PETROBRAS

Privatização pode provocar greve dos caminhoneiros

Quem ganha e quem perde com a privatização pretendida da Petrobras? Confira entrevista com Paulo César Ribeiro Lima

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

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"Maiores custos vão inviabilizar reduções de preços de gasolina, diesel, GLP, entre outros, nas refinarias" / Foto: Divulgação Petrobras

Quem ganha e quem perde com a privatização pretendida da Petrobras? Como vão ficar os caminhoneiros e todo o setor de transporte rodoviário que se move com a energia do diesel? E os demais motoristas? E os preços – já tão altos – do gás de cozinha? 

O consultor Paulo César Ribeiro Lima ajuda a esclarecer estas questões. Doutor em engenharia, ele trabalhou na Petrobras na área de tecnologias para exploração de petróleo em águas profundas. Hoje, presta consultoria a empresas e organizações no ramo de energia. Aqui, diz o que podemos esperar.   

Paulo: "Privatização representa a perspectiva de greve dos caminhoneiros assim que o valor internacional do petróleo ultrapassar US$ 75 por barril" / Foto: Agência Câmara

Brasil de Fato RS: O governo Bolsonaro quer vender a Petrobras. Do ponto de vista do consumidor, isto seria bom ou ruim?

Paulo César Ribeiro Lima: Seria muito ruim. A Petrobras representa um baixo custo de matéria-prima, de refino e de logística. Os eventuais compradores de ativos da Petrobras, além de terem que pagar pelos ativos, vão ter custos operacionais muito mais elevados. Esses maiores custos vão inviabilizar reduções de preços de gasolina, diesel, GLP, entre outros, nas refinarias.

BdF RS: Qual seria o prejuízo dos transportadores e caminhoneiros?

Paulo: Preços mais altos. E indexados às flutuações no mercado internacional. Além disso, as perspectivas são de que tarifas portuárias, de fretes e altas margens de lucro sejam acrescentadas aos preços. 

BdF RS: Como explica que o Brasil trafegue na contramão dos grandes produtores mundiais, que não admitem vender suas petroleiras?

Nem nos EUA estão sendo aplicados os conceitos ultraliberais como aqui. Vai ser um desastre. Estatais são fundamentais em todos os países exportadores. É o caso do Brasil, principalmente depois do Pré-Sal, cuja produtividade é maior do que na Arábia Saudita, onde há monopólio estatal. O que estão fazendo com a Petrobras é crime de lesa-pátria.

BdF RS: Para muita gente, a corrupção quebrou a Petrobras. Foi isso mesmo?

A Petrobras nunca esteve quebrada. Sua dívida sempre foi perfeitamente pagável, em razão das imensas receitas da companhia. São mais de R$ 300 bilhões por ano. Seu lucro operacional bruto é de R$ 90 bilhões/ano e a geração de caixa acima de R$ 100 bilhões/ano. 

BdF RS: No entanto, a Petrobras andou perdendo dinheiro nos últimos anos…

A Petrobras nunca andou perdendo dinheiro. A estatal sempre teve um lucro operacional bruto muito estável. Quando o preço do petróleo está alto, o segmento de exploração e produção garante altos lucros; quando está baixo, o segmento de refino, transporte e comercialização assegura o lucro. É uma empresa fantástica.

BdF RS: Desde sua implantação em 1953 a Petrobras foi atacada. Os setores que a agrediam nos anos 1950 são os mesmo que a agridem agora? 

Sim. É sempre a mesma visão ultraliberal de que o mercado vai resolver tudo. A Petrobras deve ser a única empresa (brasileira) que é referência mundial. Mas só chegou a ser referência por ser estatal e, atualmente, por descobrir o Pré-Sal. 

BdF RS: O governo já anunciou sua intenção de vender a Refap, de Canoas/RS e mais sete refinarias…

Os prejuízos não serão apenas da Petrobras. Se as oito refinarias forem privatizadas, seus compradores transferirão para os consumidores o custo das aquisições. Que é de US$ 15 bilhões, mas pode chegar a R$ 36 bilhões. Sem contar o custo das matérias-primas.

BdF RS: O que acontecerá, então, com os preços do diesel?

Haverá uma elevação dos preços. Atualmente, o custo médio de refino da Petrobras é de US$ 2,5 por barril; as refinarias e suas infraestruturas já estão amortizadas. Se as refinarias forem vendidas, os compradores terão que somar ao seu faturamento mais de US$ 1,65 bilhão a cada ano. E apenas para recuperar o capital investido. O custo de refino anual privado vai passar a ser de US$ 2,55 bilhões, o que representa um aumento de 183% no custo. 

BdF RS: E quanto à matéria-prima, o petróleo bruto?

Hoje, a Petrobras pode entregar seu petróleo na refinaria por um custo de US$ 48 por barril. Mas o preço internacional está em US$ 65. Logo, se as refinarias tiverem que de comprar o petróleo bruto por US$ 65, adivinhe quem vai ter que pagar a conta?

BdF RS: O presidente da Petrobras declarou que a empresa vai deixar de ser o lugar “onde as pessoas batem na porta para reclamar de preço da gasolina e diesel”… 

Significa que os consumidores, como os caminhoneiros, estarão sujeitos a variações abruptas de preço e terão dificuldade de discutir seus fretes. A privatização representa a perspectiva de greve dos caminhoneiros assim que o valor internacional do petróleo ultrapassar US$ 75 por barril. Vai consolidar a política de preço de paridade de importação, aquela da administração Pedro Parente, que originou a greve de 2018. 

Edição: Marcelo Ferreira