OPOSIÇÃO VIOLENTA

O que as investigações revelam um ano depois do atentado a drone contra Maduro

31 pessoas foram presas e 53 são investigadas por tentativa de assassinato do presidente venezuelano

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela) |

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Alguns empresários venezuelanos, residentes nos Estados Unidos, foram apontado pelas investigações como financiadores do atentado
Alguns empresários venezuelanos, residentes nos Estados Unidos, foram apontado pelas investigações como financiadores do atentado - Marcos Salgado/Xinhua

Um ano depois do atentado a drone contra o presidente Nicolás Maduro, muitas perguntas ainda estão sem respostas. O episódio ocorreu no dia 4 de agosto de 2018, no evento de aniversário da Guarda Nacional Bolivariana, na avenida Bolívar, no centro de Caracas.

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As investigações apontam mais de 53 envolvidos no crime, dos quais 31 foram presos, sete estão em liberdade condicional e outras 15 estão foragidos, segundo informações do Ministério Público.

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Entre os acusados estão dois deputados opositores: Julio Borges e Juan Requesens, do partido Primero Justicia. Requesens, que está preso, confessou sua participação, disse à polícia que ajudou um dos líderes da equipe que manipulou os drones a atravessar a fronteira da Venezuela com a Colômbia, a pedido de Júlio Borges, que nesse momento era líder de seu partido. Atualmente, Borges está na Colômbia, na condição de foragido da Justiça venezuelana e nega qualquer participação no atentado.

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No entanto, os mandantes do atentado ainda não foram todos identificados. Alguns dos acusados afirmam que os "cheques de pagamento vinham de Miami", nos Estados Unidos. Alguns empresários venezuelanos, residentes nos Estados Unidos, foram apontados pelas investigações como financiadores do atentado, entre eles estaria Osman Alexis Delgado Tabosky, proprietário de canal de televisão regional do estado venezuelano de Carabobo e empresas no setor imobiliário em Miami. Tabosky e sua irmã já haviam sido acusados de participação no planejamento do assalto do Fuerte Paramacay, em agosto de 2017. Outros empresários estão sendo investigados e o caso do atentado a drone ainda está em aberto.

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O presidente Maduro voltou a apontar o envolvimento de políticos colombianos no atentado, durante um discurso no último domingo (4). “Vinham atacar a mim, mas não somente a mim, também o povo, nossa pátria. Queriam apunhalar a paz e a soberania do país. Mas ressurgimos como a ave Fênix, das próprias cinzas, e estamos aqui de pé, vitoriosos, hoje mais que nunca”. No ano passado ele já tinha mencionado o envolvimento de altos funcionários do governo colombiano e de grupos paramilitares.

Detalhes do atentado

O dia estava calmo e o evento ordenado. O presidente fazia um discurso quando foi interrompido por uma explosão. Após alguns segundos de silêncio, escuta-se outra explosão. Os alvos do primeiro atentado a drone contra um chefe de estado eram o presidente Nicolás Maduro, os ministros de governo e a cúpula da Força Armada Nacional Bolivariana. 

“O objetivo era não apenas matar o presidente, mas também degolar o Estado porque ali estava o ministro da Defesa, a presidenta do Poder Eleitoral, o procurador-geral da República, a primeira-dama e a cúpula militar”, afirma o vice-ministro de Comunicação, do Ministério de Relações Exteriores da Venezuela, Willian Castillo.

O jornalista argentino Marcos Salgado, da agência de notícias chinesa Xinhua, estava há 20 metros do palco do evento. Enquanto todos corriam em pânico, o jornalista só pensava em uma coisa: manter a câmera disparando fotos. São dele as fotos que rodaram o mundo, entre elas, aquela em que o presidente Maduro é protegido pelos guarda-costas (ver abaixo).

Militares protegem presidente no momento da explosão do drone | Foto: Marcos Salgado

Marcos relata que "quase por instinto", no momento da explosão, ele levantou a câmera a começou a registra tudo. “Não saberia dizer porque levantei a câmera para fazer as imagens do presidente, justamente no momento em que começam a cobrir o presidente [com coletes a prova de bala]. Creio que foi o instinto, saber que algo estava acontecendo e que de alguma maneira tinha que documentar’.

