Coluna

Hoje como ontem

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16 de Agosto de 2019 às 09:46
Ontem como hoje, havia os dois lados / Montagem: Fotos de Gildo Lima CPDoc JB e Marcelo Ferreira
Como em 1980, é preciso gritar por igualdade, justiça e uma cidadania ativa

HOJE, 2019: “Manifestações de estudantes ocorridas em outubro do ano passado no Colégio Marista Rosário, logo depois da eleição de Jair Bolsonaro à presidência, deram origem em Porto Alegre a dois movimentos de pais com princípios opostos, refletindo o clima de polarização que se espalhou pelo país nos últimos anos. De um lado, formado por pessoas que se definem, principalmente, como conservadores ou de direita, nasceu o grupo Escola Sem Doutrinação, aliado com o Escola Sem Partido e voltado a combater a suposta presença de ideologias marxistas dentro da sala de aula. Nesta semana, integrantes desse grupo promoveram uma manifestação diante do Colégio Rosário. A outra agremiação, surgida no mesmo contexto, é a Associação de Mães e Pais pela Democracia. Para esse grupo, iniciativas como o Escola Sem Partido representam uma ameaça à liberdade de aprender e ensinar” (‘Conteúdos abordados em aula motivam movimentos de pais’, Itamar Melo, Zero Hora, 09.08.19, p. 24).

ONTEM, 1980: “1. Este Centro, não só no cumprimento de um dever, mas também visando colaborar até onde seja possível para frustrar os planos do Comunismo Internacional em relação ao nosso País, traz à apreciação as informações e considerações que se seguem, as quais embora já conhecidas, merecem enfoque e tratamento especiais. De algum tempo para cá, vêm se avolumando informes e informações sobre pregação ideológica, evidentemente de cunho marxista, nas escolas secundárias, incidindo essa pregação em significativo número de escolas católicas. O que, em verdade, causa preocupação, é justamente o insidioso trabalho sobre as mentes em formação dos adolescentes, cujo objetivo evidente é garantir o engajamento e a comunicação do jovem, mesmo antes de seu ingresso na Universidade” (Ministério do Exército, Gabinete do Ministro, CIE, ‘IMPREGNAÇAO IDEOLÓGICA EM COLÉGIOS CATÓLICOS’ – III Exército, CONFIDENCIAL, Informação número 589, 13.08.80).

HOJE, 2019: “Na segunda-feira, integrantes da comunidade foram para a frente do Colégio Rosário com faixas e cartazes que traziam dizeres como ‘Marista, sim! Marxista, não!’, ‘Mais Champagnat! Menos Frei Betto e Leonardo Boff’ e ‘Por mais Cristianismo nas aulas’. O estopim para o evento para o protesto foi uma briga entre dois adolescentes do segundo ano do Ensino Médio, ocorrido no último dia de aula antes do recesso, 23 de julho. O conflito ocorreu durante uma aula de sociologia, após a exibição de uma entrevista em que o sociólogo Sérgio Adorno afirmava que “não pode ter uma polícia que protege brancos de classe média e uma polícia que lida com a repressão quando tem jovens negros na periferia”. O debate acabou em socos. A escola cancelou as matrículas dos dois alunos envolvidos na briga e demitiu o professor” (Escola Sem Doutrinação, ZH, 09.08.19, p. 24).

ONTEM,1980: “Exemplificando objetivamente, cita-se o ocorrido no Colégio Anchieta, estabelecimento dos mais antigos e tradicionais de PORTO ALEGRE/RS, dirigido pelos padres jesuítas, por cujos bancos passaram várias gerações de destacados homens púbicos do Estado e do País: É um Colégio cujos alunos pertencem a famílias economicamente bem situadas. Pois nesse Colégio, o professor SELVINO HECK – Frei franciscano, expulso pelo Cardeal D. VICENTE SCHERER do Instituto de Teologia da PUC e com extensos registros em AI – ministra aos alunos (segundo ano II Grau) assuntos que nada têm a ver com Religião. 2. Se somarmos a estes fatos, a conhecida atuação da esquerda clerical, nas vilas periféricas e no meio rural, é lícito concluir-se que estamos presenciando um trabalho insidioso de pregação marxista, tendo por base e alvo a juventude e os mais necessitados, visando a médio prazo um confronto de proporções e consequências imprevisíveis, mercê de uma opinião pública nacional desinformada, mal informada e manipulada pelos Órgãos de Comunicação Social de há longo tempo infiltrados” (Informes acima citados, Ministério do Exército, CIE, III Exército).

