ÁSIA

Manifestantes ocupam saguão de aeroporto em Hong Kong; entenda onda de protestos

Atos tomaram o país desde que foi anunciado projeto de lei que permite extradição de cidadãos de Hong Kong para a China

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Os organizadores afirmam que a ocupação deverá durar até domingo, quando milhares de pessoas são esperadas para o fechamento do ato / Foto: Anthony Wallace/AFP

Centenas de manifestantes ocuparam nesta sexta-feira (9) o aeroporto internacional de Hong Kong, oitavo mais movimentado do mundo, no episódio mais recentes da série de protestos que atingiram a região desde o início de junho.

Os organizadores afirmam que a ocupação deverá durar até domingo, quando milhares de pessoas são esperadas para o fechamento do ato. A ação preocupa o governo local, que já sente as consequências econômicas das manifestações. 

O estopim foi um projeto de lei que permitiria que cidadãos de Hong Kong pudessem ser extraditados para a China e julgados conforme a jurisdição chinesa, que é diferente da normativa da ilha. 

O Brasil de Fato preparou tópicos que ajudam a explicar o que está acontecendo em Hong Kong. Confira:

“Um país, dois sistemas”

Durante quase toda a história, Hong Kong foi um território pertencente à China. No século 19, a ilha caiu em mãos britânicas como resultado da chamada Guerra do Ópio e de empreitadas imperialistas.

Incomodados com um certo protecionismo chinês, os britânicos resolveram explorar um produto de interesse do país asiático: o ópio. O comércio ilegal da droga gerava lucros para os britânicos e levou a uma epidemia do entorpecente na China, o que desagradou o governo local. 

Em resposta, os asiáticos ordenaram, em 1839, que carregamentos da droga fossem destruídos. A ação serviu como a desculpa para que a China fosse invadida. O conflito durou até 1842, sendo encerrado com a assinatura do Tratado de Nanquim, que exigia, entre outras coisas, que o país asiático pagasse somas enormes em forma de indenização e cedesse Hong Kong ao império britânico. 

A ilha se converteu em um grande centro comercial inglês em plena Ásia. Em 1898, a Inglaterra arrendou Hong Kong por mais 99 anos. Terminado o contrato, em 1997 a ilha voltou a ser território chinês, sob status político de “Região Administrativa Especial Chinesa”. 

Pelo acordo, Hong Kong pode ter sistema econômico próprio até 2047. O sistema jurídico do território será mantido, assim como as liberdades civis. Em resumo, a ilha voltou a ser parte da nação asiática sob a política de “um país, dois sistemas”

Lei de extradição

O projeto de lei que permitiria que cidadãos de Hong Kong fossem extraditados e julgados segundo as normas chinesas desagradou os moradores da ilha, que viram uma quebra da autonomia garantida à região.

Segundo o coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais e Diplomacia Corporativa da ESPM, Alexandre Uehara, a diligência gerou descontentamento porque os cidadãos de Hong Kong não querem que a China aumente sua influência na região.

“Essas manifestações vêm dessa sensação da população de que a China está buscando ampliar sua influência. E a população não quer isso. Uma das coisas que a gente percebe é que principalmente os jovens, apesar de serem chineses, têm uma identidade muito influenciada por esse período em que a área foi colônia da Inglaterra”, afirma. 

Para o pesquisador, as reações ocorrem por medo de que “eventualmente a população fique mais submissa, mais ao alcance jurídico da China continental. Isso é algo que eles não querem, porque nesse momento Hong Kong tem seu próprio sistema jurídico, que é independente”. 

Com as manifestações, o governo de Hong Kong acabou por recuar, suspendendo, em 15 de junho, o projeto de lei. A medida, no entanto, não diminuiu os protestos, que passaram a pedir a renúncia da chefe executiva, Carrie Lam, que ocupa o posto mais alto da ilha.  

Os atos foram os maiores da história recente da China. Alguns dos protestos atingiram a marca de dois milhões de pessoas nas ruas, segundo os organizadores. Hong Kong ainda registrou uma greve geral, que ocorreu na última segunda-feira (5), e paralisou setores da construção civil, propaganda, aviação, financeiro, entre outros. 

Descontentamentos antigos

Chefe executiva desde 2017, Lam não foi eleita diretamente pelos cidadãos de Hong Kong. Embora a lei básica (documento com valor de Constituição) determine que a meta final é que o executivo e todos os legisladores sejam escolhidos pelos eleitores, isso ainda não ocorre em Hong Kong. 

Em 2007, o então presidente chinês Hu Jintao chegou a marcar eleições para 2017, mas elas não ocorreram. 

Antes, em 2014, a China chegou a apoiar a realização de eleições locais, desde que os candidatos fosse escolhidos pelo poder central. A imposição levou a uma série de protestos, conhecidos como Movimento Guarda-Chuva, com duração de três meses.

Por fim, a maior parte dos legisladores de Hong Kong barrou a possibilidade de eleições na ilha. Os chefes do Executivo ainda são escolhidos por um comitê supervisionado por Pequim. Além disso, cerca de 50% do legislativo é composto por representantes de setores profissionais, e não de eleitores. 

Reflexos na economia e violência

Mesmo com os diversos impactos das manifestações na economia – o que inclui uma queda significativa na indústria do turismo –, Lam afirmou que não fará concessões aos manifestantes. 

Segundo Uehara, “as empresas, algumas delas, tiveram que ficar fechadas durante as manifestações. Tudo isso vai dificultando a realização de negócios na região. Isso é ruim. Então Hong Kong sofre com essa situação. A China também”, conta. 

O professor acredita que o governo não atendará as reivindicações.

“Se o governo chinês cede agora, isso acaba criando precedentes. Imagina se cada província ou região começasse a reivindicar mais autonomia. Isso criaria um grande problema para a China. Creio que seria um grande problema ao governo fazer as concessões que Hong Kong pede”, diz.

A polícia prometeu que estaria pronta para controlar os distúrbios “intoleráveis”. A repressão às manifestações já soma centenas de prisões por motim, crime que em Hong Kong pode resultar em uma pena máxima de 10 anos de prisão. 

“A nossa maior preocupação agora para quem está acompanhando a situação é a escalada de violência. Isso requer mais atenção e é preocupante pra gente. Tanto pela parte governamental quanto pela parte da população”, conclui Uehara. 

Edição: João Paulo Soares