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Governo da Venezuela frustrou plano para assassinar Maduro, revela ministro chavista

Grupo golpista era formado por 40 ex-militares e tramavam matar, além do presidente, outras 70 lideranças governistas

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Nova tentativa de golpe seria realizada nos dias 23, 24 e 25 de junho, mas foi descoberta pelos serviços de inteligência da Venezuela / Foto: MPPCI

O ministro da Comunicação da Venezuela, Jorge Rodríguez, revelou nesta semana informações e vídeos que mostram que um grupo de mais 40 ex-militares, ex-funcionários do governo e opositores venezuelanos teriam armado um plano para dar um golpe contra o governo do presidente Nicolás Maduro.

Este grupo, de acordo com o governo venezuelano, teria atuado sem a participação de Juan Guaidó. Essa nova tentativa de golpe seria realizada nos dias 23, 24 e 25 de junho, mas foi descoberto pelos serviços de inteligência da Venezuela e desarticulado pelo governo.

Tratou-se de um plano complexo que envolvia três grupos operativos de combate, liderados por ex-oficiais que estavam ativos nos anos 90. Muitos deles haviam participado de outras tentativas de golpes, como o que ocorreu em 2002 contra o ex-presidente Hugo Chávez, e também no chamado "golpe azul", de 2015, contra Nicolás Maduro.

De acordo com o ministro Rodríguez, o plano principal era de liberar o ex-general Raúl Isaías Baduel – preso desde 2009, quando atuava na Direção Nacional de Contrainteligência Militar (DGCIM). Em paralelo, a trama incluía tomar a base aérea de La Carlota, localizada num ponto estratégico da grande Caracas. Baduel comandaria às operações golpistas desse lugar.

Baduel já foi comandante geral do Exército venezuelano, entre 2004 e 2006, e ministro da Defesa do ex-presidente Hugo Chávez, entre 2006 e 2007.

O plano também abarcava o assassinato do presidente Nicolás Maduro e do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello e mais 70 líderes sociais e dirigentes chavistas.

Além disso, o golpe incluía tomar o canal público de TV, a Venezuelana Televisão (VTV). Consolidadas as ações militares, o ex-general Baduel seria levado para sede desse canal e proclamado presidente da República da Venezuela em frente às câmeras, em rede nacional.

“Seria o segundo presidente autoproclamado em menos de seis meses. Me pergunto: consultaram o Guaidó?”, indagou o ministro chavista Rodríguez.

Divisão dos três grupos operativos do golpe

Segundo o presidente da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) da Venezuela, Diosdado Cabello, em entrevista ao Brasil de Fato, essa ação contra o governo Maduro não tinha uma liderança clara e cada um desses três grupos operativos montados pelos golpistas tinham seus próprios líderes.

O primeiro grupo, denominado Sucre, em referência a Antonio José de Sucre, um militar e estadista venezuelano do século 19, e herói da independência hispânica.

A missão desse grupo seria tomar o palácio presidencial de Miraflores e assassinar os principais líderes do chavismo, entre eles o presidente Nicolás Maduro, a primeira-dama Cilia Flores, o presidente da ANC Diosdado Cabello, e o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno.

Planejavam ainda assassinar o integrante do Partido Socialista Unidos da Venezuela (PSUV) Freddy Bernal, que atualmente é representante do governo nacional no estado de Táchira, estado fronteiriço com a Colômbia. Bernal e Cabello lideraram a resistência na fronteira contra a entrada de suposta ajuda humanitária, no dia 23 de fevereiro, considerada uma derrota para a oposição venezuelana.

O segundo grupo, chamado Lander, poderia ser uma referência a Juan Guaidó, já esse era o seu pseudônimo na operação. O principal objetivo era tomar a base aérea La Carlota e os batalhões Ayala e Bolívar, todos em Caracas. Outro alvo seria a sede da Diretoria Geral de Contra-Inteligência Militar, cuja função é impedir a inteligência ou a espionagem interna e externa.

