REGISTRO

Documentário resgata a memória das matriarcas do Aglomerado da Serra, em BH

Construção da maior favela da capital mineira teve participação ativa das mulheres

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

,

Ouça o áudio:

Filme compartilha histórias da batalha pela vida digna / Luísa Nonato / Divulgação

Senhoras que vivem no Aglomerado da Serra, a maior favela de Belo Horizonte, contam suas trajetórias de vida no filme ensaio “Matriarcas da Serra”, que está em fase de preparação e será lançado no final deste ano na capital mineira.

Por meio de entrevistas individuais, o filme reúne relatos particulares – que acabam compondo experiências coletivas – de mulheres, em maioria negras, que construíram e constroem a comunidade.

Elas compartilham histórias de luta para criar os filhos e a família, para trabalhar fora de casa, para lidar com o abandono de seus parceiros, para exercer funções que eram delegadas aos homens, para erguer suas casas, para ter comida, luz, água, saúde… Contam as boas lembranças de dançar carnaval quando criança, de "afinar as canelas" no forró.

O projeto percorreu sete vilas (Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Conceição, Santana do Cafezal, Fazendinha, Novo São Lucas e Marçola). Foram ouvidas aproximadamente 11 matriarcas em cada parada. Como resultado, além do filme, vão nascer uma publicação com oito cadernos e vários lambes, que já estão sendo colados nos muros das comunidades.

Atrás das câmeras

"Eu trabalho com o resgate da memória da região desde 2008. Em 2017, dei início à iniciativa, junto a uma equipe de oito profissionais, já que identificamos que o pouco material que existe contando a história do aglomerado mostra o protagonismo masculino. As mulheres não aparecem", conta Simone Moura, mulher negra, produtora e uma das diretoras do filme.

Ela assina a direção junto com Gabriela Matos, diretora de fotografia e câmera ,e Nego Dê, diretor de roteiro. Junto ao trio, trabalha uma equipe majoritariamente composta por mulheres negras e moradoras da periferia de Belo Horizonte. A equipe do projeto é formada por Luísa Faria, assessora de imprensa e tradutora bilíngue, Luísa Nonato, pesquisadora e assistente de produção, Thiago Pacheco, assistente de roteiro, Afonso Pimenta, fotógrafo e pesquisador, Natalie Matos, câmera, montadora e design e Carol Lopes, protagonista do filme.

A comunicadora explica que foi feito um mapeamento dos locais onde as mulheres das comunidades costumam ocupar para realizar as exibições do longa. Por esse motivo, o produto será divulgado em centros culturais, associações, creches e Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).

Mudar o futuro

A ideia é, ainda, reproduzir o “Matriarcas da Serra” em escolas para inspirar gerações mais novas e incentivá-las a tomarem consciência da realidade que as antecederam.

"Não saber, não reconhecer que essas histórias existem é uma forma de genocídio. É preciso estimular o interesse por essas narrativas. Quando você vai em arquivos públicos e encontra documentos sobre a favela, eles quase sempre a colocam como o antro da criminalidade e da imundice. A gente apresenta a favela pelo olhar da luta por direitos e, infelizmente, essas experiências não estão nas matérias dos jornais”, analisa Simone.

Parte do material colhido nas entrevistas já está sendo compartilhado com o público na página do projeto. Para saber detalhes sobre o lançamento e acompanhar a vivência das mulheres, acesse: facebook.com/matriarcasdaserrabh.

Edição: Joana Tavares