CRISE

Desemprego: sem amparo federal, Pernambuco vive incerteza sobre futuro

Fim dos investimentos federais, recuo da indústria e reforma trabalhista pesam

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Em dezembro de 2018 já eram mais de 650 mil desempregados, um índice superior aos 15% da população / EBC

Os índices de desemprego no Brasil continuam altos, desde 2015, com algumas oscilações, mas sem sinais concretos de melhora. Pernambuco não foge à regra. Do fim de 2018 até o primeiro trimestre deste ano o estado figurou entre as unidades federativas com maior número de demissões. Em dezembro de 2018 já eram mais de 650 mil desempregados, um índice superior aos 15% da população, de acordo com o IBGE. E este número segue piorando.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad contínua), já em 2019, o Brasil está com 12 milhões e 800 mil desempregados, número que cresceu desde janeiro, quando eram 12,2 milhões sem trabalho. Os "desalentados", parcela da população que está desempregada e que já desistiu de buscar emprego, segue aumentando desde janeiro e já são 4,9 milhões de brasileiros (ou 4,4% dos brasileiros em idade de trabalho). A população "subutilizada", que soma desempregados, desalentados e os que poderiam trabalhar mas não buscam emprego, equivale a 24,8% da população brasileira. Entre os jovens o desemprego atinge 31,9%.



Indústria da Cana

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, aponta que desde janeiro Pernambuco já perdeu 23 mil e 600 postos de trabalho. Grande parte das vagas fechadas - 16 mil e 800 - são resultado da entressafra da cana de açúcar, setor da economia que funciona de agosto a fevereiro, produzindo açúcar, bebidas derivadas da cana e o etanol. Mas outros setores também preocupam, como o subsetor de equipamentos para transportes, que no semestre fechou 2.276 vagas.

Os números revelam a representatividade da indústria da cana no nosso estado, localizado no setor da indústria de transformação e subsetor dos alimentícios, bebidas e álcool etílico. Só de janeiro a março deste ano foram mais de 15 mil demissões nesse setor, com 11.500 apenas em fevereiro, justamente o mês que marca o fim da safra da cana. Essas demissões colocaram o estado como líder de demissões no país. "A entressafra num momento como esse na história de Pernambuco talvez seja uma entressafra das que mais causa sofrimento. É uma situação de profundo empobrecimento num momento em que o Governo Federal nega qualquer tipo de assistência social", destaca o economista e cientista político Pedro Lapa. "É um momento dos mais brutais da nossa história para a classe trabalhadora da zona da mata", pontua.

Em abril e maio Pernambuco teve um respiro, com saldo positivo, respectivamente, de 425 e 1.700 vagas, com destaque para a construção civil, a própria indústria de transformação e o comércio. "Também vemos o setor de alimentação com uma recuperação grande. Mas isso pode estar associado ao período festivo, às festas juninas, com maior procura por alimentos, vestuário - que em abril apresentou saldo positivo, mas maio já voltou a ser negativo. Mas é algo sazonal, período festivo, que pode ter estimulado os empregos temporários, contratos curtos", alerta Andresa Lydia Lins, economista e analista de economia da Federação das Indústrias de Pernambuco (FIEPE). A oscilação negativa de junho, com fechamento de 253 empregos (-0,02%) confirma que o saldo de abril e maio foi algo pontual.

Dados

O segundo trimestre e o saldo do semestre apontam para uma lenta retomada da indústria da construção civil - crescimento de 725 vagas no semestre - e os serviços industriais de utilidade pública, como saneamento, energia elétrica e água - 543 novas vagas no semestre. Ambos os setores também têm saldos positivos em relação a junho de 2018. Preocupa o número de demissões no subsetor de material de transportes, com seguidas demissões. Só em junho foram 387 postos de trabalho fechados, somando 2.276 no semestre. No comparativo com junho de 2018 já são 4.255 empregos a menos. O subsetor dos alimentos, bebidas e álcool etílico tem 3.479 menos carteiras de trabalho assinadas em comparação com um ano atrás.

Pedro Lapa avalia que o estado dificilmente vai retomar o nível de empregabilidade de anos atrás. "Pernambuco tinha situação confortável até 2014, com as grandes obras. Se encerrou esse período e nenhuma nova iniciativa foi tomada", lamenta Lapa. O economista também destaca que o índice de desemprego no Brasil e no estado são reflexo da opção política feita nacionalmente a partir de 2016. "A partir de 2015 prevaleceu uma linha de ajuste fiscal, que é uma política de corte de gastos, uma opção pelo não-investimento", pontua.

Lapa também considera que a eleição de Jair Bolsonaro reforça a condução econômica do governo Temer. "Bolsonaro intensifica essa orientação, com a ampliação dos cortes nos investimentos públicos e a geração de um clima de absoluta incerteza com o avanço da incerteza das pessoas". O economista considera que esse modelo é prejudicial para o Brasil e ainda pior para o Nordeste. "É uma região que depende em maior escala dos investimentos públicos. É de se esperar que a região que mais sinta o impacto dos cortes de gastos seja a região que mais depende desse investimento público, que é o Nordeste", pontua.

Suape

A região do Complexo Industrial e Portuário de Suape é uma das que mais sentiu a recessão econômica. "A dinâmica do emprego industrial em Pernambuco estava em crescente em função do projeto industrial para o estado. Mas quando acontece o golpe de 2016 a Petrobras divulgou um novo plano de negócios em que o Nordeste não cabe no orçamento da empresa", destaca Pedro Lapa. "Isso teve efeito direto não só sobre a Refinaria Abreu e Lima, mas também sobre a Petroquímica Suape (PQS) e o Estaleiro Atlântico Sul. Quando esse tripé estava ativo ele exercia uma influência muito grande sobre os demais setores industriais, que conduzia a geração de emprego num rumo muito positivo", recorda.

