AGROTÓXICOS

Pesquisa mostra que inseticida está por trás de morte em massa de bicho-da-seda no PR

Marilucia Santorum estudou os efeitos do Novalorum, considerado “pouco tóxico”, no ciclo da lagarta

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Ouça o áudio:

Bicho-da-seda é criado por seres humanos há pelo menos cinco mil anos / Reprodução/Youtube

Bombyx morii. Esse é o nome científico da mariposa doméstica, ou bicho-da-seda, criado por seres humanos há pelo menos cinco mil anos para extração da seda, um tecido fino, através da prática conhecida como sericultura.

O Brasil é um dos principais produtores mundiais dessa matéria-prima utilizada pela indústria têxtil e produzida em grande parte pela agricultura familiar. Os sericultores estão concentrados no Vale da Seda, no norte do Paraná, que compreende 29 municípios, assim como em algumas cidades de São Paulo. Recentemente, os pequenos produtores têm notificado a morte em massa dos animais.

A razão pode estar na dispersão do inseticida Novaluron, usado em plantações vizinhas de soja, milho e cana-de-açúcar, que contamina as folhas da amoreira, o alimento das lagartas do bicho-da-seda. Foi o que comprovou a bióloga Marilucia Santorum, em seu doutorado pelo programa de Pós-Graduação em Biotecnologia, do Instituto de Biociências da Unesp Botucatu, O artigo dela, “Negative impact of Novaluron on the nontarget insect Bombyx mori (Lepidoptera: Bombycidae)”, foi publicado este mês pela revista Environmental Pollution.

A pesquisadora demonstrou que, quando os insetos são expostos ao agrotóxico – considerado “pouco tóxico” (classe 4) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) –, eles apresentam uma alta mortalidade e têm seu ciclo de vida afetado.

“Mostramos apenas uma pequena parcela dos impactos que um agrotóxico pode trazer ao ecossistema, mas isso já nos dá ideia que ele [o inseticida] pode sim agredir o meio ambiente, outros insetos e espécies benéficas que possam ser expostas. E inclusive o homem, o fim da cadeia”, disse Santorum ao portal da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

dsc04512---copia.jpg

A bióloga brasileira Marilucia Santorum. (Foto: Unesp/Reprodução) 

A pesquisa

Foram feitos dois experimentos. No primeiro, um grupo de lagartas foi alimentado por 24 horas com folhas de amoreira expostas ao inseticida durante o 3° instar larval (troca do exoesqueleto). No segundo, as lagartas foram expostas no 5º instar larval.

A mortalidade foi de 100% no primeiro experimento e de 20% no segundo. A diferença se dá principalmente porque a lagarta está mais desenvolvida e resistente, mas mesmo assim foram registrados espécimes menores e mais frágeis, que constroem casulos defeituosos, o que pode causar prejuízos para o mercado de seda.

Do ovo até a fase adulta, são 40 dias de ciclo. As lagartas consomem folhas frescas por 20 dias até começaram a produzir as proteínas da seda, que serão comercializados. Um único casulo pode ter até 1,5 quilômetros de fio. 

Ao lado da abelha, a mariposa doméstica é um dos insetos mais antigos domesticados pelo ser humano. Ela não voa, ao contrário do seu antepassado selvagem, é dócil ao contato humano, não foge de predadores e produz casulos maiores.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira