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Bolsonaro: Se o presidente da OAB quiser saber como o pai dele desapareceu, eu conto

Declarações do presidente da República também questionam atuação da Ordem dos Advogados do Brasil: "O que é a OAB?"

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Jair Bolsonaro (PSL), durante visita ao Comando de Operações Especiais do Exército Brasileiro, em Goiânia. / Foto: Isac Nóbrega/PR

Jair Bolsonaro (PSL), presidente da República desde janeiro deste ano, reclamou da atuação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na investigação do caso da facada que supostamente teria recebido de Adélio Bispo, ainda antes das eleições presidenciais de 2018.

"Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados (de Adélio)? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?", disse o mandatário, referindo-se a um boato de que a OAB teria atuado para proteger o sigilo telefônico de Adélio.

Em sua declaração, Bolsonaro aproveitou para atacar pessoalmente o presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz, cujo pai desapareceu durante a ditadura militar.

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”, afirmou.

Em nota, o presidente da OAB se manifestou sobre o caso e afirmou que a declaração de Bolsonaro demonstra "crueldade e falta de empatia". Santa Cruz apelou ainda para que o presidente informe o que sabe sobre "todos os demais desaparecidos":

"Se o presidente sabe, por 'vivência', tanto sobre o presente caso quanto com relação aos de todos os demais 'desaparecidos', nossas famílias querem saber".

Felipe tinha dois anos de idade, quando o pai Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira foi preso por agentes do DOI-CODI, em fevereiro de 1974. Fernando era estudante de direito, funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica em São Paulo e militante da Ação Popular Marxista-Leninista.

"Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar nas conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio desaparecer no Rio de Janeiro”, declarou Bolsonaro.

Não há, entretanto, provas de que Fernando tivesse envolvimento com a luta armada. No relatório da Comissão da Verdade, consta que ele tampouco era considerado “clandestino” ou “foragido”: tinha endereço e emprego fixos.

Após a prisão, o Exército negou reiteradamente estar de posse de Fernando. A família nunca desistiu da busca. 

O texto da Comissão da Verdade cogita que Fernando pode ter sido sepultado como indigente no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo (SP). Outra hipótese levantada pela comissão é de que ele teria sido encaminhado à chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), e seu corpo posteriormente incinerado em uma usina de açúcar.

Um depoimento do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra – publicado no livro "Memórias de uma guerra suja", de Rogério Medeiros e Marcelo Netto – confirma que o corpo de Fernando foi incinerado no forno de uma usina de açúcar em Campos.

Adélio

Sobre o fato de não ter recorrido no processo da facada, Bolsonaro disse que "Adélio se deu mal". "Se eu recorresse, ele seria julgado não por homicídio, mas tentativa de homicídio, em um ano e meio ou dois estaria na rua. Como não recorri, agora é maluco o resto da vida. Vai ficar num manicômio judicial, que é uma prisão perpétua. Já fiquei sabendo que está aloprando por lá. Abre a boca, pô", declarou.

O caso foi encerrado pela 3ª Vara Federal de Juiz de Fora após Bolsonaro e o Ministério Público terem deixado de se manifestar. O presidente foi intimado no dia 28 de junho sobre a decisão e não recorreu.

Edição: Rodrigo Chagas