Evento público ou privado?

Artigo | Que mundo é esse do Maior São João do Mundo?

O modo como a festa tem sido conduzida gera contradições

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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Maior São João do Mundo acontece em Campina Grande há mais de trinta anos com programação que dura o mês inteiro de junho no Parque do Povo. / Emanuel Tadeu

No último domingo, 07 de julho, chegou ao fim em Campina Grande mais uma edição do "Maior São João do Mundo". A festa que dura 30 dias é um orgulho para o município, uma narrativa amplamente vendida pelo poder público local. Durante o mês de festa, uma estrutura milionária que inclui Cidade Cenográfica, arena para grandes shows, camarotes, brinquedos, bares, restaurantes e lojas é montada em um espaço público localizado no centro da cidade, chamado Parque do Povo. No entanto, o modo como a festa tem sido conduzida gera contradições.

A eterna busca em garantir um “título mundial” faz com que a identidade do São João, o evento mais popular do Nordeste do Brasil, seja vítima de perigosas estratégias políticas. Se por um lado o investimento na cidade espetáculo é compreendido como algo positivo para a economia, por outro, esse mesmo modelo de gestão, concentrado e aplicado em um relativamente curto período de tempo põe em risco a própria celebração junina e suas raízes como manifestação popular.

Essa postura desmotiva e invisibiliza as tradicionais festas de rua capilarizadas nas vizinhanças, enfraquecendo tanto as experiências sócio-culturais como a economia local em diferentes áreas da cidade. Geralmente, essa dinâmica também se faz presente nas trocas comerciais realizadas a partir dos pequenos negócios de bairro. O acentuado protagonismo durante 30 dias ininterruptos de evento pode gerar consequências irreversíveis para a qualidade urbana como um todo. A história da festa e das decisões políticas coadunadas com os interesses privados revelam fatos que enfatizam essa conclusão.

Memória e tradição: a (trans)formação de identidade

Até os anos 1980, em Campina Grande era comum as festas se espalharem nos clubes da cidade. Clube dos Caçadores, Gresse, Campestre, Campinense e Ypiranga foram alguns dos responsáveis pelos principais eventos juninos naquele período. Havia ainda o São João de rua, das quadrilhas e dos movimentos culturais. Relatos apontam que em 1983, o Palhoção do Forró, instalado em um descampado que servia de sangradouro para o Açude Novo, já servia de apoio para o que viria a se chamar o “Maior São João do Mundo”. Anos mais tarde, a decisão política de urbanização daquele espaço, onde hoje é o Parque do Povo, possibilitou melhorar a integração da população com o local para a realização do grande festejo junino. Em 1986 a Pirâmide é construída, o Parque do Povo é inaugurado e a partir dos anos seguintes a festa ganhou novos contornos.

Uma das atrações mais significativas que surgiu com a festa no Parque do Povo e mantida até hoje é a Cidade Cenográfica. A iniciativa reproduz icônicos edifícios de valor histórico do município, a exemplo da Câmara Municipal, a Catedral, o Cine Capitólio, o Cassino Eldorado e o Telégrafo Nacional. Para além disso, foram as atividades como o casamento coletivo, a competição de quadrilhas, a corrida de jegues, a fogueira gigante e as ilhas do forró que se constituíram como elementos fundamentais para garantir tradição à festa. Desde então, o evento cresce sobremaneira. O caráter de festa-espetáculo se consolidou e, hoje, a cidade integra o roteiro turístico nacional com o autoproclamado título de “Maior São João do Mundo”. A estrutura da festa também acompanhou esse crescimento e sofreu algumas mudanças ao longo desses mais de trinta anos.

Palhoção do Forró, na região onde hoje é o Parque do Povo, em 1983. Ao fundo, observa-se o Obelisco, monumento do Açude Novo. / Blog Retalhos Históricos de Campina Grande.

A emblemática Pirâmide do Forró, ícone arquitetônico do Parque do Povo, nos primeiros anos do “Maior São João do Mundo”, em 1986. / Blog Retalhos Históricos de Campina Grande.

Público? Privado? E o Povo, onde fica nessa Parceria?

Segundo estudos realizados pelo Laboratório de Rua (LabRua), as transformações mais expressivas no evento do “Maior São João do Mundo” aconteceram paralelamente às alternâncias das gestões municipais. Percebe-se, portanto, o desejo de cada uma deixar registrada a sua marca. Localização e dimensão do palco, das barracas, das palhoças, dos acessos e da própria Cidade Cenográfica foram mudando.

