Comércio

Acordo entre União Europeia e Mercosul não terá efeito imediato, diz economista

Termos ainda são desconhecidos; indústria nacional pode ser impactada negativamente

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Bolsonaro participa da coletiva de Imprensa sobre o acordo Comercial entre União Europeia e Mercosul em Osaka, Japão / Alan Santos/PR

Na última sexta-feira (28), diplomatas de países ligados a União Europeia e Mercosul assinaram um acordo de livre comércio que demorou, ao menos, 20 anos para ser concebido. Os termos do acordo ainda não são públicos. Paulo Kliass, doutor em economia pela Universidade de Paris, disse que é preciso ter cautela.

“Ainda não tivemos acesso aos termos deste acordo. É preciso ter em mente em que ele demorou 20 anos para ser elaborado e, de repente, no governo Bolsonaro, que é contra o Mercosul, contra a União Europeia, extremamente subserviente aos Estados Unidos, o acordo é assinado com rapidez", alertou.

Kliass disse também que acordos comerciais entre países ou, como nesse caso, entre blocos, demoram anos para gerarem efeitos concretos: as consequência ficarão evidentes de médio a longo prazo. Além disso, afirmou que, apesar dos termos não serem de conhecimento público, a eliminação ou diminuição das tarifas de importação e exportação podem gerar impactos negativos na economia local.

“Tarifas são mecanismos de defesa da economia local. O Trump, por exemplo,  estabelece tarifas, cotas e outros mecanismos para proteger a economia doméstica” destaca Paulo. No caso do Brasil, em que há 30 anos assistimos um processo de desindustrialização, o resultado pode ser negativo.

“O fato concreto é que, com mais redução de tarifas e com a pouca competitividade de produtos como automóveis e eletroeletrônicos, a indústria local pode ser estraçalhada”, afirmou Kliass.

Agronegócio

Ao contrário do setor industrial, que pode sofrer consequências graves com o acordo, o agronegócio poderá ser beneficiado. Para Paulo Kliass, o papel neocolonial do Brasil na geopolítica internacional deve ser reforçado de acordo com o que se conhece dos termos.

“De certo modo você estimula esse tipo de economia [agronegócio], de outro, você enfraquece a produção de alto valor agregado. O saldo global disso é o reforço da dependência neocolonial do Brasil. Este acordo afirma que é bom produzir bens de baixo valor agregado como soja, carne, álcool, milho, trigo, para exportar e com a ilusão de, ao fazer essa abertura, você estar dando um novo patamar de tecnologia para o mercado brasileiro. Mas não é o que acontece quando se perde na produção de bens de alto valor agregado”, explicou.

Desemprego

Do ponto de vista do emprego, Paulo Kliass acredita que não será possível perceber efeitos concretos desse novo acordo em operação. O economista acredita ser uma aposta do governo para o crescimento da economia na atividade exportadora. ”Não há demanda de consumo interno pelas famílias, nem investimento interno, então, a única saída é a demanda externa”, disse.

Kliass ainda alerta que o agronegócio, que deverá ser beneficiado, gera poucos empregos em relação ao nível de investimento realizado.

“Ao contrário da agricultura familiar, que gera muitos empregos e que não será beneficiado com o acordo. É difícil dizer que esse acordo será gerador de empregos. Os efeitos econômicos dele provavelmente só serão sentidos após o primeiro governo do Bolsonaro. Esses acordos são lentos”, finalizou Paulo Kliass.

Edição: Aline Carrijo