Opinião

Artigo | Foro de São Paulo: a extensão do mito da conspiração comunista

23% dos entrevistados acreditam em mentira difundida sobre Foro de SP

No audio source provided.

De acordo com os nossos estudos aqui publicados, estamos diante de um fenômeno que, na política, chamamos de mito político e que, no nosso caso, guarda intensas semelhanças com o processo que levou Hitler ao poder na Alemanha. Enquanto na Europa espalharam o terror na sociedade disseminando o mito da conspiração judaica, no Brasil, a extrema direita inculcou na cabeça, principalmente da classe média, a ideia de que o Foro de São Paulo seria uma organização criminosa que intencionava implantar uma ditadura comunista-bolivariana por toda a América Latina (a Ursal) e que a continuidade do PT no poder iria transformar o Brasil numa Cuba ou Venezuela.

Com a finalidade de investigar a extensão do público afetado pelo mito do complô comunista supostamente organizado pelo Foro de São Paulo, construí, junto aos meus alunos do curso de direito das unidades Coração Eucarístico e de Betim da Puc Minas, um modelo de questionário eletrônico, ficando cada grupo de três alunos incumbido de obter 50 questionários respondidos. A pesquisa de campo se deu no círculo de convívio dos alunos, dentro da própria universidade, nas famílias, nos locais de trabalho e nos ambientes de lazer. Ou seja, não foi construída uma amostra da população brasileira e nem foram colhidas respostas em todo território, de modo que os dados obtidos nos permitiram um indicativo da força explicativa de nossa hipótese e não a confirmação da mesma.

Obtivemos a participação de 1.257 respondentes. A maior parte deles, 882, foi de jovens de 16 a 29 anos de idade, seguida dos adultos de 30 a 59 anos, 333, e dos idosos, acima de 60 anos, 42.

 

Quanto ao sexo, 705 (56,1%) se declararam do sexo feminino, contra 548 (43,6%) do sexo masculino. Quanto à raça-cor e a classe social, obtivemos os seguinte resultados:

 

Como pode ser observado, os nossos respondentes são em maioria jovens e adultos, levemente tendendo ao sexo feminino, de cor branca, mais de 50%, e de renda média, 68,8%. A esses, perguntamos se conheciam o Foro de São Paulo e, aos que afirmaram conhecer, perguntamos se as informações que possuíam eram positivas ou negativas.

Dos 1.257 entrevistados, 567 possuíam referências sobre o Foro de São Paulo e, dentre eles, 369 possuíam referências negativas sobre o mesmo.

Ou seja, quase a metade dos participantes, 45,1%, possuía informações e, dentre eles, a maioria, 65,1% compartilhava da opinião negativa sobre o Foro, sendo que o perfil desse respondentes, seguiu o perfil geral do apanhado: homens e mulheres, jovens e adultos, brancos e de classe média, em maioria. A este grupo de 369 indivíduos, que perfazem os 65,1% dos respondentes que obtiveram informações negativas sobre o Foro, indagamos se tais informações coincidia com a narrativa que o Sr. Olavo de Carvalho divulga nas redes sociais, bem como na mídia tradicional. Para isso, compilamos trechos de sua autoria, publicado por Felipe Moura[1], blogueiro da Veja e perguntamos aos informantes se a informação que possuíam, coincidia com a seguinte:  

“Foro de São Paulo é a mais vasta organização política que já existiu na América Latina […]. Ele reúne partidos legais e várias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico como as Farc e o MIR chileno […]. Numa convivência íntima, persistente, organizada e duradoura entre a política e o crime”.

Dentre os 369 respondentes, 289 (78,4%) afirmaram que a narrativa acima coincide com a informação que possuíam sobre o Foro de São Paulo. Quando consideramos esses 289, em relação ao universo pesquisado (1257), temos que representam 23% do total. Como dissemos, não pautamos a presente análise sobre uma amostra previamente definida, entretanto, os dados que obtivemos indicam que a nossa hipótese possui, além de sustentação teórica, fortes indícios empíricos de sua força explicativa.

A título de ilustração, apenas, se aplicarmos este percentual de 23%, ao total de cidadãos aptos a votar em 2018, 147.302.354 eleitores, temos que, 33.879.541 indivíduos podem terem sido tocados, em todo o Brasil, pelo mito da conspiração criado pelo astrólogo Olavo de Carvalho e divulgado pelas mídias sociais e tradicionais de direita. Número tão expressivo, que, se confirmado por uma base amostral correta, poderá confirmar que a grande narrativa que determinou os resultados das eleições de 2018, foi essa farsa forjada pela extrema direita e massificada por memes, fakenews nas redes sociais e por nossa perversa pseudo imprensa.

Dimas Antônio de Souza é professor de Ciência Política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter