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As arboviroses e uma tragédia anunciada na saúde brasileira

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05 de Julho de 2019 às 14:36

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Arboviroses são são as doenças transmitidas pela picada de artrópodes que se alimentam de sangue, como o Aedes aegypti / Agência Brasil
Estamos vivendo uma nova explosão de casos destas doenças no Brasil este ano

Estamos prestes a encarar uma nova tragédia em nosso país. Neste caso, me refiro a uma forte alta na incidência das chamadas arboviroses e suas possíveis consequências, como as Síndromes Congênitas de Zika e as pessoas que passam meses com fortes dores nas articulações por conta do adoecimento por chikungunya. Para quem não está familiarizado com o termo, as arboviroses são aquelas doenças causadas pelos arbovírus, que incluem, além da zika e da chikungunya, também o vírus da dengue e até o da febre amarela. Na definição, são as doenças transmitidas pela picada de artrópodes que se alimentam de sangue, como o Aedes aegypti.

Um rápido olhar por sites de notícias de todo o Brasil evidencia a situação alarmante pela qual passamos, apesar de muito pouco destaque a esta questão. Não consigo ter uma compreensão clara do porquê. Penso que a balbúrdia dentro do governo seja tão grande que não haja muito espaço para divulgar outras questões. Não sei mesmo. O fato é que estamos vivendo uma nova explosão de casos destas doenças no Brasil este ano. O Boletim Epidemiológico oficial aponta que até 23/03/19, considerando as 12 primeiras semanas do ano, já passávamos dos 290 mil casos prováveis de arboviroses (considerando as 3 principais). Em 2018, no mesmo período, foram registrados cerca de 100 mil casos prováveis. 

O mesmo boletim aponta que dois em cada três cidades apresentavam risco ou estado de alerta para a presença do Aedes aegypti. Para além do acometimento direto por estas doenças, me causa arrepio imaginar uma possível consequência tardia do adoecimento por zika: são os casos de síndrome congênita da zika que representaram uma grande tragédia em 2015. Para quem não se lembra, me refiro aos casos de bebês que nasceram com microcefalia após adoecimento de suas mães ainda durante a gravidez. 

De um jeito ou de outro, só consigo pensar em toda esta situação como uma grande tragédia anunciada. Se lá em 2015 fomos pegos meio que de surpresa, por até então nem conviver com o vírus da zika e muito menos com suas possíveis repercussões na gravidez, desta vez não existe mais esta justificativa. Governos e sociedades hoje já têm pleno conhecimento desta relação estabelecida e que não pode mais ser refutada.

O que existe, e isso precisa ficar muito claro, é que há uma completa ausência de investimentos necessários para o combate a esta arboviroses. Já passou da hora de achar que o combate ao Aedes se dá em ficar insistindo para as pessoas cuidarem dos seus jardins para não deixar água acumular. Lógico que isso também é importante, mas é um tanto insuficiente. Precisamos de políticas mais incisivas. Para mostrar a complexidade da questão, aponto dois problemas. O primeiro deles é o número de casas vazias em nosso país. São cerca de 6 milhões de moradias que ficam vazias, muito por conta de especulação imobiliária. Como controlar estes locais? Outro problema é que, também segundo o Boletim Epidemiológico, cerca de 40% de possíveis focos para o Aedes seriam de água para consumo. Como pedir então maiores cuidados quando grande parte do acúmulo de água se deve ao fato de se ter um precário acesso a água? 

Há também outras causas relacionadas a este quadro. O aquecimento global e as mudanças climáticas pelas quais temos enfrentado são eventos que comprovadamente contribuem para esta disseminação maior dos agentes transmissores destas doenças. Há de se estabelecer melhor ainda, mas há fortes elementos também que associam grandes desastres com o agravamento do cenário, como o crime da Vale em Brumadinho. 

Por fim, encerro este texto apontando que o discurso liberal de que a solução para o combate às arboviroses pedindo para que as pessoas não acumulem água em pneus ou vasos de plantas é limitado. Tem sua função, mas por si só nunca resolverá esta grave questão. A saída necessariamente é coletiva e exigiria investimentos por parte dos governos. Campanhas de educação associadas a uma forte presença do estado atuando junto às comunidades, identificando cada realidade e atuando em conjunto. Para nosso desespero, é algo que parece estar longe do campo de interesse do atual governo, que só fala em diminuir investimentos e precarizar a presença do setor público. A nossa tragédia anunciada pede ações que, infelizmente, não têm espaço no governo atual.

Edição: Monyse Ravenna