HISTÓRIA

EDITORIAL | Mulheres negras são protagonistas nas lutas por justiça social no Brasil

Dia 25 de julho marca o dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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Mulheres negras lutam contra desigualdades de classe, raça e gênero. / Marcha Mundial das Mulheres

A condição da mulher negra no passado, e ainda nos dias atuais, diz muito sobre a maneira que o Brasil se formou do ponto de vista social e econômico: com bases machistas, racistas e ausência de qualquer projeto que pensasse o desenvolvimento de uma nação para seu povo. Desde o tráfico negreiro, trabalho nas lavouras e na casa grande. No caso das mulheres negras e indígenas daquela época, em que a miscigenação que deu origem ao povo brasileiro foi realizada através do estupro, a exploração e violência não se dava apenas na exploração do trabalho, mas também do abuso sexual.

Porém, esse processo não se deu sem resistência. Nossa história é repleta de levantes, revoltas e formas coletivas de organização para resistir e lutar. Como a conformação de Quilombos, venda de quitutes para alforrias coletivas, das revoltas como Búzios, Revolta dos Malês, e o processo de luta pela Independência da Bahia, o Dois de Julho; entre outras tantas maneiras de sobrevivência e preservação da cultura africana.

No dia 25 de julho se comemora o dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Esta data surgiu em 1992, após o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, na República Dominicana. No Brasil, durante o governo de Dilma Rousseff, o 25 de julho foi instituído como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em homenagem a líder quilombola Tereza de Benguela, que liderou o Quilombo do Quariterê.

Se olharmos hoje, tempos de trabalho “livre”, após 131 anos de uma abolição que não libertou, as desigualdades sociais são absurdas e temos grandes desafio. Mulheres negras graduadas recebem uma média salarial equivalente a 43% dos salários dos homens brancos segundo a PNAD; são as maiores vítimas de violência doméstica, obstétrica e feminicídio.

Mas mulheres negras latinoamericanas e caribenhas “levam a vida nos cabelos” como disse Galeano sobre a fuga de mulheres escravizadas no Suriname. Carregam a vida nos traços dos rosto, na pele cor da noite, no sorriso, na dança, na firmeza, na leveza, no amor e estratégia de luta ancestrais. Trazem a força das guerreiras, como Maria Felipa, que na Ilha de Itaparica, com outras mulheres surrava os portugueses com cansanção e incendiava os barcos. Ou ainda, as “Caretas do Mingau”, de Saubara no Recôncavo, mulheres que se vestiam de fantasma para assustar os homens do exército português e poder levar mingau e outras comidas para maridos e filhos que estavam na trincheira próximo da cidade.

Vivemos um momento delicado no país, no qual direitos adquiridos e todas as políticas de inclusão, distribuição de renda, e iniciativas de desenvolvimento nacional estão sendo desmontadas. Relembrar a história é importante para que não esqueçamos jamais que luta e resistência permeiam toda a nossa trajetória, e que para sair desse quadro devemos nos inspirar em nossas heroínas e guerreiras negras, que muito tem a nos ensinar sobre estratégias de organização e sobrevivência. Viva às mulheres negras!

Edição: Elen Carvalho