ao escutar a música Nordeste Independente, na voz de Elba Ramalho, ou Orgulho de Ser Nordestino, do cantor e compositor pernambucano Flávio Leandro?

Sabemos que não é fácil resistir culturalmente diante de um poderio financeiro cada vez mais forte, seja da indústria da música, da indústria alimentícia, ou de qualquer outro ramo. Não à toa que as chamadas duplas sertanejas aparecem e desaparecem de forma tão rápida apenas para satisfazer os desejos de setores que ganham muito dinheiro com isso. Porém, mesmo diante de tantas dificuldades, a cultura regional persiste. E é esta cultura que ganha novo fôlego a cada mês de junho em nossa região.

Mas não é só de festa junina que precisamos neste momento. Na realidade, não é possível ignorar que vivemos uma grande crise em nosso país. E esta crise atinge várias perspectivas do nosso cotidiano e só vem se agravando desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil. Na economia, depois de muitos anos de conquistas e melhoria para as famílias brasileiras, vivemos novamente uma grande onda de desempregos. São mais de 13 milhões de pessoas sem emprego. Quase 25% de nossos jovens não trabalham e nem têm oportunidade de estudo. Na política, a situação do país consegue ser ainda pior. Um governo de direita que não se entende e pretende imprimir ritmo recorde na retirada de direitos dos brasileiros e na venda de nosso patrimônio.

Em suma, nossa situação não é nada fácil. Mas, talvez seja em períodos exatamente como este que devemos buscar inspiração em nossas raízes para lutar. Aliás, nossa história está repleta de momentos em que tudo parecia perdido, mas o povo soube resistir. Não é uma tarefa fácil. Além de inspiração, precisamos ter muita paciência o inimigo é forte e não cairá rápido. Mas vale retomar versos de Flavio Leandro, da música A Dança do Dia a Dia, “Eu quero a minha vida no compasso dessa dança, na esperança desse mundo melhorar, quero meu forró morando na literatura e desenhando a arquitetura da cultura popular”. Bom São João a todas e todos!

Edição: Monyse Ravena