A jornalista venezuelana, Mariela López do canal internacional do Irã, Hispantv, estava filmando o ato. No momento das explosões ela agachou, sustentou o tripé e deixou a câmera gravando o que estava passando no palco. Mariela e Marco foram os únicos jornalistas que registraram os fatos.

Sete militares ficaram feridos com a primeira explosão. Já o segundo drone, que caiu ao lado de um edifício residencial chamado Don Eduardo, a 400 metros do palco, e atingiu uma criança que foi internada em estado grave, mas sobreviveu.

Os drones utilizados foram os modelo DJI M600, utilizados em produções de cinema e televisão, assim como no setor industrial, justamente pela capacidade de carregar peso. Cada uma das aeronaves não tripuladas carregava um quilo de explosivo do tipo C4.

Um especialista consultado pelo Brasil de Fato, que pediu para não ser identificado, explicou as características desse tipo de bomba. “Esse explosivo C4 é usado tanto para fins bélicos como no setor de construção e mineração, para a implosão de grandes estruturas. É o explosivo mais potente disponível no mercado. Além disso, por ser plástico é facilmente moldável e só explode se for acionado por um detonador”, diz o especialista, que garante: “nem mesmo um disparo a bala seria capaz de perfurar e acionar esse tipo de explosivo. Seguramente eles foram detonados”.

Os drones puderam sobrevoar graças à colaboração do ex-chefe de comunicações da Guarda de Honra Presidencial, Ovido Carrasco Mosqueda, que manteve os inibidores de sinais desligados, o que não é comum em eventos presidenciais na Venezuela. Ele foi preso e confessou que foi recrutado pelo deputado Júlio Borges para participar do plano .

Segundo apurado pelas investigações, alguns militares identificaram visualmente os drones, estranharam a presença dos objetos voadores e ativaram os inibidores de sinais. Isso fez com que os drones começassem a falhar e perderam altura. Nesse momento foram detonados pelos pilotos. Dentro dos drones os investigadores encontraram projéteis de chumbo, que ao explodirem, são lançados como projetéis contra os atingidos.

Foram os vizinhos do edifício Don Eduardo que identificam os primeiros suspeitos. A investigação aponta que os moradores da região cercaram dois homens e os detiveram nas proximidades do edifício onde o segundo drone foi detonado, até a chegada da polícia.

No carro dos suspeitos foram encontrados celulares e um tablet usado para pilotar drones. Dos aparelhos eletrônicos foram retiradas fotos do lugar onde realizaram o treinamento e mensagens trocadas entre os integrantes do grupo. Isso permitiu o desenvolvimento rápido das investigações.

O presidente Nicolás Maduro, poucas horas depois do atentado, fez uma declaração em rede nacional de televisão louvando os esforços das forças de segurança. “A mim me protege Deus, mas aqui na terra quem me protege é o povo e a Força Armada Nacional Bolivariana”, disse.

Logo nos primeiros minutos foram ativados mais de 80 pontos de controle da polícia e do exército dentro da capital venezuelana, conta o ministro do Interior, Justiça e Paz, Nestor Reverol. Foi assim que foram presos os primeiros suspeitos, menos de 10 minutos após as explosões. Um deles era um dos chefes da quadrilha: Juan Carlos Monasterio. Foi ele quem apontou pela primeira vez a participação dos deputados opositores na operação para matar o presidente.

Para o vice-ministro Willian Castillo a opção de assassinar o presidente Maduro, para derrotar o governo, ainda está sobre a mesa. “Entre as opções que considera o imperialismo, acabar com a vida do presidente, continua sendo uma delas, porque politicamente e eleitoralmente não puderam derrotá-lo”, destaca Castillo.