Hoje, com pouco mais de 42 mil m² e um investimento de cerca de três milhões de reais, a festa recebe um público que chega a quase 100 mil pessoas. Entretanto, muitas dessas noites com superlotação são protagonizadas por grandes artistas nacionais com pouco ou nenhum vínculo com a tradição dos festejos juninos.

Recentemente, por meio de Parceria Público Privada (PPP), a Prefeitura Municipal de Campina Grande (PMCG) concedeu a organização da festa à particulares. A mudança do modelo de gestão intensificou o que já vinha sendo observado em anos anteriores e contribuiu significativamente para que artistas, ritmos e até a gastronomia regional perdessem protagonismo no evento. Além do mais, o novo formato incentivou o aumento do número de camarotes e ampliou a oportunidade de patrocínio por parte de grandes marcas multinacionais.

As atrações do “Maior São João do Mundo” viraram mercadorias e na busca por ampliar a visibilidade do evento, grandes bandas e grupos musicais comerciais, distantes da cultura dos festejos juninos, ganharam ainda mais destaque na programação. Por outro lado, a competição de quadrilhas perdeu espaço e as tradicionais palhoças de forró pé de serra reduziram de tamanho e algumas até deixaram de existir.

As barracas de comidas típicas da festa cada vez mais estão sendo substituídas por cardápios dos grandes restaurantes da cidade, abrindo concorrência, também, à culinária italiana, mexicana, japonesa, chinesa…As cachaças produzidas por engenhos da região do brejo paraibano deram lugar à uma única marca de aguardentes que patrocina o evento e que nem sequer é produzida no estado.

Controverso, o “Maior São João do Mundo”, por um lado em que propõe resgatar a memória a partir da imagem de importantes edifícios com sua Cidade Cenográfica, com o tempo promove a romantização do passado e vai ignorando a cidade real. Enquanto isso, a maioria dos originais desses exemplares arquitetônicos, erguidos em compensado de madeira durante a festa, ou estão em ruínas ou foram subutilizados, carecendo de reparos e manutenção.

Com a justificativa de ter controle sobre o público e tornar o espaço mais seguro, as empresas responsáveis pela festa isolam o Parque do Povo com tapumes metálicos que criam muros e condicionam comportamentos. Do lado de dentro, o cotidiano dos passeios pelo “Maior São João do Mundo” mostra que a interação de quem deve garantir a segurança da festa é seletiva. Dependendo do público e do local, isso fica evidente desde a revista na entrada às rondas internas.

Além das recorrentes e constrangedoras abordagens policiais, em especial os “baculejos”, em sua maioria sofridos por grupos de jovens negros, os relatos de machismo e LGBTfobia também são frequentes. Agressões e assédios, tanto em mulheres como em pessoas LGBT, impedem a livre circulação de um grande público da festa. O mesmo não acontece, com igual intensidade, por exemplo, no espaços privatizados dos camarotes. Há, portanto, uma reprodução e legitimação do poder de controle sob o espaço público que incentiva ainda mais a discriminação de determinados grupos sociais.

O “São João de Campina Grande”, que já surgiu com o propósito de evento de grande porte, ao passo que se consolida no calendário das tradicionais festas do ano, cada vez mais assume outras dimensões, marcadas pelo caráter elitista, segregador e que não aparenta estar preocupado em garantir, de fato, a essência da cultura de um povo e sua região.

Um dos maiores festejos populares do mundo segue sofrendo mudanças pautadas pelos interesses políticos e privados. Não há participação popular na tomada de decisões e os rumos da festa suscitam alguns questionamentos: São João para quem? Parque para que Povo? Que mundo é esse do Maior São João do Mundo?

Fotos: Beatriz Brito, 2017

 

*Aída Pontes é doutora em planejamento urbano pela Eindhoven University of Technology, diretora-presidente do LabRua, Conselheira Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil na Paraíba e professora do curso de arquitetura e urbanismo da UniFacisa.

Beatriz Brito desenvolve pesquisa de mestrado no PPGAU-UFPB abordando questões de gênero no espaço público, é diretora do LabRua e Conselheira Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil na Paraíba.

Pedro Rossi é mestre em teoria e história da arquitetura pela Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona, professor e coordenador do curso de arquitetura e urbanismo do IESP, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil na Paraíba e articulador do Núcleo PB do projeto BR Cidades.

Edição: Heloisa de Sousa