Coluna

Bolsonaro contra a mídia e a democracia

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Parte da responsabilidade pela ascensão do bolsonarismo e da fascistização social é justamente dos setores poderosos da mídia
Parte da responsabilidade pela ascensão do bolsonarismo e da fascistização social é justamente dos setores poderosos da mídia - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Principais marcas do bolsonarismo: autoritarismo, machismo e personalismo

Estamos chegando ao final dos primeiros oito meses de governo de Jair Bolsonaro (PSL) e o presidente demonstra cada vez mais seu desprezo pelos meios de comunicação e pelos jornalistas. Para além do trabalho de Bolsonaro e seus asseclas nas redes sociais, a relação do governo com a mídia carrega algumas das principais marcas do bolsonarismo: autoritarismo, machismo e personalismo estão presentes de forma constante nesse complexo relacionamento.

Autoritarismo

Bolsonaro nunca respeitou a democracia, nem como deputado, nem como candidato, nem nestes primeiros tempos como presidente. Isso inclui o desmantelamento de instrumentos democráticos, como conselhos; a interferência na autonomia universitária; e por aí vai. E inclui, também, o absoluto desprezo por um jornalismo minimamente livre. Digo "minimamente" porque sabemos que os grupos que hegemonizam a comunicação no Brasil são controlados pelo grande capital, embora alguns jornalistas busquem, em alguns momentos, colocar o governo em xeque. Bolsonaro já deu diversas demonstrações de que gostaria de ver a mídia absolutamente calada, de boca fechada e pronta para aplaudir qualquer absurdo conduzido pelo governo.

Machismo

As dinâmicas do autoritarismo se confundem aqui com uma outra característica essencial do bolsonarismo: a busca do homem inseguro pela afirmação de sua masculinidade. Trata-se de algo presente em boa parte do eleitorado da ultradireita e em seus candidatos eleitos. Situa-se em parte aí a sanha por armas e violência física, mas também a violência psicológica que atinge, inclusive, jornalistas: é com as jornalistas mulheres que Bolsonaro se sente mais à vontade para esbravejar, colocar dedo no rosto e expressar seu ódio à liberdade e à democracia.

Personalismo

No início do mandato de Bolsonaro, muito se falou em alguns círculos da quebra da liturgia do cargo. Aos poucos, foi ficando claro que o que de fato ocorre é ainda mais profundo: há uma quebra constante da impessoalidade do cargo. Bolsonaro demonstra acreditar verdadeiramente que é o dono do país em vez do ocupante provisório do cargo de Presidente da República. Passa por cima de qualquer nível de impessoalidade, vê críticas como ataques pessoais, cria confusão entre sua vida privada, suas perspectivas privadas, e a vida do país e do conjunto da população. É dessa combinação de autoritarismo e personalismo que brota a intolerância contra opositores, por exemplo, assim como as nomeações e proteções a amigos e filhos.

Fechamento da democracia

Essa perigosa combinação, presente em cada ação do governo, inclusive em sua relação com a mídia, gera um caminho de fechamento da democracia que precisa ser interrompido. São as instituições públicas sob constante ataque, assim como o meio-ambiente e os movimentos populares. E também a parca liberdade de imprensa que conquistamos pós-Ditadura com muita luta.

Bolsonaro trata adversários políticos e atores críticos como inimigos pessoais e, ao criar confusão entre o Jair e a Presidência da República, constrói um imaginário entre seus apoiadores de que qualquer crítica só pode vir de um inimigo do país. É a ampliação de um ambiente fascista que vem em avanço já há tempos, mesmo antes de Bolsonaro tornar-se uma figura relevante na política nacional, mas que com ele ganhou uma referência extremamente negativa.

São inimigos variados, utilizados de acordo com a situação: os “petralhas”, os “comunistas”, os “maconheiros das universidades federais”, as ONGs ambientais. A mídia volta e meia retorna como um desses inimigos, mas ainda não foi apresentada como um alvo preferencial, já que Bolsonaro segue precisando de seus favores nos casos em que há alinhamento entre os setores do poder, como na tramitação da reforma da Previdência. Mas a qualquer momento isso pode mudar. E, com o crescente fechamento da democracia, somado à também crescente fascistização social, não deveremos nos espantar se voltarmos a ver ataques a bancas de jornais, aumento da violência contra jornalistas e outros caminhos de agressão à liberdade de expressão e de imprensa.

É importante ressaltar que parte da responsabilidade pela ascensão do bolsonarismo e da fascistização social é justamente dos setores poderosos da mídia. A falta de democracia midiática é elemento importante para entender como chegamos até aqui. E agora até mesmo a limitada liberdade proporcionada pelo ambiente midiático brasileiro está posta em questão.

Edição: Marcelo Ferreira