Papel de dos meios de comunicação

No primeiro momento, os principais meios de comunicação do mundo colocaram em dúvida a veracidade do atentado contra o presidente da Venezuela. Muitos deles preferiram utilizar o termo “suposto atentado” por mais de sete meses, mesmo diante provas contundentes apresentadas pelas investigações.

A jornalista Mariela López contou o que viveu naquele dia. “Após o breve momento de confusão, sabíamos que era um ataque. Havia muitas especulações e mentiras nas redes, mas insistimos que havia sido uma tentativa de assassinato. Nós vimos, ouvimos, sentimos no corpo e testemunhamos a movimentação da segurança. Nada disso poderia ter sido preparado. A imagem do rosto do presidente fala por si. Ele não sabia o que estava acontecendo”, descreve em uma entrevista recente ao jornalista francês, Romain Migus.

No momento da explosão do drone o presidente fazia um discurso | Reprodução vídeo: VTV

A postura dos meios só começaram a mudar quando a cadeia de televisão CNN, dos Estados Unidos, publicou uma reportagem, em março desse ano, em que entrevista um dos integrantes do grupo acusado de planejar o atentado onde revela todo o plano. O entrevistado não teve o nome revelado.

Os canais da CNN em inglês e espanhol mostraram vídeos da chácara Atalanta, onde foram realizados todos os treinamentos com os drones, no município de Chinácota, departamento de Norte de Santander, na Colômbia. O local fica a uma hora da cidade de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela.

“A CNN obteve novos vídeos que fornecem uma perspectiva assustadora do misterioso ataque de drones, no ano passado, contra o presidente Nicolás Maduro”, dizia a reportagem que publicou a emissora, na qual aparece a entrevista de um homem que afirmou ser um dos organizadores do ataque que, segundo ele, foi executado por um grupo de desertores do Exército venezuelano, junto com outras pessoas.

A partir desse momento, os demais meios reconheceram a existência de um atentado, que havia sido planejado fora da Venezuela. O jornalista peruano, Jaime Bayly, apresentador de um programa de TV em um canal de Miami e ferrenho crítico de Maduro também disse, na semana do atentado, que sabia do plano para assassinar a Maduro. “Fui convidado para uma reunião [em Miami, EUA]. Chegando lá me disseram: sábado vamos matar Maduro com um drone. Testamos os drones em Caracas, funcionam. E eu lhes disse: faça isso”.

A premiada jornalista da Telesur, Madelein García criticou a postura da imprensa internacional. “Foi vergonhoso o papel dos meios de comunicação nesse momento”, afirma. Para o vice-ministro, William Castillo, ainda hoje eles negam os fatos. “Muitos tentam ocultar que isso aconteceu”.

García afirma que o meios internacionais tentaram legitimar o atentado contra o presidente venezuelano. “A CNN entrevista um dos suspeitos, mas o que está por trás de tudo isso é a ideia que estão semeando, de que os fins justificam os meios. A reportagem induz a ideia de que tentaram assassinar o presidente Maduro e os chefes militares porque eles merecem”, ressalta a jornalista

Além disso, a CNN mostrou em sua reportagens imagens de treinamentos que já haviam sido divulgadas pelo governo da Venezuela no início da investigação. Isso aconteceu também no dia 23 de fevereiro, com a suposta ajuda humanitária, quando partidários de o líder opositor Juan Guaidó queimaram caminhões com alimentos. O canal de notícias Telesur, com sede em Caracas, assim como o Brasil de Fato, mostraram essas imagens na mesma semana em que os fatos ocorreram. Porém, a imprensa internacional só divulgou a informação quando jornal New York Times publicou uma reportagem sobre o tema, mais de quatro semanas depois.

Apesar de boa parte da imprensa questionar a veracidade do ataque, o episódio provocou mudanças nos protocolos de seguranças de diversos presidentes, até mesmo alguns mandatários nada bolivarianos, como é o caso de Sebastián Piñera do Chile, Iván Duque da Colômbia e até mesmo Donald Trump dos Estados Unidos, que proibiram o uso de drones em eventos oficiais com a presença desses chefes de Estado.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira