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Dercy, a líder acreana que venceu a ditadura militar e a “ditadura dos homens”

Primeira mulher a presidir o sindicato de trabalhadores rurais em Xapuri fala de seus 40 anos de luta política e social

Brasil de Fato | Xapuri (Acre)

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"É a consciência de classe que movimenta a gente e nos dá a disposição e o entendimento de que a gente tem o dever de fazer a nossa parte" / Foto: José Alves

Ainda que estudos históricos registrem a presença e a liderança de mulheres no movimento de trabalhadores brasileiros desde o século 19, no campo, tradicionalmente mais conservador, essa conquista chegou mais tarde. Mas a seringueira Dercy Telles foi eleita presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no Acre, em 1981.

O pioneirismo de Dercy se deu num momento que o Brasil vivia ainda sob ditadura militar, líderes comunitários eram assassinados com frequência e poucas pessoas ousavam se candidatar. Mesmo assim, a assembleia que a elegeu teve a participação de mais de 1000 dos 3000 associados.

“Eu sempre acreditei na sina, o casamento e a mortalha no céu se talha. Me fizeram a proposta, topei e cumpri o mandato”, afirma a líder, hoje com 65 anos, em entrevista ao Brasil de Fato.

Dercy nasceu no seringal Boa Vista, no município de Xapuri. Filha de pai piauiense, que migrou para o Acre para ser seringueiro, e mãe acreana, a segunda filha do casal tem algumas memórias marcantes da infância vivida numa região alagadiça, que ilhava a família nas temporadas de chuva (o inverno amazônida).

“Meu irmão tinha 8 anos e ia para o roçado com a minha mãe. Eu tinha 4 anos e ficava com minha irmã de 1 ano dentro de uma rede no alto da casa porque lá tinha muita onça. E a minha irmã ficava indignada e me mordia e beliscava porque queria sair da rede. Eu tinha que segurá-la até minha mãe chegar porque se ela caísse da rede, morria!”

Na mesma época, a família mudou da Gleba B para a Gleba A do seringal Boa Vista, onde Dercy vive até hoje.

“Moro aqui desde março de 1959. No dia da audiência do usucapião, o juiz me perguntou como eu sabia disso porque, na época, eu tinha 4 anos. Mas eu sabia porque meu pai era um dos raros seringueiros que faziam diário e anotava todos os dias o que acontecia. E é por isso que tenho essa informação, estava no diário dele que, infelizmente, se corroeu com o tempo pela falta de local adequado para ser guardado”.

Quando o pai faleceu, ela passou a ser, em suas palavras, a “chefe da casa”, o que fez com que a comunidade a admirasse pela responsabilidade assumida. Pouco depois, tornou-se animadora de evangelização da teologia da libertação, onde iniciou militância popular e sindical.

Em 1982, Dercy foi educadora popular na primeira escola da zona rural no Acre. Fazia parte do Projeto Seringueiro, cujo modelo de alfabetização de jovens e adultos era baseado na proposta de Paulo Freire. Foi também uma das fundadoras do Centro dos Trabalhadores da Amazônia, em 1985. No mesmo ano participou do Encontro Nacional de Seringueiros, em Brasília, que cunhou a proposta do que conhecemos como reserva extrativista, além de ter participado da fundação do Conselho Nacional dos Seringueiros da Amazônia, que tinha como objetivo propor políticas para o extrativismo.

Estas articulações garantiram a criação, em 1990, da Reserva Extrativista Chico Mendes, que compreende uma área de quase um milhão de hectares, abrange sete municípios e reúne cerca de 10 mil pessoas. A reserva garantiu, por muitos anos, a vida dos extrativistas na área. Numa reserva extrativista, as famílias organizam a extração e a comercialização da borracha e da castanha, plantam suas roças e criam animais, para o próprio consumo e para comercialização.

Contemporânea de Chico Mendes – assassinado em Xapuri em 1988 – a trajetória de Dercy é marcada por coragem, ousadia e coerência. Mesmo aposentada, segue conscientizando as novas gerações para que lutem pelos direitos dos camponeses da região amazônica. Segundo ela, é a permanência das comunidades extrativistas na floresta que consegue barrar o avanço do agronegócio e, consequentemente, o avanço do desmatamento.

Leia a seguir trechos da entrevista:

Brasil de Fato: Como a senhora iniciou a sua trajetória de militância?

Dercy Teles: 
Minha mãe era daquelas mulheres bem comuns, daquelas que chamam ‘do lar’, que só sabiam cuidar da casa e fazer os serviços domésticos. E o meu irmão mais velho é alcoólatra. Quando meu pai morreu, em 1974, esse vício do alcoolismo se agravou mais ainda. Então eu tive que virar chefe da casa. Com essa minha postura eu era vista com um certo respeito pela comunidade.



Quando a teologia da libertação chega à Xapuri, a minha primeira participação no movimento popular foi como animadora do grupo de evangelização. A partir daí, fui eleita delegada da delegacia sindical da comunidade e, posteriormente, em agosto de 1981, fui eleita presidente do sindicato pelo período de um ano.

Eu estava concluindo o mandato do presidente fundador porque naquela época pelego não se sustentava. Se os trabalhadores desconfiassem de que o líder estava cometendo algum desvio de conduta, eles o expulsavam. Assim, o presidente fundador foi destituído por ser acusado de estar traindo a classe, fazendo negociação inescrupulosa com os fazendeiros e se beneficiando. O mandato era de dois anos e eu concluí o mandato de um ano que ainda faltava, que foi de agosto de 1981 a agosto de 1982.