Ontem como hoje, havia os dois lados.

ONTEM: “Lideram o movimento dos pais contra a orientação do Colégio Anchieta, além de Sonilton Alves, o industrial Luís Carlos Mandelli, o advogado do Banco do Estado do Rio Grande do Sul Marcelo Magalhães e o desembargador Nelson Oscar de Souza. Eles recolheram polígrafos usados nas aulas para demonstrar que o ensino religioso do Colégio Anchieta é marxista, principalmente os documentos ‘Introdução à análise da sociedade’ e ‘Marco Referencial’, distribuídos aos professores de religião, considerando o primeiro ‘altamente comprometedor’ e o segundo ‘de características puramente ideológicas’ (‘Pais contra orientação escolar’, O Estado de São Paulo, 16.11.80, p. 27).

HOJE: “Segundo um dos fundadores do grupo Escola Sem Doutrinação, o médico Paulo Leite, 50 anos, com três filhos estudando no Rosário, cerca de cem pais se mobilizaram, com a finalidade de manter vigilância sobre eventuais manifestações ideológicas em sala de aula e de apresentar propostas para o ensino. Alguns exigiam mais aulas sobre cristianismo e catolicismo como parte do ensino religioso. O médico afirma que o movimento se opõe a qualquer tipo de doutrinação em sala de aula, seja de esquerda ou de direita, mas identifica que predominaria hoje um viés esquerdista” (ZH, matéria citada).

ONTEM: “Entre os pais que defendem a atual linha de ensino religioso está o ex-secretário da Educação do Rio Grande do Sul, José Mariano Beck, que tem dois filhos no Anchieta e outros seis já passaram por essa escola. ‘Não vi nada, até hoje, de propaganda marxista. O que eles estão procurando é, através das aulas de religião, despertar os alunos para os problemas sociais, seguindo a orientação de João Paulo II em Puebla. (‘Também há os que defendem’, O Estado de São Paulo, matéria citada).

HOJE: “A Associação Mães e Pais pela Democracia surgiu no contexto da polarização que tomou o país durante o processo eleitoral do ano passado. Diz a presidente da Associação, a socióloga e especialista em segurança pública, Aline Kerber: “Nos posicionamos no lado oposto ao que defende o Escola Sem Partido. Propomos a pluralidade de ideias, não o pensamento único. Quem está no poder hoje defende o Estado mínimo, os cortes na educação, o patrulhamento ideológico e a militarização das escolas. (…) Não consideram importante educar sobre gênero e sexualidade. O que eles querem, na verdade, é o pensamento único, o pensamento deles, de direita, que não se alinha à ideia de direitos humanos e da compreensão social” (Associação Mães & Pais pela Democracia, ZH, 09.08.19, p. 25).

‘Nada de novo, pois, no front’, a não ser as épocas: 39 anos de diferença. Ontem, 1980, ditadura militar, em plena vigência. Hoje, 2019, democracia, ainda que ameaçada. Espanta que as acusações sejam as mesmas – pregação ideológica, marxismo, doutrinação -, depois das Diretas-Já, da Constituinte e de vários governos democráticos, eleitos diretamente. Os tempos não são mais de ditadura nem de Guerra Fria.

Poder-se ia esperar que nos anos 2000 a educação fosse crítica e plural, que Paulo Freire, celebrado no mundo inteiro, o fosse também no Brasil, não sendo necessárias Jornadas em Defesa da Educação Democrática e do Pensamento de Paulo Freire – lançamento em Porto Alegre em 23 de agosto - e uma Campanha Latino-americana e Caribenha em Defesa do Legado de Paulo Freire - organizada por CEAAL (Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe), em Porto Alegre, 19 de outubro -. Afinal, não existem mais SNIs, DOPSs e semelhantes para monitorar professores, pais e estudantes!!! Ou será que ainda estão por aí, escondidos em algum lugar?

Hoje, 2019, como então, 1980, é preciso gritar por igualdade, justiça e uma cidadania ativa, para as quais a educação, em especial a pública, e de qualidade, contribui como pilar fundamental de qualquer sociedade. Felizmente, hoje como ontem, há os que, como as Mães & Pais pela Democracia, resistem ao pensamento único, lutam por uma educação crítica e libertadora, e acreditam na pluralidade de ideias, na liberdade de pensamento e defendem a democracia.

Edição: Marcelo Ferreira