EUROPA

Premiê da Itália renuncia e culpa extrema-direita por crise política

Giuseppe Conte disse que o responsável pela queda do governo era o ministro Matteo Salvini, do partido Liga do Norte

Jurista era o primeiro-ministro da Itália há 14 meses. Ele assumiu o posto por ser uma indicação “neutra” / Foto: Andreas Solaro/AFP

O primeiro-ministro da Itália Giuseppe Conte anunciou nesta terça-feira (20) que apresentará sua renúncia ao presidente Sergio Mattarella. Ele culpou o ministro Matteo Salvini, do partido de extrema-direita Liga Norte, de causar a crise política que levou à queda do governo.

"A decisão da Liga Norte propor uma moção de censura, a imediata 'calendarização' e as declarações e comportamentos claros me levam a interromper essa experiência de governo", disse Conte, em um pronunciamento no Senado. "No fim deste discurso, irei ao presidente para renunciar. A crise atual compromete a ação deste governo, que termina aqui", completou o premiê. 

O jurista era o primeiro-ministro da Itália há 14 meses. Ele assumiu o posto por ser uma indicação “neutra” e consensual entre o partido de extrema-direita Liga Norte e o Movimento 5 Estrelas (M5S), que se coloca como “antissistema”. Os dois partidos foram os mais votados nas últimas eleições e, apesar de adotarem posicionamentos políticos diferentes, decidiram se unir e formar uma coalizão de governo baseada em um "pacto político". 

Em diversos momentos, porém, o M5S e a Liga Norte deram sinais de que a aliança estava se enfraquecendo e entraram em confronto sobre vários temas políticos, como um decreto de segurança proposto pelo ministro do Interior, Matteo Salvini, da Liga , e com um projeto de construção do trem de alta velocidade (TAV), entre Turim e Lyon. Foi justamente uma votação no Parlamento sobre o TAV que causou o racha definitivo no governo no início de agosto. A Liga e o M5S votaram em posições opostas, o que fez com que Salvini decretasse de maneira unilateral o fim da coalizão.

Analistas políticos acreditam que a manobra de encerrar a aliança com o M5S é uma estratégia da Liga de tentar formar um governo sozinha na Itália, pois o partido foi o mais votado neste ano no país para as eleições ao Parlamento Europeu.

Apoiada pelas pesquisas de intenção que voto, que lhe dão 38% das preferências em caso de uma eleição antecipada na Itália, a legenda nacionalista e anti-imigração poderia formar um novo governo apenas com o apoio de pequenos e médios partidos de direita. 

Discurso de Conte

O agora premiê demissionário da Itália chegou ao Parlamento por volta das 15h locais (10h de Brasília). A maior parte do seu discurso serviu para atacar Salvini, a quem Conte chamou de oportunista e irresponsável. 

"A decisão de provocar a crise é irresponsável. O ministro do Interior mostrou que está seguindo interesses pessoais e do partido", disse Conte. "Fazer os cidadãos votarem é a essência da democracia, mas pedir para que votem todo ano é irresponsabilidade", ressaltou.

O tom usado por Conte surpreendeu o próprio Salvini, que acompanhou pessoalmente a sessão no Senado e reagiu às declarações balançando a cabeça. "Os comportamentos adotados nos últimos dias pelo ministro do Interior revelam falta de responsabilidade institucional e grave carência de cultura constitucional. Eu assumo a responsabilidade pelo que eu digo", criticou Conte. 

O premiê também afirmou que a decisão de Salvini de colocar fim à aliança com o M5S foi tomada "logo após [a Liga Norte] obter o voto de confiança no projeto de lei de 'segurança bis', com uma coincidência eleitoral que sugere oportunismo político".

Em seu discurso, Conte, por fim, alertou que a convocação de eleições antecipadas na Itália apresenta riscos ao país. Segundo ele, além de obstruir o funcionamento do Parlamento no segundo semestre, prejudicaria a Itália nas negociações com a União Europeia. 

"Esta crise ocorre em um momento delicado da interlocução com as instituições da União Europeia. Nos próximos dias, estão para serem concluídas as tratativas para os comissários europeus e eu estou trabalhando para garantir à Itália um papel central. É evidente que a Itália corre o risco de participar dessa tratativa em condições de fraqueza", afirmou. 

"O país precisa urgentemente que sejam finalizadas as medidas para crescimento econômico e investimentos. Caro ministro do Interior, promovendo essa crise no governo, você assume grande responsabilidade diante do país. Já te ouvi pedir 'plenos poderes' e invocar as praças, mas essa sua concepção me preocupa", criticou Conte, dirigindo-se a Salvini. O discurso de Conte foi aplaudido pelos políticos do M5S e do Partido Democrático, de esquerda. 

Pela manhã, o líder do M5S, Luigi di Maio, demonstrou apoio a Conte e disse que, se o premiê enfrentasse uma moção de censura, o partido votaria a seu favor. O apoio declarado, porém, não foi o suficiente para poupar o M5S de críticas feitas por Conte também. "Quando o presidente do Conselho de Ministros comparece a uma sessão, o respeito às instituições orienta que se permaneça na sala para escutá-lo. E não há razão que justifique a ausência", alfinetou Conte, referindo-se a um episódio em que parlamentares do M5S não acompanharam um pronunciamento seu no plenário.

(*) Com Ansa

Edição: Opera Mundi