A economista Andresa Lydia também não tem boas perspectivas para o setor naval do estado. "Desde o fim de 2018 vemos o Estaleiro num momento difícil. Temos uma capacidade instalada que está ociosa e o horizonte é incerto. No curto prazo não temos expectativa de novas encomendas para o setor. E se o setor não produz, temos demissões", lamentou a economista da FIEPE.

Na opinião de Pedro Lapa, a "paralisação do estaleiro" e a privatização da Petroquímica Suape (PQS) revelam o "desmonte de um projeto que garantia a dinâmica industrial do estado". Para construir a PQS a Petrobras investiu R$9 bilhões, mas em 2016 o governo Temer vendeu a empresa por apenas R$1,26 bilhão à mexicana Alpek. "O desemprego na indústria tem como primeira razão o desmonte do projeto industrial de Suape", avalia Lapa.

A cidade que mais perdeu carteiras assinadas no semestre foi justamente Ipojuca, que abriga parte do polo industrial de Suape e também é dependente da indústria da cana. Em um ano o município perdeu 3.600 postos de trabalho, uma perda de 13% comparado com junho de 2018). Em segundo lugar vem o Recife, com menos 3.210 carteiras assinadas (-0,64%), seguido pelo Cabo de Santo Agostinho (-635 empregos, ou -2,1%) e Olinda (-627, ou -0,9%). "Os estados e municípios também sofrem com cortes de gastos federais. O prefeito e o Governador têm cada vez menos instrumentos para contribuir para a geração ou manutenção do emprego. Então as atividades garantidas pelo poder público também estão se fechando", diz Pedro Lapa.

O economista também destaca estudo do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) sobre o impacto da Reforma Trabalhista, aprovada pelo governo Temer e pelo Congresso Nacional ainda em 2016 com a promessa de gerar mais empregos. "Os dados apontam que, aprovada a reforma trabalhista, o empregador demitiu um trabalhador que ganhava um salário mínimo e meio e contratou um trabalhador que passou a ganhar um salário. Demitiu trabalhadores que tinham mais proteção legal e passou a mobilizar trabalhadores sem a proteção", reclamou.

Perspectivas

Lapa também lembra que Pernambuco também depende muito das atividades de serviços, que, segundo ele, são as que mais rapidamente aderiram aos novos modelos de contrato viabilizados pela reforma trabalhista. "Então o efeito da Reforma Trabalhista em Pernambuco também tende a ser mais contundente que no geral do Brasil. Junta a redução do gasto público, a redução da massa salarial e o desmonte de uma política industrial que existia no estado e chegamos à situação atual", pontua.

Já Andresa Lydia se mostra mais otimista. "A gente começa a ver um cenário de retomada do crescimento do emprego e automaticamente também temos melhores resultados na produção", diz. Ela também destaca a chegada do segundo semestre, que deve fazer o índice de empregabilidade no estado subir, já que entre agosto e setembro o setor sucroenergético retoma o ciclo da cana com um novo período de moagem. "O efeito climático, já que tivemos bastante chuva distribuída entre janeiro e maio deste ano, favorece a recuperação da safra. A perspectiva é de uma produção maior em comparação com 2018. E isso deve se refletir no número de postos de trabalho criados pelas usinas", pontua.

A analista de economia da FIEPE também vê motivos para comemorar com o polo automotivo da Fiat em Goiana. "O setor automotivo vem permitindo resultados positivos para o PIB estadual. Tivemos um primeiro trimestre superior ao PIB nacional e o polo automotivo tem permitido essa tendência de crescimento". Ela destaca ainda os setores de refino e têxtil. "Ao mesmo tempo vemos a retomada do refino de petróleo na Refinaria Abreu e Lima, o polo de bebidas e produtos de limpeza está bem fortalecido, assim como o setor têxtil. Pernambuco está cada vez mais se reindustrializando", avalia Andresa Lydia.

Menos otimista, Lapa destaca algumas opções dentro das próprias teorias do liberalismo que podem ajudar a retomar o crescimento econômico com geração de empregos. "Um caminho é reconhecer a importância do papel do Estado e reconhecer que o investimento público é estratégico, algo que está escrito desde os anos 1940, por Keynes. Mas as mudanças que o Governo Federal está fazendo fortalecem o Estado ou fragilizam? No meu entendimento fragilizam. Ele está tirando o Estado do tabuleiro", reclama o economista.

Ele considera importante que os nove estados do Nordeste tenham eleito governadores que não compactuam com a agenda econômica de Bolsonaro, mas vê dificuldade para os gestores estaduais garantirem proteção social à população. "Eu não conheço nenhum estado do Brasil que esteja com suas finanças em dia. No Nordeste temos vários governos eleitos com esse compromisso de preservar e promover o emprego, mas os governos não têm orçamento que permita grandes ações nessa área do emprego", lamenta. "Hoje não temos mecanismos para enfrentar essa situação e nem para modificá-la. Na minha avaliação estamos num momento ruim, com desemprego alto, e os governos federal, estaduais e municipais, ou não podem ou não querem e nem estão empenhados em enfrentar essa situação", alerta.

Edição: Monyse Ravenna