Como foi o processo para a escolher do seu nome como candidata à presidência do sindicato?

Estávamos no auge da ditadura militar, no tempo das matanças dos líderes comunitários. Ninguém queria ser presidente de sindicato por ter medo de ser morto. Mas eu sempre acreditei na sina, de que o casamento e a mortalha no céu se talha. Me fizeram a proposta da candidatura e eu topei. Cumpri o mandato e o pessoal queria que eu concorresse para o segundo mandato completo. Mas eu sempre fui contra a concentração do poder. Acho que o poder tem que ser socializado, pois com poder você adquire muita informação e a informação é uma faca de dois gumes; o uso dela depende da conduta do indivíduo. Então eu sempre achei que tem que se dar oportunidade pra outras pessoas estarem no poder, até pra você saber quem é quem no decorrer da história.

Você foi presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri em 1981. Imagino que naquela época a situação eram muito mais complicadas do que agora para uma mulher com um cargo desses numa área rural….

Naquela época, além de se viver a ditadura militar a gente também vivia a ‘ditadura dos homens’. Não era comum mulher nem ser sócia do sindicato, imagina presidente! Nas reuniões regionais, acho que participavam presidentes de uns 18 ou 19 sindicatos municipais e o único que tinha mulher na presidência era o de Xapuri. Então eu passei por alguns constrangimentos.

Havia alguns homens que tomavam umas cachaças no boteco e iam lá na sede do sindicato fazer provocação. ‘Eu não quero que essa mulher assine meu documento, a minha carteira de sócio. Eu quero que seja assinada por um homem’.

Nas reuniões, os homens me assediavam, metiam a perna debaixo da mesa pra mexer comigo. Eu tinha que levantar, tomar um copo d'água, mudar de lugar pra não causar constrangimento.

A experiência de vida me ensinou que para eu me impor diante dos homens eu teria de ter informação, num nível igual ou maior do que o deles para poder participar dos debates, propor e contestar quando fosse necessário. E foi assim que consegui ser muito respeitada pelos camaradas, conseguimos conviver harmoniosamente. Mas na hora que precisava brigar, brigava!

Como você vê a luta pela terra nos anos 1980 no Acre?

Naquela época, as terras estavam sendo ocupadas por latifundiários que vinham do centro-oeste e sul do país pra desenvolver a pecuária intensiva. Mas as pessoas tinham disposição pra lutar e conseguiram barrar o desmatamento e forçar a instituição da reserva extrativista Chico Mendes que tem um total de 970.570 hectares. As pessoas buscavam a própria libertação e a gente conseguiu garantir a manutenção da maioria dos seringueiros nas suas colocações. Porém não houve sabedoria suficiente pra que se trabalhasse a questão da sustentabilidade. Naquela época era o extrativismo da borracha e da castanha. Na nossa cabeça a gente nunca imaginou que um dia o mercado da borracha nativa se fechasse.

Qual o motivo de não imaginarem que a borracha ou a castanha poderiam ficar com preço muito baixo?

A gente não entendia a lógica do sistema capitalista. Então pensava-se em garantir a posse da terra e, tendo a posse da terra, da colocação, com as estradas de seringa e os castanhais, a vida estaria resolvida porque até aquela época a gente sobreviveu desse tipo de atividade. A gente não tinha nem noção do que era o capitalismo, do que isso significava. Tinha gente que falava Deus quer assim, vamos se conformar.

E com a formação política que a gente recebeu, a gente foi acordando pra realidade, a se interessar pra ler os materiais que tratavam do sistema, o que é esquerda, direita, centro, o que isso significa pras nossas vidas e assim a gente foi caminhando até os dias atuais.

Como está a situação para os trabalhadores atualmente, em especial com o novo governo federal?

O governo atual fala que o Estado do Acre só vai se desenvolver se investir no agronegócio. E a gente sabe que o agronegócio não combina com sustentabilidade, que agronegócio e a sustentabilidade ambiental seguem caminhos diferentes. Sofremos muitas ameaças e as pessoas não têm noção do que isso significa para a vida da população amazônida e até do próprio planeta, porque a amazônia é o pulmão do mundo. E a maior floresta do mundo, a maior reserva de água doce do mundo estão indo pro brejo porque na lógica do capitalismo não há limites para a exploração. E as pessoas não estão se dando conta do que está acontecendo e nem querem ouvir falar a respeito.

A gente tenta sensibilizar a juventude nas universidades, fazer esse debate para que os jovens assumam o comando dessa luta, em defesa da Amazônia, da reserva extrativista, no caso do Acre, porque a reserva não é do governo A nem do governo B, a reserva é uma propriedade coletiva, do Brasil. Cabe a qualquer brasileiro fazer a defesa da preservação dela.

A senhora está aposentada, mas continua ativa, dando palestras em universidades e outras instituições. De onde a senhora tira forças para continuar na luta?

Em primeiro lugar, acredito que existe um poder supremo que nos dá essa força. A outra é o conhecimento de causa. É a consciência de classe que movimenta a gente nos dá a disposição e o entendimento de que a gente tem o dever de fazer a nossa parte.

Edição: João Paulo Soares