DESRESPEITO

Escolas de JP são atacadas pela página Escola Sem Partido e por vereadora de direita

Eles alegam que pais de alunos os procuraram para denunciar doutrinação ideológica nas escolas

Brasil de Fato | João Pessoa - PB

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Página Escola sem Partido faz prints e acusações contra ações nas escolas da cidade / Internet

A vereadora Eliza Virgínia, juntamente com o vereador Carlão, da Câmara Municipal de João Pessoa, foram até a Escola Cidadã Integral Técnica de João Pessoa (ECIT-JP) para confrontar a gestão sobre um evento realizado no início do mês de agosto denominado I Semana da Diversidade Humana. Os vereadores alegam que pais de alunos os procuraram para denunciar que vem acontecendo uma doutrinação ideológica na escola, principalmente no que se refere à homossexualidade: “Chegou a tal ponto de construir uma guerra em que os alunos estão se digladiando. Então eu pergunto à Secretaria de Estado da Educação, é para isso que os alunos vão para a escola? Pais de alunos estão querendo fazer uma solicitação de transferência coletiva, mas para onde vão? E até há uma escola perto de lá onde há um professor que diz que os meninos se vistam de meninas e as meninas se vistam de meninos”, declarou na tribuna a vereadora Eliza, na terça-feira (21).

Vereadora Eliza Virgínia dá entrevista sobre o assunto ao blog Paraíba e Etc.

O evento ao qual a vereadora se refere é a I Semana da Diversidade Humana, com várias atividades na escola, dentre elas, oficina de ritmo, oficina sobre história afro-brasileira, roda de poesia, direito LGBTQI+, roda de conversa sobre mulheres mercado de trabalho no mundo contemporâneo, direito digital e combate a crimes na web, violação do estatuto da juventude e da diversidade racial e palestras sobre: religião, diversidade de gênero e sexualidade na educação, feminicídio, feminismo orientação sexual, identidade de gênero e prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).

Como o tema do evento é a diversidade humana, foram convidados militantes de movimentos sociais, assim como alunos e professores, para rodas de diálogo e palestras do âmbito da pluralidade. Alguns professores e alunos da escola Francisca Ascensão Cunha, do bairro dos Bancários, foram convidados para palestrar no evento. 

O Movimento Escola Sem Partido printou, das redes sociais, vídeos e fotos desses professores e alunos da escola Francisca Ascensão no meio das atividades da Ecit e fizeram várias legendas questionando o “modelo de escola que queremos” pelo fato desses alunos e professores estarem participando de palestras. Dias após, o blog Política e Etc. fez uma matéria denunciando as duas escolas e traz os posicionamentos da vereadora conservadora, evangélica e de direita, Eliza Virgínia (PP) onde ela disse que recebeu, em seu próprio gabinete, pais de alunos relatando que os seus filhos estavam sendo coagidos por serem conservadores e de direita. Carlão e Eliza foram até lá para confrontar a direção da Escola. Há relatos de alunos que ficaram assustados com a agressividade e o preconceito da Vereadora Eliza e de Carlão. 

 

Caso da Escola Francisca Ascensão Cunha

Eliza cita a Escola Francisca Ascensão Cunha porque há algumas semanas, os alunos do terceiro ano promoveram atividades para arrecadar fundos para sua formatura. Estas atividades consistiam em trotes relacionados à vestimentas. Em uma semana, todos os participantes deveriam ir vestidos de gótico, em outra semana, vestidos de brega, em outra foi a vez do pijama, e na polêmica em questão, foi a vestimenta troca de gênero: meninos vestidos de menina meninas vestidas de meninos. Segundo a vereadora pronunciou na tribuna da Câmara, ela recebeu fotos e também um comunicado oficial da Escola dizendo que quem não fosse vestido com gênero trocado iria pagar uma multa para poder assistir aula. O professor de história Tiago Calabria está em uma das fotos publicadas no blog, vestido de mulher: “O trote foi uma ação dos alunos do terceiro ano que contou com a adesão de vários professores. E quem tem autoridade na escola é a comunidade escolar, formada por vários segmentos, gestão, funcionários, professores, alunos e pais. A gente leva muito a sério o entendimento de que é uma escola plural e democrática, formada pela comunidade escolar, com respeito à religião, à ideologia. Isso consta no plano Estadual de Educação, no Plano Nacional de Educação, na LDB. E não cometemos nenhuma ilegalidade, pelo contrário, estamos fazendo ações que as outras escolas não fazem”, comentou o professor que registrou boletim de ocorrência contra a publicação ilegal e difamatória da sua imagem.

Um dos três Boletins de Ocorrência feitos contra as acusações dos vereadores e do Escola sem Partido. Foto: Arquivo

Ele questiona a vereadora Eliza porque, na escola Francisca Ascensão Cunha não houve nenhuma reclamação formal e nem informal de pais de alunos sobre os trotes, e acredita “no direito de posicionamento de todas as pessoas, sejam de direita ou esquerda, respeita e acolhe todos os seus alunos pois todas as pessoas têm liberdade de se manifestar”.

Página do Escola sem Partido faz printes do evento na escola - Foto: internet

A professora de Artes, Liliane Alves de Souza, gestora escola Francisca Ascensão Cunha conta que os trotes partiram de alunos não têm condições de arcar com os gastos de uma formatura sozinhos. “São alunos do terceiro ano que convidaram a todos para participarem, e quem tinha vontade, participava. Os trotes foram com temas diversos, e um dos temas foi esse de se vestir do gênero oposto, o que não tem necessariamente a ver com  homossexualidade porque se eu me vestir de homem não significa que seja  homossexual. É uma brincadeira relacionada muito mais ao teatro”.

Página do Escola sem Partido faz printes do evento na escola - Foto: internet

A professora considera a postura da vereadora Eliza como uma visão preconceituosa sobre os trajes: “Isso é extremismo; estão querendo tirar o foco das nossas ações positivas, que acontecem na escola”, complementa ela. 

A vereadora da CMJP, Sandra Marrocos, usou a tribuna indignada por entender que a ação de Eliza é preconceituosa e uma perseguição à comunidade LGBT: “A senhora insiste em tentar desqualificar os(as) trabalhadores(as), os educadores e educadoras do Estado da Paraíba. E eu não irei permitir, Eliza. Não misture as coisas, não faça politicagem, não fale inverdades nesta Tribuna. Porque isso é desleal quando a senhora vem para a Tribuna desta casa acusar educadores, pessoas sérias, comprometidas com o fazer profissional, mistura tudo e fala do jeito que quer, e estou muito entristecida com o que a senhora faz”, e Sandra complementa: “Quero prestar toda a minha sororidade e solidariedade para todos os profissionais das escolas envolvidas”.

Vereadora Sandra Marrocos (PSB) - Foto: Assessoria

Liliane Alves considera a intervenção da vereadora Eliza extremamente nociva para a escola: “A interferência de qualquer agente externo é negativo para a escola. Pessoas de fora da comunidade escolar que venham prejudicar o seu andamento cotidiano é considerado uma agressão. Ainda mais uma comunidade em situação de vulnerabilidade. A gente devia estar recebendo agentes públicos para nos ajudar com os desafios. A atitude desses vereadores só mostra a desvalorização da profissão docente”, lamenta Liliane.

 

 

Edição: Cida Alves