Coluna

A Vertigem da Democracia

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24 de Julho de 2019 às 17:19

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Cena do filme Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa / reprodução
No mundo fora da tela, também nos encontramos em uma encruzilhada como sociedade

Três dias antes do turbilhão detonado pelas revelações do portal The Intercept Brasil, Petra Costa lançou seu filme “Democracia em Vertigem”, que narra, justamente, os processos que conduziram o ex-presidente Lula à prisão. Para quem, como eu, viveu grande parte das cenas por dentro, com uma lente de aumento indesejada, assistir ao documentário é um reviver emocional muito forte. A linha narrativa da diretora nos guia, com um fio invisível e sem que tenha sabido disso, às divulgações de Glenn Greenwald e às conclusões de como homens usaram o sistema de Justiça para concretizar seus interesses políticos espúrios.

Conheci a Petra durante o processo de impeahment. Eu era assessora da bancada do governo Dilma no Senado, e ela era uma das cineastas que estava fazendo documentário sobre a conjuntura dos nossos tempos. Nos meses e anos seguintes eu encontrei diretora e equipe de filmagem em vários lugares, como no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo, nos fatídicos dias antes e durante a prisão de Lula.

Como expressão da subjetividade da autora, é um belo filme, que documenta os anos recentes do Brasil. Li críticas sobre a narrativa. Por óbvio, pode-se dela discordar, mas o fato é que ao se colocar como narradora e personagem, e expor as contradições da própria família para dar luz à polaridade da sociedade, além de textos que expressam dúvidas, temores e questionamentos, Petra assume os riscos de se aproximar de tal modo do campo do expectador que cria com ele uma empatia.

E se a realidade transborda do filme, fato é que ele não tem um final, estamos bem no meio dele, em uma teia que bem poderia ser relegada à ficção, tamanha sua trama maléfica. No mundo fora da tela, também nos encontramos em uma encruzilhada como sociedade brasileira.

A mesma sociedade, cujo processo de redemocratização iniciado nos anos 1980 faliu, assiste hoje, menos de sete meses de um novo governo, a uma quantidade tão grande de estragos que é difícil mensurar. Muitos eventos se deram na velocidade twitter: enquanto se pensava a respeito, já foi. As aberrações na área da cultura, da educação, do meio ambiente e da política internacional são irracionais. Momentos há em que o esforço para acompanhar os atos oficiais de desmontes se equipara à circunstância de alguém que se afoga, em luta para voltar a respirar a cada vez que afunda. São editados decretos pelo Poder Executivo praticamente todos os dias.

Afora isso, um presidente que chama habitantes da região Nordeste de “paraíbas”, em uma demonstração esdrúxula e escancarada de preconceito xenófobo, e que grava um vídeo defendendo a nomeação do próprio filho a embaixador afirmando: “eu quero beneficiar meu filho sim!” mostra que perdeu qualquer limite de compostura, se é que um dia teve.

Nesse palco, nosso agir é operado com quase nada posto à mesa das virtudes, para cortar o devastador cotidiano e criar novos paradigmas. Os mecanismos dados e os inimigos a enfrentar nessa caminhada não são nada simples, nada facilitadores. O jogo é incivilizado, acobertado por artifícios que o fazem parecer irrepreensível, por jargões como “combate à corrupção”, “enxugamento da máquina pública”, “fé em Deus, “família”. O populismo de extrema direita, em sua estratégia de ocupação de poder, trabalha para destruir sistematicamente a memória de conquistas históricas, camuflando-as para desconstruí-las.

Sob a batuta de um governo com características profundamente autoritárias, homens de dispendiosos ternos e gravatas ditam ordens de seus escritórios, em largas avenidas do país, em nome do invisível mercado, para colocar em marcha as reformas que lhes interessa. Homens de adulterados discursos, em um Congresso Nacional com patentes militares e fundamentalistas religiosos, viciado e contaminado por práticas espúrias, aprovam as normas para colocar o trem do retrocesso nos trilhos e percorrer o caminho de volta ao passado. Do outro lado da mesma praça, homens de toga decidem quem participa da partida, de que forma e em que posição, quem é expulso e quem é empoderado ou intocável; decidem o que segue e o que para. Ou seja, quem são os “donos da bola”. 

Nessa disputa, em que impera toda sorte de práticas altamente questionáveis, antidemocráticas, anti-humanistas ou, para persistir na metáfora, antidesportistas, é preciso não ser apenas torcida, mas também influenciar nos resultados. E o desafio principia por nossa capacidade de não nos acostumarmos, rechaçar o método que nos impõe normalizar abusos como regras, pressionar para que a Justiça não seja o pão servido na mesa de alguns, que liberdade e Constituição não sejam apenas conceitos vagos e frágeis, usados falsa ou superficialmente em espaços onde a democracia não seja, de fato, uma ideia perseguida. Ou pior, adotadas como máscaras de realidade de poder de uns sobre muitos. É preciso ressignificar as palavras e repensar fórmulas de reconexão com o que toca as pessoas, além do imediatismo.

O filme de Petra não é ficção, é nosso aqui e agora, simboliza parte do que nos trouxe ao ponto da história em que estamos, e como tal, não pode ser visto de forma contemplativa ou derrotista. A alteração do centro de equilíbrio exige um foco à frente. A vertigem que nos cerca os dias não pode nos impelir à apatia e ao medo, porque coragem e solidariedade são os primeiros grandes sintomas de resistência ao domínio consentido. Ao reproduzir, como muitos, a ideia de que travamos uma luta entre civilização e barbárie, não podemos traduzir em rejeição pela esperança, ou seremos consumidos pela engrenagem e nos adaptaremos, fatalmente, à nova realidade. Resistência é a palavra.

Edição: João Paulo Soares