No semiárido, organização de famílias conquista acesso à água e produção sem veneno

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Momento Agroecológico

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Agricultor do Assentamento Val Paraíso, no Ceará, trabalhando seu hectare de terra / Janes P. Souza
Centenas de toneladas de acerola orgânica são comercializadas anualmente

No pequeno município de Tianguá, localizado na fronteira do Ceará com o Piauí, cerca de 20 famílias agricultoras têm sua renda mensal acrescida em um salário mínimo através da produção orgânica de acerolas. Além delas, os demais moradores do Assentamento Val Paraíso, que conta com o total de 73 famílias, também se beneficiam indiretamente do cultivo e venda da fruta.

Desde 2007, centenas de toneladas de acerola, produzida de forma agroecológica, são comercializadas anualmente. Por trás dessa realidade, existe uma longa história. Em terras que sofrem com a seca, foi a organização dos próprios agricultores que possibilitou o acesso à água para irrigação das frutas e a produção sem uso de veneno.

No estado do Ceará, 95% das terras fazem parte do semiárido brasileiro, com clima seco e poucas chuvas ao longo do ano.

"A gente não recebia nada, não tinha nenhum recurso público a não ser a terra para se trabalhar. A gente não tinha acesso à água, porque essa área da propriedade não tem nenhuma fonte nascente. A água para o consumo humano e animal a gente teria que buscar em um açude público que ficava a 2km do assentamento."

O relato é de Antonio Pinheiro do Nascimento, hoje com 40 anos. Ele era criança quando sua família chegou na região. Hoje o cenário é diferente do qual descreve o agricultor. Os moradores construíram um sistema de irrigação que capta água do açude mais próximo, leva para o assentamento, distribui para dois reservatórios e abastece toda a produção.

Sem agrotóxicos

A partir da conquista da água para irrigar a produção, os agricultores tomaram a decisão de produzir de forma orgânica, sem o uso de agrotóxicos, apesar das dificuldades.

"Já tinha o desejo de algumas famílias [de produzir de forma orgânica], porém o comércio era muito difícil de fazer. O mercado não quer diferenciar se é orgânico ou convencional, ele quer apenas comprar a mercadoria. A gente sabe que quem produz orgânico tem toda uma dificuldade de produzir, então o preço tem que ser diferenciado para considerar e compensar o trabalho do agricultor", explica.

Principal produto cultivado pelas famílias do Assentamento Val Paraíso é a acerola orgânica (Foto: Janes P. Souza)

Segundo conta Antonio Pinheiro, que também é presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais e Agricultores Familiares de Tianguá, o resultado dessa mobilização de quase 30 anos tem sido significativo. "Não resta dúvidas que a produção de acerola é o que dá a sustentação para o assentamento. Tanto para as famílias que estão envolvidas quanto para as outras famílias, que participam indiretamente da produção, como colhedoras”.

Quase 30 anos de trabalho

A luta pelas terras da Fazenda Paraíso, que pertenciam à Diocese de Tianguá, começa em 1986 com a mobilização de centenas de agricultores, que levantavam antes do sol raiar e caminhavam por cerca de duas horas para chegar ao local de trabalho. Ao lado das terras em que trabalhavam, estava a fazenda improdutiva e alvo de diversos processos de grilagem.

Em busca de pedaços de terra para cultivar, os agricultores ocuparam a região com o apoio de sindicatos rurais e da Comunidade Eclesial de Base (CEB). O assentamento definitivo das terras pelo Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, acontece no ano de 1989, após muitos conflitos com os latifundiários.

As conquistas foram chegando aos poucos, e depois da organização dos agricultores para pressionar o poder público.

Agora, esses agricultores se mobilizam para, junto ao poder público, levar maior volume de água para a região. O objetivo é que as famílias que ainda não produzem as acerolas orgânicas tenham condições de produzi-la. Os trabalhadores também querer conquistar recursos para a construção de uma agroindústria, que amplie e melhore o cultivo das acerolas.

Edição: Michele Carvalho