Também seriam atacados o edifício do Serviço de Inteligência Bolivariana (Sebin), onde está preso o ex-general Raul Baduel, a sede das Forças de Ações Especiais (Faes) da Polícia Nacional Bolivariana e a base aérea de El Libertador, em Maracay.

Um dos objetivos militares desse grupo era o ministro do Interior, Justiça e Paz, o major-general Nestor Reverol.

O último grupo, chamado de Ulises, planejava a captura do diretor do Sebin, o general Gustavo González López e a execução de líderes de movimentos sociais e coletivos das paróquias (equivalente a bairros) de Sucre e do 23 de Ereno, considerados dois bastiões do chavismo. O grupo Ulises também daria apoio ao grupo Lander e estaria responsável de fazer a segurança de líder opositor Juan Guaidó.

Operação Colômbia

Simultaneamente às ações em Caracas e Maracay, um grupo de ex-militares desertores venezuelanos ingressaria no país pela fronteira com a Colômbia, para atuar na captura de líderes sociais e chavistas. Os responsáveis por essa operação na fronteira seriam o ex-major-general Cliver Antonio Alcalá Cordones e também um dos filhos de Raul Baduel, Josnar Adolfo Baduel Oyoque.

De acordo com conversas dos vídeos apresentados pelo ministro da Comunicação como provas, essa etapa contaria com dois grupos de estrangeiros armados que já estariam na Colômbia e contavam com serviço de inteligência em tempo real sobre o paradeiro dos “dois mais importantes [Maduro e Cabello]”, segundo Josnar Adolfo Baduel Oyoque.

Um dos grupos seria formado por militares de Israel, com apoio logístico dos Estados Unidos, e o outro por colombianos e desertores venezuelanos. Os estrangeiros participariam diretamente no assassinato do presidente Maduro e Cabello.

Assalto ao Banco Central

Os opositores também planejavam tomar a sede do Banco Central da Venezuela (BCV). Essa ação, segundo Diosdado Cabello, tinha a função de financiar as ações opositoras, ter acesso às armas e 15 veículos blindados do banco, e também distrair a atenção.

"Primeiro, um comando deles, iria assaltar o Banco Central. Isso distrairia a atenção de todo mundo. Até parece um filme, que existe sobre isso. E quando estivéssemos concentrados no Banco Central eles atuariam contra o presidente Maduro”, explicou Cabello.

Um dos acusados, o ex coronel Rafael Acosta Arévalo (pseudônimo Gonzalo), especialista em explosivos, detalhou essa ação, em uma videoconferência, gravada pelo serviço de inteligência venezuelano. 

Participação de Guaidó não está clara

O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, repudiou as acusações depois que seu nome foi citado em vídeos de reuniões de acusados, onde o ex-general Miguel Sisco Mora (Marina) fala que contava com o apoio de Guaidó para a realização dessas ações contra o governo de Nicolás Maduro.

Sisco afirma ainda que tinha diálogo com o deputado Juan Guaidó e que depois isso era feito através de um interlocutor da confiança de Guaidó. Segundo ele, o interlocutor era um deputado opositor, mas que teria perdido o contato depois de 30 de abril. “Ele teve que ir [refugiar] para uma embaixada”, diz o ex-general.

O ministro da Comunicação Jorge Rodríguez, responsável pela divulgação oficial do caso, informou que a investigação não conseguiu apurar se Guaidó tinha conhecimento das reuniões em que opositores planejaram assassinar funcionários do governo.

Investigações em andamento

O ministro Jorge Rodríguez informou que as agências de inteligência venezuelanas investigam a trama há 14 meses e possui mais de 56 horas de vídeo gravadas com as conversas de articulação do golpe.

Isso foi possível porque membros do corpo de inteligência venezuelano infiltraram nas reuniões e videoconferências, usadas para planejar essa série de ações violentas.

Rodríguez disse ainda que, nas últimas semanas, foram apreendidos mais de 140 mil cartuchos, assim como grande quantidade de fuzis, pistolas e metralhadoras. "Seria um massacre se utilizassem todo esse armamento", ressalta o ministro.

De acordo com Diosdado Cabello, a maioria dos acusados está presa, no entanto alguns deles moram fora do país, na Colômbia, República Dominicana e nos Estados Unidos.

Principais envolvidos

- Josnar Adolfo Baduel Oyoque, pseudônimo 'Simón': filho do ex-general Raul Baduel, que seria proclamado presidente da República. Responsável pela articulação com militares de Israel e Estados Unidos. Assim como com militares colombianos e ex-militares desertores venezuelanos. Um dos líderes da operação geral.

- Cliver Antonio Alcalá Cordones: responsável por liderar ala colombiana que permitiria a entrada de homens armados israelenses, colombianos e ex militares desertores venezuelanos. Um dos líderes da operação geral.

- Miguel Carmelo Sisco Mora, pseudônimo Marina: ex-general de brigada da Aviação, um dos líderes da operação, junto com o filho de Baduel e  Cliver Antonio Alcalá Cordones.

- Eduardo José Báez Torrealba, pseudônimo 'Mariscal': radicado na República Dominicana, Torrealba é fugitivo da Justiça venezuelana, acusado de participar de diversos planos para assassinar ao ex presidente Hugo Chávez. Um dos articuladores o “Golpe Azul”, de 2015, contra o presidente Nicolás Maduro. Está envolvido no planejamento para bombardear a base militar La Carlota, a sede do Sebin, o Conselho Nacional Eleitoral, Tribunal Supremo de Justiça e DGCIM. Também discutiu os planos de assassinatos do presidente Nicolás Maduro, da primeira-dama Cilia Flores e do presidente da ANC Diosdado Cabello.

- José Rafael Huizi Clavier: chefe logístico, encarregado de distribuir dinheiro e rádios com sinal de satélites aos participantes da operação.

- Antonio Rivero, pseudônimo 'Peregrino': ex-militar, acusado de participar em conspirações anteriores e fugitivo da Justiça venezuelana. Atualmente mora em Miami, nos Estados Unidos.

- Pseudônimo 'Alcatraz': encarregado de executar líderes sociais na zona oeste de Caracas, onde estão localizados bairros de maioria chavista como o “23 de Enero”.

- Luis Aguilar, pseudônimo 'Cristofué': ex-funcionário do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminais (CICPC).

- Gilberto Martínez Daza, pseudônimo 'Máximo': ex-policial membro do CICPC.

- Rafael Acosta Arévalo, pseudônimo Gonzalo: ex-policial membro do CICPC, ajudou a planejar ações de bombardeios da base militar residencial Forte Tiuna, onde moram vários ministros e chefes militares. Seu grupo roubaria armas e 15 carros blindados do Banco Central da Venezuelana. Contribuiu no planejamento para tomar o palácio Miraflores e assassinar o presidente Maduro.

- José Gregorio Valladares, pseudônimo Cheo: ex-policial membro do CICPC.  Vinculado com redes de narcotráfico da Colômbia.

- Ramón Antonio Lozada Saavedra, pseudônimo Linardo: militar, atual membro da Guarda Nacional Bolivariana (GNB). Foi responsável por recrutar militares venezuelanos para participar do golpe.

- Carlos Eduardo Lozada Saavedra, pseudônimo Tio: encarregado de assaltar o parque de armas em Caracas, também participaria da tomada da base militar La Carlota e da libertação de o ex-general Raul Baduel.

- Miguel Castillo Sede: ex-militar que mora nos EUA, afirma que participou dessas ações para conseguir, o visto de residente dos Estados Unidos para os filhos.

 

 

Edição: Rodrigo Chagas